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As palavras que a vida traz

Virei madrasta de uma garota de 4 anos e recreio, lancheira e cantina voltaram para minha boca

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2018 | 18h00

Andaime. Andaime é uma palavra que, ao longo de 29 anos, simplesmente passava batida no meu vocabulário cotidiano. É claro que eu sabia o que era um andaime, mas era uma palavra que simplesmente não era dita por mim, pois não surgia em nenhuma das temáticas dos meus dias. Até que nos mudamos para o tal prédio de 130 anos, no qual estavam sendo feitas as obras análogas à da Sagrada Família de Gaudí, e a palavra andaime invadiu a minha boca, meus ouvidos e meus dias, sem nem sequer pedir licença.

Amor, fecha a janela que eu tô de pijama e tem um homem no andaime. Credo, as pombas não param de fazer cocô nos andaimes. O prédio é esse à direita, com um andaime em frente, pode encostar ali, por favor. Precisamos varrer a varanda, que caiu serragem pelos andaimes. Pelo amor de Deus, quando o povo da obra vai desmontar esses andaimes?

Até que, 11 meses depois, desmontaram os andaimes e não foi apenas a estrutura de ferro que foi embora. A palavra também. Parei de falar andaime, simplesmente porque esse já não era mais um assunto dos meus dias. E reparei que a vida faz isso conosco: leva e traz as palavras sem que a gente tenha qualquer controle sobre isso.

Entre os 17 e os 26 anos, parei de falar a palavra recreio. Na faculdade falamos intervalo, para nos sentirmos mais adultos. Todavia, aos 26, virei madrasta de uma figurinha de 4 anos e o recreio voltou para a minha boca. Outras palavras que tinham ficado pelo caminho, como lancheira, velcro e cantina, também regressaram sem pedir licença.

Há palavras que são um verdadeiro alívio quando se vão. Encanador costuma ser uma delas. Um simples vazamento no apartamento de cima e, de repente, o encanador já foi parar nas nossas bocas. Só sai de lá quando o problema se resolve, enquanto isso, falamos mais encanador do que bom dia. O ‘moço da net’ também segue a mesma linha, sendo que essa expressão vai e volta com mais frequência porque aqueles aparelhos parecem ter sido programados para dar problema.

Fralda é outra palavra que alivia quando vai embora, mas que, curiosamente, nos deixa felizes quando regressa. Chupeta é exatamente igual, assim como o verbo regurgitar. Que bom que acabou, que bom que voltou com uma nova vida. E o curioso é que isso geralmente não está sob o nosso controle: netos, sobrinhos, filhos de amigos, eles surgem e trazem as palavras de volta. A gente distrai e, quando vê, já está com a chupeta na boca outra vez.

Há outras palavras que a gente só quer que vão embora para nunca mais voltar. Quimioterapia. Radioterapia. Iodoterapia. Essas, enquanto ficam, dominam quase tudo. Mas uma hora elas acabam saindo de cena. Saiam e não voltem, por favor. Às vezes vocês curam, eu sei, obrigada por isso, mas gostaria muito de que vocês ficassem lá longe, junto com o andaime.

Tem palavra que a gente esquece que existe. Esquadro, compasso e transferidor são dessas. Mas este ano elas estavam na lista do material escolar da miúda e, tantos anos depois, essas belas palavras escolares voltaram aos meus dias. Toboágua também é dessas, assim como cavaquinho e maria-mole. Vai entender, cada coisa boa.

Óculos, sobretudo acompanhados do pronome possessivo “meus”, é dessas palavras que chegam e não vão mais embora. Sei bem como é. Dizem que dentadura é assim também, mas dentadura e Corega, graças a Deus, ainda passam longe na minha boca, tanto como objetos como enquanto verbetes. 

Mas o fato é que a gente não controla nada. A vida vem e traz os andaimes, leva os recreios, substitui os compassos pelos babadores, traz os nomes dos remédios, leva os nomes de algumas pessoas que amamos. Seja como for, neste domingo tão incômodo, só espero que duas expressões não nos sejam subtraídas: democracia e direitos humanos. Votem de forma consciente. E Deus nos ajude.

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