As múltiplas atividades de Flavio de Souza

Flavio de Souza é uma artista irrequieto, sempre com diversos programas guardados na manga, prontos para serem sacados no momento certo. Eclético, está em cartaz com a ópera que dirige, João e Maria (no Teatro Muncipal, Praça Ramos de Azevedo, s/n.º; sábado, às 17 h; na terça, às 20h30; e na quinta, às 18 h) e com a exposição e peça teatral Por Que, Pra Quê?, no Sesc Pompéia (Rua Clélia, 93). Na lista ainda podem ser contabilizados dois livros lançados na Bienal: Jack Brodóski em Resgate no Círculo de Fogo (Companhia das Letrinhas, 64 págs., R$ 21) e O Ca(u)so do Colar Arco-Íris (Mercúrio Jovem). Calma, ainda vem mais: no mês de julho, a TV Cultura estréia o programa Ilha Rá-Tim-Bum. No segundo semestre, os personagens cientistas Tíbio e Perônio entram em ação levando experiências científicas ao ar diariamente, por apenas dois minutos em horários alternados.João e Maria marca uma dupla estréia: do diretor e do próprio espetáculo, montado pela primeira vez no Brasil. "Essa experiência foi muito interessante, a ópera é uma fantasia mesmo, não tem como cair na realidade, um ponto muito legal, ainda mais por ser baseada em um conto de fadas, que todo mundo conhece." O público mergulha no universo mágico sugerido pela história, encanta-se com os personagens. Já o diretor precisou de um certo jogo de cintura para a adaptação de linguagem. "No ínicio foi difícil. No teatro normalmente as pessoas falam, têm pausas; em uma ópera elas cantam, às vezes coisas dificílimas. Ao seguir o texto básico no teatro, consigo calcular, mas na ópera é mais difícil marcar o tempo." A dificuldade em acertar o passo com a orquestra sob o comando da batuta de Jamil Maluf só foi resolvida quando Souza decidiu dançar conforme a música. "Tive de seguir a música e também fui estudar. Não conhecia a ópera, assim como a maioria das pessoas que não compõem o público amante do lírico. Essa obra, infelizmente, é pouco conhecida no Brasil." Na Europa e nos Estados Unidos, Hänsel e Gretel - em português João e Maria - de Engelbert Humperdick, marca presença todos os anos nos palcos, uma tradição natalina. A missão de Souza foi transformar essa ópera do fim do século 19, com forte influência de Wagner, em parte do repertório do Teatro Municipal. Mais que isso, a apresentação também pretende atingir a atenção das crianças. "O público, no geral, não está acostumado a ouvir ópera, muitas vezes é difícil de entender. A encomenda que recebi era para fazer algo com o intuito de formar platéia, por essa razão adaptei a história para ficar mais interessante para as crianças. Não mexi na história nem na música, não sou louco", brinca. Souza acrescentou, por exemplo, a cena em que os meninos jogam migalhas de pão para marcar o caminho de volta para casa. "João e Maria sem essa cena, na minha opinião, não é João e Maria." O diretor aproveitou os momentos em que normalmente a orquestra ficaria tocando sem os cantores para acrescentar ações com a intenção de prender a atenção do público jovem. Um exemplo são os acrobatas, que entram na abertura do espetáculo e trabalham como assistentes da bruxa. "Em um momento, ela canta, canta e nada acontece, então os acrobatas têm ações figurativas." O letreiro conta a história da ópera, quem fez o que e demais detalhes para contextualizar os fatos aos espectadores e, em alguns trechos, narra a fábula. Outro elemento atraente do espetáculo é a presença do teatro negro. A companhia Imago de Animação, sob a direção de Fernando Anhê, leva ao palco atores vestidos de negro, que brincam com a iluminação, os cenários e figurinos marcados com tinta acrílica. Bailarinos da Escola Municipal de Bailado e o Coral Infanto-Juvenil completam o quadro.O projeto João e Maria começou a ser elaborado em janeiro, depois de muitas conversas com Anhê. "Esse tempo foi importante para o entrosamento, o mesmo aspecto positivo ocorreu com Por Que, Pra Quê?, que deveria estrear no meio do ano passado. Durante esse período tivemos idéias, criamos coisas novas, pudemos elaborar melhor."Por Que, Pra Quê? leva às ciências, como conceitos básicos da física, ao alcance da moçadinha, de maneira muito divertida: por meio de um exposição interativa e por uma peça de teatro, até o dia 23. "O espaço de tempo foi importante, se tivéssemos apresentado no ano passado não teria essa riqueza. Essa é uma semente para quando os estudantes ouvirem sobre física, daqui a uns anos, saberem o significado ou, pelo menos, terem uma noção do que estão lhes falando. Eu não tive essa chance, adquiri repulsa por todas as matérias que não eram da área de humanas. Acredito que é muito tarde para aprender, os conceitos são muito abstratos. Tenho muito orgulho de ter realizado um trabalho como esse, tão grandioso e que leva muitas informações às pessoas." O sistema de ensino, no mundo inteiro, incomoda o escritor e diretor. Para ele, os estudantes têm uma série de atrativos a mais que o colégio. "A escola está muito defasada, um sentado atrás do outro ouvindo uma pessoa falar: o conteúdo mudou, mas a forma é a mesma. Creio que projetos desse tipo ajudam a educar e mostrar que ciência também pode ser divertida e está presente no cotidiano." Seguindo esse mesmo caminho, chegam às telas experiências realizadas por Tíbio e Perônio. Consciente da ausência de visitas aos laboratórios escolares, Souza mostrará o resultado prático do que os meninos ouvem. "Sob a orientação de Sandra Mutarelli, descobrimos que mesmo em escolas de elite os meninos não costumam pôr a mão na massa. Então resolvemos mostrar, em vez de ficarmos apenas falando. São experimentos interessantes, que não deverão ser repetidos em casa. Diremos: não tente fazer, nem junto com seu pai. Não deixe seu pai fazer esta experiência!" Outro esperado projeto é Ilha Rá-Tim-Bum, um seriado repleto de aventuras voltado para pré-adolescentes, previsto para estrear no dia 1.º de julho. "Ainda estou na dependência dos resultados do programa. Confome a reação do público e dos patrocinadores, terá uma nova fase e eu escreverei outros capítulos, por isso não posso falar sobre novos projetos."

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