As mutações de Alfred Hitchcock

Exibição de O Terceiro Tiro serviu de ponto de partida para uma longa análise da produção do diretor inglês, que morreu há 30 anos

P.E. SALES GOMES, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

O desprezo por Hollywood, tão frequente na França, não é manifestado pela crítica cinematográfica mas pelos espíritos que têm por hábito examinar com irônica complacência tudo o que vem da América. Desde os tempos da exaltação poética de Louis Dellue pelos filmes de William Hart não se desmentiu nunca o interesse e a fidelidade da crítica francesa pelo cinema norte-americano.

O conteúdo intelectual e moral é quase sempre mais evidente nos filmes franceses do que nos americanos. Na dosagem do espetáculo, os produtores na França não hesitam em incluir elementos que se dirigem diretamente à inteligência dos espectadores, ao passo que os americanos procuram evitar essa explicitação. A crítica francesa reage a isso de modo curioso. Por um lado, irrita-se com as doses de inteligência, necessariamente moderadas porque dirigidas ao grande número, evidenciadas nos filmes de seus compatriotas, e por outro lado tendem a superestimar o conteúdo de pensamento implícito nos filmes americanos. Como este pensamento está cuidadosamente escondido atrás da ação e das emoções, sua apreensão exige um trabalho que imediatamente lhe confere um prestigio de qualidade rara. O entusiasmo da descoberta leva o crítico a querer valorizá-la ao máximo e não raro a elaboração ambiciosas que terminam por adquirir uma realidade própria, sem contacto com a obra que a suscitou. Entretanto, esses exageros não impedem resultados finalmente positivos, e pode-se afirmar que o fervor e a imaginação às vezes delirantes da jovem crítica francesa contribuíram muito para a compreensão em profundidade da obra de um Huston ou um Hitchcock. Faço essas considerações s propósito de Hitchcock e da apresentação recente em São Paulo de The Trouble with Harry (O Terceiro Tiro).

Num prefácio, escrito em 1941, para uma antologia de novelas policiais, Hitchcock procura definir as características do gênero. A principal, segundo ele, seria a insistência sobre o normal. É sem surpresa que o público espera os horrores cometidos pelo monstro do dr. Frankenstein, ao passo que tem outra sutileza as emoções provocadas pelos crimes de uma personagem respeitável e insignificante. Esta procura de uma atmosfera de tranquila normalidade cuja função é dar relevo à anormalidade, ao crime, é uma receita segura para toda uma série de novelas policiais e suas decorrentes cinematográficas, entre as quais se contam muitas fitas do próprio Hitchcock.

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