Vincent Kessler/Reuters
Vincent Kessler/Reuters

As novas revoluções de Dany

Militante verde, ele esteve nas trincheiras de maio de 1968 e falou ao ''Estado''

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2011 | 00h00

Dany, o Vermelho, está de volta, agora com os cabelos glaciais em vez de ruivos. Aos 66 anos, Daniel Cohn-Bendit, o franco-alemão que empunhou, em pleno maio de 1968, a bandeira do "sejamos realistas, peçamos o impossível" desembarca no Brasil neste fim de semana para um debate sobre ambientalismo. Ele fará a conferência Ecologia, no sábado, dia 27, no Oi Futuro, no Flamengo, das 19 h às 20h30.

Cohn-Bendit dividirá a palestra com Graciela Chichilnisky e a ex-candidata à presidência Marina Silva. A mediação será de Fernando Gabeira. Sua mesa terá como propósito discutir questões ligadas ao meio ambiente e desenvolvimento na África e no mundo, assim como a participação e o envolvimento da juventude nesses movimentos (culturais, ambientais, sociais e ecológicos) de hoje, comparando com o que vivenciou nos anos 60.

Mas Cohn-Bendit, que a Economist definiu como "o provocador Verde", está especialmente de olho nas transformações que se espraiam a partir da emergência da economia brasileira na América Latina - ele crê que está aqui o foco do futuro, e o comportamento da sociedade.

"O Brasil precisa ter atenção, porque tem uma responsabilidade enorme na luta contra a degradação do clima. Está todo mundo de olho no Brasil, e suas decisões terão de ser exemplares. Tem de tomar uma decisão enfática na questão do apoio às energias renováveis, e na condenação da energia nuclear, que é cara e perigosa, como acabamos de ver no Japão", disse ao Estado, por telefone, o parlamentar e ativista europeu.

"A regulação do capitalismo é urgente e passa pelo ecológico e pelo social", afirmou Cohn-Bendit, que anda conversando com intelectuais e ativistas brasileiros para sentir a temperatura das mudanças e dos debates que passam pelo novo protagonismo do País no campo da cultura, esportes, social e política. "É preciso haver uma revolução de choque na política. A economia enlouqueceu, não segue mais nenhum preceito lógico, e se a política não tomar a frente das coisas, estará sendo irresponsável", afirma o parlamentar.

Segundo Cohn-Bendit, parte da frustração demonstrada pelos manifestantes em países como Espanha e Inglaterra tem relação com a falta de respostas da política convencional às demandas dos jovens. "O slogan "Sejamos realistas, peçamos o impossível" ainda é atual, ainda deve ser perseguido", afirmou.

"O mercado é doido, não pode dar a medida das agendas políticas, sociais, ambientais. É preciso reverter esse processo, e não andar a reboque dele", disse. "No Brasil, é mais importante reforçar a luta pela reforma agrária do que atender a uma agenda de expansão econômica sem medidas."

Cohn-Bendit, desde sempre, esteve envolvido nas situações políticas do Brasil. Em 2010, manifestou apoio à candidatura de Marina Silva no primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras. No segundo turno, manifestou-se a favor de Dilma Rousseff.

"Não posso responder sobre o futuro de Marina Silva. Ela vai precisar se reposicionar agora, longe do Partido Verde. Reexaminar a prática política, se é eleitoral ou não o caminho", disse. Quanto ao seu próprio hábitat natural, a França, onde chegou a ser cogitado a candidato presidencial, ele não se mostra tão confiante, mas já se posiciona. Integrante do Parlamento Europeu pelo Partido Verde alemão, ele defende a "transformação ecológica da sociedade e a federalização da Europa" e está apoiando a candidatura de Eva Joly para 2012.

Ele comentou brevemente o caso de Dominique Strauss-Kahn, que era forte candidato à presidência na França e está sendo julgado nos Estados Unidos por ter violentado uma camareira de hotel. "É uma coisa completamente louca. Nesse caso, eu sou tão observador quanto você. É uma questão que deve ser resolvida na Justiça e não tem leituras paralelas. É um caso de ato sexual violento."

Cohn-Bendit fez questão de comentar sobre a atual fase da seleção brasileira. "Vocês estão à beira de uma Copa do Mundo, e ainda não têm um time. A situação é delicada", afirmou. "Eu conversei com o Cohn-Bendit, ele está interessado na fenomenologia da sociedade brasileira", disse o cantor Gilberto Gil, clareando as preocupações do amigo. "Vem a Copa do Mundo aí, ele está interessado nesses fenômenos de inserção do Brasil na dimensão global, ele quer fazer um filme. Tá preocupado com o futebol brasileiro de uma forma real, correta. Ele percebe uma estagnação no processo de modernização do futebol que o País impôs ao mundo décadas atrás; a ida de jogadores para o mundo inteiro, a seleção tendo de jogar dentro de um padrão cada vez mais universal, e o universal absorvendo elementos da particularidade brasileira. Como a seleção espanhola, por exemplo, jogando um futebol que é brasileiro num certo sentido."

QUEM É

DANIEL COHN-BENDIT

SOCIÓLOGO

Filho de judeus alemães, nasceu na França em 1945. Em 1967, enquanto cursava Sociologia em Nanterre, iniciou um movimento de contestação que levaria ao famoso Maio de 1968, em Paris. Pela ação política, apesar da dupla nacionalidade, foi proibido de retornar à França após participar de atos em Berlim. Com isso, prosperaram os movimentos pelos direitos civis e pela igualdade da mulher - a ultraesquerda, porém, acusou-o de querer uma revolução pequeno-burguesa com os paralelepípedos do Quartier Latin.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.