''As palavras revitalizam''

Em Toda Terça (2008), a trama surge a partir das confissões em um divã de analista. Já em Flores Azuis (2009), a correspondência em papel é o fio de sobrevivência de um amor aparentemente extinto. Agora, com Paisagem com Dromedário (Companhia das Letras, 168 páginas, R$ 38), Carola Saavedra reforça sua crença no poder de revitalização da palavra. Dessa vez, a comunicação acontece a partir de 22 gravações com que a artista plástica Érika pretende recuperar o amor de Alex, afastado depois da morte de uma amiga, Karen, com quem formavam um triângulo amoroso.

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2010 | 00h00

Da carta para o som gravado, Carola apresenta um salto da literatura para o cinema e até radioteatro. Continua, no entanto, disposta a tratar de questões como a da identidade. Sobre o assunto, ela respondeu às seguintes questões por e-mail.

A grande reflexão sobre a própria vida parece ser a redenção de seus personagens. Concorda?

Sim, são personagens que se encontram em um momento de crise, que perderam algo importante, seja pela morte, separação, ou o fracasso de um projeto de vida, e que tentam se recuperar dessa perda por intermédio da palavra. É pela palavra que eles tentam construir, ou melhor, reconstruir sua identidade. A palavra os traz de volta ao humano, seja em Toda Terça, erguendo mesmo que apenas momentaneamente a redoma de vidro que os separa do mundo, seja em Flores Azuis, resgatando a personagem da loucura e do desespero, ou em Paisagem com Dromedário, em que a palavra tangencia o luto e a transformação da personagem. Ou seja, é essa reflexão pela palavra o que os torna humanos novamente.

Com isso funciona?

Vejo aí uma escolha minha como autora, a cada livro, meus protagonistas foram se tornando mais reais, adentrando mais a vida. E Érika é, de todos eles, a que mais se aproxima dessa ideia, eu diria até que a sua história é justamente essa, ela vai pouco a pouco se despindo da imagem da artista, da mulher glamourosa, distante, e vai se tornando uma mulher como outra qualquer. E há uma grande ousadia em tornar-se uma mulher como outra qualquer. Acho que a sua redenção está justamente nisso. Nessa viagem que ela faz para dentro da normalidade. Eu diria que de todos os personagens que criei, é a minha preferida, por ser fria, injusta, muitas vezes cruel, e ao mesmo tempo corajosa, capaz de questionar, e de se aproximar do que antes a assustava.

Se toda identidade é uma construção passageira que será substituída por outra, o livro capta justamente essa transição?

O que há é uma constante tentativa de transformar essa identidade em algo palpável, em vestir uma casca que poderia nos dar sustentação. O que acontece com Érika é que a identidade que antes lhe servira, deixou de cumprir a sua função, daí a crise, como uma roupa que não serve mais. E ela se encontra justamente nesse momento de transição em que as certezas antigas já não servem, mas ainda não foi possível vislumbrar (o que acontece de forma arbitrária) novas possibilidades. Nesse momento ela procura soluções. A artista plástica, a mulher por muito tempo envolvida numa relação a três, e tudo mais da sua vida anterior perderam o sentido, já não lhe servem como antes, ela então começa a procurar novos papéis. Acho que o grande engano de Érika é achar que um papel exclui o outro, que é necessário abrir mão de alguma coisa. É claro, que sempre somos obrigados a abrir mão de algo, mas ao mesmo tempo há sempre alguma coisa que resta. No caso de Érika, resta uma promessa, e com ela, todas as possibilidades.

Será mesmo preciso esculpir uma identidade para, a partir daí, definir um futuro?

Acho que não. Érika tenta fazê-lo por muito tempo, ela transita entre distintas identidades, possíveis caminhos a seguir. E olha para todos eles com desconfiança. Em algum momento, é justamente o que ela percebe, todas as opções são possíveis, mas nenhuma é completa, satisfatória, e qualquer escolha acarretará uma perda. E o que Érika vai percebendo é que a identidade é algo fluido, maleável, e transitório, e que definir o futuro é impossível. Resta apenas aceitá-lo. Resta aceitar o luto.

TRECHO

Faz uma ou duas semanas que estou aqui. Talvez sejam apenas alguns dias, não sei. Alex, os dias passam de modo incomum neste lugar. Não sei se era uma fotografia ou se fui eu que guardei aquele momento como algo estático na memória. Antes que as coisas com Karen tomassem o rumo que tomaram. Nós três. A imagem era assim: Karen abrindo uma garrafa de vinho, você a abraçava pelas costas, dizia alguma coisa em seu ouvido. Karen ria, envergonhada. Sempre ria assim, como se o riso fosse algo obsceno.

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