Masao Goto Filho/AE
Masao Goto Filho/AE

As muitas terras de Antonio Dias

Artista exibe mostra centrada em sua produção dos anos 1960 e 1970

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

Por mais que possa parecer improvável, as produções dos anos 1960 e, principalmente, da década de 1970 do artista Antonio Dias são quase desconhecidas no Brasil. "Poucos museus têm obras minhas", diz Antonio, um dos criadores mais consagrados do País. Da geração política e poética sessentista, ele, de 66 anos, nascido em Campina Grande, se divide entre Colônia (Alemanha), Milão (Itália) e Rio. Mas agora faz-se a oportunidade de o público brasileiro ver de maneira ampla seu trabalho do período "desconhecido" com a mostra antológica Anywhere Is My Land, que acaba de ser inaugurada na Pinacoteca do Estado, e em sua participação na 29.ª Bienal de São Paulo, a ser aberta para o público dia 25.

Anywhere Is My Land (qualquer lugar é minha terra) é título de uma pintura do artista de 1968 e de exposição que ele apresentou entre outubro do ano passado e fevereiro deste ano no espaço expositivo da fundação suíça Daros Latinamerica, em Zurique. A mostra chega a São Paulo, trazida pelo Santander Cultural, com poucas modificações no conjunto de obras (muitas inéditas), majoritariamente, pinturas, objetos, instalações, desenhos e filmes em Super-8 pertencentes ao acervo da Daros Latinamerica e ainda das coleções do casal Geneviève e Jean Boghici (primeiro marchand de Dias), do próprio artista e da Pinacoteca.

De certa maneira, é um percurso linear que se faz nas sete salas climatizadas da Pinacoteca pela passagem do artista em sua produção dos anos 1960 e 1970. "Esse período foi visto de uma maneira muito rápida aqui", diz Antonio Dias, que se mudou em 1966 para Paris, levado por prêmio da Bienal de arte francesa, e desde então não teve mais residência fixa no Brasil. Tendo participado em 1965 da antológica mostra Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio, Antonio realizava no País, já sob pressão da ditadura militar, "pinturas-objetos" figurativas de que misturava a linguagem dos comics e elementos relacionados à violência e ao sexo.

Irônico. "Ele é um artista único porque, para se falar de sua época pop, não é nada igual ao americano de Warhol e outros", diz o alemão Hans-Michael Herzog, diretor e curador da Daros Latinamerica, criada em 2000 e hoje uma das maiores coleções centradas na arte latino-americana da Europa - tanto que a fundação está construindo no bairro de Botafogo, no Rio, a Casa Daros, em edificação histórica e tombada. "Seu pop é político, poético, subversivo e irônico", continua Herzog.

Nas primeiras salas da exposição estão as obras figurativas e gráficas, como o artista as define, desse momento. Está também o grande objeto Coração Para Amassar, de 1966 (instalado em local de onde o público pode ter sempre uma bela visada dela). "É um trabalho muito ousado, porque também lida com o kitsch total", afirma Herzog. Mas com sua ida para a Europa, Antonio Dias dá um outro rumo para suas obras, tirando delas uma figuração "explícita", entrando no território mais minimalista da "não-imagem", do jogo de palavras (sentenças em inglês), mas ainda assim de mistura de materiais, da provocação e da ironia.

Por exemplo, há telas feitas a partir de 1968 e início dos anos 1970 em que uma estrutura gráfica e de grade, com fundos negros ou brancos e de texturas que remetem a constelações (e outras vezes, à pele), ganha frases e palavras como Anywhere Is My Land; History/Story; God/Dog; Energy/Memory. "Me achavam um surrealista disfarçado", brinca Antonio. "É apenas uma mesma linguagem com diferentes formas. Ele é como um Picasso de fases marcadas", diz o diretor da Daros.

Mesmo que estejamos vendo em São Paulo a produção de Antonio Dias de um período - na Bienal, ainda, ele vai apresentar as instalações Faça Você Mesmo: Território Liberdade (1968) e O País Inventado (1976) - qualquer momento de sua arte e de todos é política para ele, "seja qual for". "Meu trabalho de hoje é mais lento e mais complicado de juntar", afirma o artista.

ANTONIO DIAS - ANYWHERE IS MY LAND

Pinacoteca. Praça da Luz, 2, tel. 3324- 1000, Centro.

10h/18h (fecha segunda). R$ 6 (grátis aos sábados). Até 7/11.

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