As peladas de Porto Alegre

Em 1986, passamos quase um ano em Roma. A família toda. Minha mulher ficou conhecida na região em que morávamos - Monteverde Nuovo - porque era da cidade do Falcão, que pouco tempo antes tinha levado o Roma a ganhar o campeonato italiano, um título que perseguia havia anos. Só por vir de Porto Alegre, de onde também viera "il divino Paulo Roberto", a Lucia tinha atenção especial no açougue, na feira e no resto do comércio do bairro. Porto Alegre era conhecida em todo o mundo - bem, pelo menos o mundo do futebol - graças ao Falcão. A quem devemos (e ele nem sabe) boa parte do prazer da nossa temporada romana.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2014 | 02h05

*

A cidade voltou a ser reconhecida internacionalmente pelo Fórum Social Mundial. Era raro você mencionar, na Europa, que era de Porto Alegre sem que o Fórum fosse lembrado, e identificado, como o que foi, nas suas várias edições na cidade, um congresso dos excluídos, o oposto do Fórum dos cachorros grandes de Davos. E o reconhecimento não era só de quem lia jornal. Era do jornaleiro também.

*

E agora, depois do Falcão e do Fórum Social, voltamos ao noticiário mundial com as peladas. Até o momento, se não perdi a conta, quatro mulheres nuas e um travesti também nu passaram correndo por fotógrafos que, a julgar pelas fotos tiradas, não foram rápidos o bastante: só se vê as peladas de costas, depois que passaram. Ainda não se viu uma de frente. Talvez todas sejam uma só, pela bunda em trânsito fica difícil dizer. Especulações sobre a origem e os objetivos das peladas se espalham pelo mundo. Haveria alguma mensagem subliminal na sua galopante nudez? Seria um protesto contra o preço da roupa? Uma manifestação de liberdade contra convenções repressivas e a moral burguesa? Ou apenas uma celebração da primavera, e um prenúncio do que nos espera com o aquecimento global? É provável que o número de peladas se multiplique com a chegada do verão. O que só aumentará o mistério - quem são elas, de onde vêm, o que querem, por que só são vistas de costas, onde carregam o dinheiro pra comprar um picolé? - e, claro, a atenção do mundo. Além do nosso orgulho municipal.

Saudade. Da série Poesia numa Hora Destas?!: Ai que saudade...

do tijolinho de banana

do meu Autorama

do Cinerama

do Mario Quintana

e da Petrobrás pré-lama.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.