As pessoas são boas

O homem tem empatia. Tem capacidade de sentir (e até prever) o que o outro sente

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2018 | 02h00

Os modais são a minha lei. Não tenho mais dirigido. Saio pela cidade de metrô, busão, táxis, ou pela ciclovia. Convivo com toda espécie de profissional do transporte público, pedestre e passageiro.

Cuja maioria, em São Paulo, é calada, vive na bolha, inerte num mundo sonoro próprio, uma trilha pessoal, com a praga chamada fone de ouvido. Eu que adoro papear em modais fico sem interlocutores. A não ser no busão, em que motoristas e cobradores são adeptos de um papo furado.

No Rio, ocorre o oposto. A simpatia dos pedestres, que se olham e intervêm, oferecem uma mãozinha, contrasta com o mau humor, por vezes a absoluta indiferença, de servidores que estão trabalhando no metrô ou ônibus. Sem contar a pilantragem que rola em alguns táxis, se não capricharmos no sotaque carioca, “m’ermão”.

Busão, pego mais às noites. É rápido, confortável. Cadeirante, sou na verdade embarcado. Quando tem plataforma, que chamamos de elevador, todos esperam o motorista operá-la. Em São Paulo, na minha área, predomina o piso baixo.

No mundo rico, são rampas automáticas amarelas, operadas pelo motorista, que apitam quando abrem, estendem ou fecham. Em São Paulo, a solução é o improviso. Nada de rampas automáticas amarelas caras e de difícil manutenção. São tábuas amarelas, estendidas ou pelo motorista ou pelo personagem que só tem no Brasil, o cobrador.

Faço o sinal no ponto. Param no lugar ideal, são atenciosos, solidários. Sentem orgulho de prestar serviço ao cidadão com necessidades especiais. Ainda atam meu cinto, perguntam onde desembarcarei. Passageiros nunca reclamam da demora.

Nunca um motorista se recusou a parar para mim. Nunca encontrei um com má vontade. Às vezes, é um passageiro quem abre a rampa, ou me apoia para descer, se ela ficou muito íngreme.

Na segunda-feira, a prova da bondade humana se revelou mais uma vez. Nunca tinha acontecido. Temia acontecer na entrada do vagão do metrô, em que tenho que, em velocidade, ultrapassar o vão e subir ou descer degraus que, às vezes, chegam a 10 cm.

Minha cadeira motorizada quebrou no meio da rampa amarela de um busão às 23h num ponto da Avenida Paulista, com cara de chuva. Motorista, cobradora, pedestres me ajudando, e nada. Travou. Pensei rápido. Vou até a esquina de casa e lá me viro. Melhor que ficar travado numa avenida sem a menor chance de me locomover. 

Pedi para colocarem a cadeira em modo manual. Ela fica pesada (comigo em cima, 170 kg), difícil de empurrar, mas fui encaixado no espaço. Cinto atado, partimos. Liguei para a mulher, que por sorte atendeu. Pegue o carro e me pegue na farmácia. Liguei para um jovem sobrinho boêmio, vizinho, que, milagre, estava de bobeira em casa. Me encontre no ponto.

Ao chegarmos, o motorista me perguntou qual o melhor lugar para descer. Na farmácia, depois do ponto. Ele subiu o enorme modal na calçada, me desembarcou com passageiros ajudando, me deixaram na calçada.

Pedestres anônimos me deixaram no estacionamento, na superfície plana. O sobrinho nem acreditou; me esperara no ponto. Em minutos, a mulher chegou. Em casa, troquei de bateria, a cadeira funcionou.

As pessoas se odeiam no trânsito, seguram seus volantes como baterias antiaéreas, usam a buzina como o botão que dá a partida num míssil. Mas, no fundo, as pessoas são boas. E sou testemunha.

Em trem, já fui carregado por um indiano que nunca mais vi. Desconhecidos me subiram e desceram escadas. Não pediram nada em troca. “Quer uma ajuda” é um mantra com o que todo deficiente se habitua rotineiramente. Já tive carro quebrado, no meio do nada, em que alguém me ajudou a consertar.

O ódio existe, sempre existiu. Algumas pessoas se odeiam na internet, discordam-se umas das outras, usam argumentos que consideram ofensivos como “vai ler”, “vai estudar”, expõem um racismo incutido, uma homofobia e misoginia desmedidas. A não ser psicopatas, que não são poucos, algumas pessoas, se flagradas, arrependem-se, choram, pedem desculpas, são fotografadas de cabeça baixa, tristes.

O homem tem empatia. Tem capacidade de sentir (e até prever) o que o outro sente. Foi Kant quem disse que o altruísmo é uma condição humana. E os evolucionistas, leitores dele, como Darwin, garantem que os genes humanos criaram um agente completamente inédito, não biológico, ao comportamento animal: a cultura.

Culinária, confecção, decoração, música, poesia, competições esportivas, folclore, ética, religião, filosofia, narrativas, previsão do futuro, casamento, calendário, compreensão dos astros, divisão do ano em estações, noção do antes e depois, da vida e da morte, leis, sanções penais, superstições, correspondências, documentos são próprios dos homens, nos distinguem, nos diferenciam, nos afastam do passado primata. Como o altruísmo.

Kant insistia: ser solidário versus individualismo e conservar a própria vida são um dever; ser bom quando se pode é um dever; existem pessoas tão capacitadas para o altruísmo, que, mesmo sem qualquer vaidade ou interesse, experimentam uma satisfação grande com o contentamento do outro; fazemos o bem não por uma inclinação, mas por um dever. Daí nasceu a ideia de utopia. Eu prefiro acreditar que ela existe. E lutar por ela.

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