As muitas visões sobre a história de D. Pedro I

Autor de O Império É Você, Javier Moro participa de debate

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2012 | 03h11

Durante três anos, o escritor espanhol Javier Moro conviveu com a trajetória de uma importante figura da História brasileira, o imperador D. Pedro I. "Descobri um personagem muito interessante do ponto de vista literário por suas contradições, defeitos, excessos, paixões incontroláveis e também por seu lado quixotesco, quase heroico, que demonstrou na batalha do Porto", explica ele, que estará hoje no Instituto Cervantes para conversar sobre O Império É Você (Planeta), fruto de suas pesquisas.

O livro ganhou o Prêmio Planeta do ano passado (que lhe garantiu 600 mil) e alcançou boa repercussão na Espanha, onde a figura do imperador ainda é pouco conhecida - foram mais de 400 mil exemplares vendidos em menos de um ano. O lançamento no Brasil, no entanto, provocou discussões entre os estudiosos por conta de passagens consideradas licenciosas: Moro teria cometido erros históricos. "Eu me mantive o mais fiel possível aos fatos, por isso que sempre afirmei que o livro traz história romanceada - não é um romance histórico", defende-se o autor.

Moro, que já traçou um perfil da indiana Sonia Gandhi (O Sari Vermelho) e outro do ambientalista Chico Mendes (Caminhos de Liberdade), fez uma extensa pesquisa nos manuscritos depositados na Biblioteca Nacional, no Rio. Também se debruçou nos cerca de 40 livros a respeito de D. Pedro I que comprou em livrarias e sebos do Brasil, Portugal e França.

"A obra não traz uma trama inventada tampouco personagens criados do nada que se desenvolvem em um entorno histórico", afirma. "Tudo e todos existiram, mas minha narrativa tem uma perspectiva literária, a ficção está na interpretação da vida dos personagens, nos diálogos que recriei. E é um gênero perfeitamente legítimo: é possível aproximar-se da verdade histórica por meio da História propriamente dita, mas também pela literatura ou pelo cinema."

Em quase 500 páginas, Moro descreve as desventuras de um homem hiperativo, namorador e epilético, que decretou a independência brasileira em 1822. "Não é um personagem fácil de moldar", justifica. "Pedro foi um bom pai, apesar de provavelmente não ter tido uma infância feliz: foi cuidado pelas criadas espanholas de sua mãe no palácio de Queluz. Aprendeu a ler e escrever tardiamente, mas revelava uma inteligência intuitiva que permitiu a ele tomar decisões valentes, algo que poucos conseguiriam. Foi também um filho leal, um grande soldado, comportou-se como um autêntico herói em guerras, mas era o pior marido que uma sogra poderia sonhar para sua filha."

Javier Moro conta que o título foi inspirado em uma das frases ditas por Pedro ao pai, D. João, quando este o obrigava a romper com uma bailarina francesa por quem estava apaixonado - a realeza queria que ele se casasse com Leopoldina. "D. João disse a ele: 'Você pode amar como um homem, mas tem que se casar como um príncipe porque um dia o império será teu'. Recriei esse diálogo, mas baseado na documentação existente que revela a preocupação do rei quando descobriu que a bailarina estava grávida de seu filho."

Para o escritor espanhol, a objetividade absoluta é uma utopia, até mesmo para os historiadores mais "científicos". "O importante para a ficção histórica não é tanto o detalhe das datas, mas ser fiel ao espírito da época, ser preciso nas descrições, construir os personagens de uma maneira crível e lógica, oferecer uma interpretação honesta do que se conhece", observa. "Mas é preciso lembrar que até os historiadores estão influenciados por sua condição, pelo momento e pela época em que escrevem, pela escola à qual pertencem e pela visão do momento."

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