As mudanças que permitiram tornar o russo uma língua literária

A professora Aurora Bernardini analisa como o idioma popular se fundiu ao eclesiástico, com influência do grego e latim

Aurora Bernardini , Especial para o Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2014 | 19h30

 O idioma russo provém do eslavo comum, língua que se separou do indo-europeu em tempos remotos e que deu origem ao russo antigo, russo-branco, ucraniano, polonês, checo, eslovaco, servo-croata, esloveno e ao búlgaro, com seu dialeto, o eslavo antigo.

O império Bizantino procurou estender, durante séculos, sua influência política sobre as populações eslavas que catequizou (e alfabetizou, pois não existia língua eslava escrita). No século 9.º, os monges Cirilo e Metódio, pertencentes a uma população eslava que habitava a região de Salonica, na Grécia, tiveram o encargo de estabelecer o alfabeto – que viria a ser chamado cirílico – e os fundamentos de uma língua na qual seriam escritos os textos sagrados destinados a toda a população eslava.

Valeram-se de sua própria língua, um dialeto do búlgaro antigo que passou a ser conhecido como eslavo antigo ou eslavo eclesiástico ou, ainda, eslavão. No final do século 10.º, quando a Rússia kievana se converteu ao cristianismo ortodoxo, esse idioma se consagrou não apenas como língua da Igreja, mas como língua literária do país. Deu-se, então, o seguinte paradoxo, o povo falava o russo antigo e os livros eram escritos em eslavo eclesiástico, não apenas os religiosos, mas a própria grande epopeia russa (de autor desconhecido) o Dito do exército de Ígor, do século 12.

Porém, o eslavo eclesiástico foi sofrendo a influência da língua falada a ponto de a Igreja russa mandar proceder a uma revisão de todos os livros eclesiásticos (século 14) para escoimá-los de qualquer influência estranha. A revisão repetiu-se no século 17, quando a Ucrânia foi incorporada à Rússia, influenciando o eslavo eclesiástico russo com seu eslavo eclesiástico mais requintado e repassado de polonismos. Contra a revisão dos livros eclesiásticos ordenada pelo patriarca Nikon insurge-se o arcipreste Avvakum que, em sua autobiografia (Vida), foi o primeiro escritor importante a utilizar o russo como língua literária. 

Em 1755, ainda sob a influência do reinado esclarecido de Pedro, o Grande (1678-1725), talvez o melhor dos czares, foi publicada a primeira Gramática Russa, de Mikhail Lomonossov, que fundiu a língua popular à eclesiástica, com alguma influência do grego e do latim. Sua consolidação como língua literária se deu na geração de A.S. Puchkin (1799-1837), o poeta nacional russo, que a tornou mais leve e mais próxima da língua falada.

Essas informações, que remontam às aulas de Boris Schnaiderman, são importantes para mostrar como é relativamente recente o fenômeno da literatura russa, e para explicar por que as coletâneas de História da Literatura Russa costumam começar com excertos da Vida (atribulada) do arcipreste Avvakum, e, tirante as crônicas e hagiografias escritas em eslavão, passem praticamente à época de Puchkin.

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