As 'ondas sonoras' de uma grande soprano

Eliane Coelho fala sobre Wagner, Verdi e concertos dedicados a Strauss

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2013 | 02h16

Duas semanas depois de se dedicar à obra de Wagner em apresentações no Rio e em Belo Horizonte - e antes de embarcar para Belém, onde estrela nova produção do Trovatore de Verdi -, a soprano Eliane Coelho faz uma rápida parada em São Paulo para dois concertos, hoje e domingo, com a Orquestra Sinfônica do Teatro São Pedro, sob regência de Abel Rocha. No programa, outra de suas paixões: as Quatro Últimas Canções de Richard Strauss, criações derradeiras do compositor.

"Ainda como soprano mais leve, cantei Sophie, no Cavaleiro da Rosa; meu diploma na escola de música de Hannover foi com a Zerbinetta, de Ariadne em Naxos. E, desde o tempo de estudante, eu já me apresentava com canções, principalmente o ciclo de Brentano, com o famoso Amor", ela lembra. Viriam então atuações elogiadas em óperas como Salomé, que ela interpretou em palcos como o Scala de Milão e a Ópera de Paris.

"Cada obra de Strauss tem um significado específico para mim, são como fases da vida! E, sem querer soar patética, preciso dizer que as últimas canções representam para mim o final da jornada, a última fase. E isso se dá de uma forma tão iluminada, que cada momento, cada frase, provocam em mim uma sensação de calma interior, como um estado alfa. São meditações, orações, em pleno entendimento diante da mudança", diz a cantora.

Convencionou-se definir Eliane Coelho como a mais importante soprano brasileira depois de Bidu Sayão. Nascida no Rio, mudou-se para a Alemanha no fim dos anos 70 e, de lá, foi parar na Áustria, mais especificamente na Ópera de Viena, onde interpretou os principais pilares do repertório. E, nos últimos anos, estreou papéis como as protagonistas da Lady Macbeth de Shostakovich e da Yerma, de Villa-Lobos.

Passou, também, a se aventurar pelos grandes papéis das óperas de Richard Wagner. Cantou Tristão e Isolda e fez Brünhilde, no Anel do Nibelungo. Há duas semanas, enfrentou uma exaustiva jornada dupla. No domingo, e na quarta, cantou Brünhilde, em A Valquíria, no Municipal do Rio - e, entre as duas apresentações, deu um pulo em Belo Horizonte, para interpretar outro dos grandes papéis de soprano de Wagner, Sieglinde, na mesma Valquíria.

"A primeira vez que ouvi Wagner foi com as gravações do maestro Wilhelm Furtwängler, ainda na escola de música", ela recorda. "Eu ficava embriagada com a música, era como se seu entrasse em um transe. E eu nunca ousei pensar que um dia iria poder fazer parte dessas ondas sonoras, cantar esses papéis. Por isso, fico muito feliz de estar tendo essas oportunidades de viver esse mundo wagneriano, tão complexo, denso e profundo."

Em 2013, comemoram-se os bicentenários de Wagner e Verdi. E Eliane estreia, no fim de agosto, uma nova produção de Il Trovatore, no Teatro da Paz, em Belém. Que pontos comuns e diferenças vê entre os dois autores? "Eu tenho um grande amor por Verdi. Não quero aqui fazer análises sobre esses dois gênios, cada um à sua maneira Existem livros sobre o assunto, escritos por gente muito mais competente. Eu me limito a dar a minha opinião, muito espontânea e de coração. Wagner é um monstro, no bom sentido. As dimensões que alcança são imensas, inumanas. E Verdi é humano! Sempre! Os personagens de suas óperas são musicalmente apresentados de uma forma, que encontram diretamente o caminho para o coração de quem escuta. O intelecto vem depois. E em nenhum momento a gente se sente esmagada pela música, pelo contrário."

Daí vem a sua fascinação, ela explica, por Il Trovatore. "A ópera é genial. Assim como Wagner nos faz esquecer que Siegmund e Sieglinde, na Valquíria, são irmãos, nos faz esquecer que o que acontece entre eles é um incesto, Verdi também nos faz esquecer todas as atrocidades que são mencionadas no libreto. Eu adoro isso no Trovatore! É um nonsense genial! É uma música direta, com um vigor genial!"

Após Belém, Eliane volta para a Europa - e, por conta de compromissos em Viena, não pôde aceitar o papel de Jupyra, na ópera de Francisco Braga, oferecido pelo Municipal de São Paulo - ela já gravou a obra para o selo BIS, com a Sinfônica do Estado de São Paulo regida por John Neschling.

Ela diz que não faz planos. Mas conta que tem se interessado cada vez mais pelo repertório de canções. "É um universo muito vasto. Eu me dediquei muito ao repertório alemão e francês e, nos últimos anos, comecei a entrar no repertório russo. Sou muito curiosa, gosto de procurar música, misturar estilos, ou, ao contrário, fazer um programa inteiro só com um compositor. Já andei sondando também Kurt Weil. No momento, são só ideias. E eu vou devagar com elas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.