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As peraltices de um padre na Croácia

Comédia de costumes de Vinko Bresan investe no humor negro para analisar política, sociedade e Igreja do país

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2014 | 02h12

Para ajudar a promover Os Filhos do Padre, que estreia hoje (quinta), a assessoria da distribuidora Pandora anunciou que se trata do maior êxito do cinema croata. O filme bateu todos os recordes no cinema do país, vencendo a produção estrangeira. Não é bem assim, informa o próprio diretor Vinko Bresan, numa entrevista por telefone, realizada na segunda pela manhã.

Os Filhos do Padre é a segunda maior bilheteria do cinema na Croácia, mas ele acrescenta - "A primeira também é minha, de outro filme do começo da minha carreira, em 1999." Chama-se O Fantasma de Tito e retrata a Croácia capitalista pós-desmembramento da antiga Iugoslávia.

Houve um tempo em que o cinema sumiu do país, por conta da guerra e, depois, das dificuldades de produção. Filmes são caros - Os Filhos do Padre custou 1 milhão -, mas Bresan, graças ao sucesso, tem conseguido levar adiante seus projetos. Filho de um escritor, Jela Godlar, tem sido um crítico acerbo das condições no país, mas pratica um cinema direto, sem elucubrações de linguagem. Nem por isso deixa de ousar, claro. Não é, ou não se considera um diretor de comédias. Fez muitos dramas.

Os Filhos do Padre baseia-se numa peça. Só que, ao trabalhar na adaptação, ele percebeu que havia um potencial cômico. Divertia-se com as situações e os personagens. Resolveu ir fundo. O filme já começa pelo fim. É sobre esse jovem padre chamado Fabijan que chega a uma pequena cidade litorânea, à beira do Mar Adriático, e descobre que as taxas de mortalidade superam em muito as de nascimento.

Cúmplices. Com a cumplicidade de dois moradores, o dono do quiosque, na praça, e o da farmácia, que vendem preservativos, ele bola um plano. Como os casais usam muito camisinhas - há espaço para a homossexualidade, também -, ele fura os preservativos e entrega a sequência do problema a Deus. Há uma explosão de nascimentos.

"Não sei fazer cinema sem me projetar nos personagens de meus filmes. Sou todos eles." Até o gay? Ele explode numa risada do outro lado da linha - "Não, sou lésbico." Sendo a Croácia um país predominantemente católico, ele achou que a Igreja iria ignorá-lo. Mas não. Sofreu até ameaça de excomunhão. "Isso ajudou na divulgação e o filme estourou. Só posso agradecer." Mas Bresan não fez seu filme só para divertir. O entretenimento sofre uma reviravolta no final, e fica grave, com uma denúncia de abuso infantil e pedofilia na Igreja. "Para mim, era só ficção, mas aí começaram a surgir histórias que deram ao filme um cunho real, até nas camisinhas."

A cidadezinha, à beira-mar, com suas casas brancas, parece grega. "Somos todos vizinhos no Mediterrâneo", o diretor explica. Até por medida de economia, fez o filme rapidamente, em 35 dias, incluindo os ensaios. O que havia para improvisar, improvisou antes de filmar (e incorporou ao roteiro). Tudo foi muito preparado. "Antes de filmar, já tinha as cenas na cabeça." Seu ator, Kresimir Mikiv, é famoso no teatro croata. "Ontem mesmo (domingo), vi-o como Hamlet, numa montagem da peça de Shakespeare", informa Vinko Bresan. O personagem já tem esse lado hamletiano, de dúvida. "Você também acha?", ele pergunta. O próprio Bresan vai fazer seu Hamlet, mas serão os ensaios de uma companhia croata que vai encenar a peça numa região remota. Seu Hamlet será diferente por se passar no c... do mundo, e ele ri da própria piada.

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