Às moscas, com a solidão

Por que será que existem mulheres sempre rodeadas de homens, enquanto outras, igualmente agradáveis, parecem não encontrar um só homem em toda a superfície da terra?Tenho procurado a resposta na psicanálise, na história, na literatura. Havia esquecido de procurar entre as moscas.Mas, felizmente, havia quem procurasse. Ken Kaneshiro, biólogo da Universidade do Havaí, debruçou-se sobre elas durante 20 anos. Não estudou qualquer mosca, dedicou-se apenas as Drosóphilas, aquelas que todo evolucionista prefere porque resolvem a vida rapidinho, levando somente dois meses do ovo à maturidade. Nem estudou qualquer comportamento. Concentrou-se nas atividades sexuais.E descobriu que, exatamente como acontece entre nós, existem moscas requestadas, moscas pouco cotadas, e moscas que não conseguem companhia sexual em toda a sua breve/longa vida. Pasmem, a porcentagem das encalhadas é altíssima: 30% desconhecem por completo os prazeres da carne - e não estou fazendo trocadilho com o fato das Drosóphilas serem moscas de frutas.Eis que, depois de termos achado durante tantos anos que só fica sempre sozinho quem se furta ao amor por problemas psicológicos ,esbarramos nesse perturbador dado novo, capaz de abalar as catedrais psicanalíticas. Parece pouco provável que uma mosca tenha dificuldade de se acasalar por ter convivido com a difícil relação dos pais. Ou que sofra de timidez, seja esmagada por complexos de inferioridade ou continue dominada pelo trauma da acne juvenil. Ou que tenha medo da rejeição. Ou que não consiga se entregar. Parece pouco provável, enfim, que a solidão da mosca seja devida a problemas emocionais estruturados ao longo da sua formação. Moscas são moscas, é claro, não são pessoas, nem têm comportamentos humanos. Mas nossas similitudes com os animais se provam dia a dia mais surpreendentes - tantas, que testamos neles os remédios que depois nos curarão. E especular é sempre um saudável exercício.As sedutoras já nascem prontasKanechiro descobriu ainda que existem moscas mais interessadas em sexo. E moscas para as quais sexo não parece ser tão importante. Assim como podem-se diferenciar as mais bem sucedidas na arte da sedução e as mais desastradas.Isso nos remete ao que já sabíamos, mas que costumamos esquecer: a necessidade humana de parceria amorosa/erótica também não é igual para todos. Acabamos de descobrir novas variantes geo-culturais: o Novo Relatório Hite , recém publicado, diz que as mulheres britânicas são muito mais fogosas que as australianas ou as neozelandesas. Segundo pesquisas realizadas pela autora, 29% das inglesas disseram querer sexo todos os dias; entre as neozelandesas a proporção das vorazes ficou em 24% ; e as australianas se limitaram a 22%. Pergunto-me qual seria a proporção das brasileiras, que sempre olharam os britânicos com indisfarçado desprezo sexual.O que a torna nosso desejo sexual aparentemente igual é a pressão social. De formas indiretas, através da valorização sobretudo, a sociedade está a nos exigir um padrão sexual praticamente idêntico, e do mais alto nível. Declarar que sexo não está em primeiro lugar entre seus ideais de consumo é impensável para um homem, e desabonador para uma mulher. Esperam-se altos índices de desejo e cobra-se bom desempenho. Mas na verdade, ter pouco desejo é tão natural quanto ter muito.É evidente, também, que àquele que está interessado , mais fácil fica interessar. Don Juan, que não pensava em outra coisa - mesmo porque não lhe sobrava tempo- tinha um verdadeiro catálogo de suas conquistas. Seu sucesso, como o de qualquer conquistador, era proporcional ao empenho, aliado ao talento.Não somos moscas. Entretanto faz sentido pensar que uma pessoa sozinha estaria só, não por falta de possíveis companheiros, mas devido, em grande parte, à sua falta real de interesse no acoplamento. Uma falta de interesse inconfessa, por ser tão malvista socialmente. E sobretudo encoberta e confundida com comportamentos outros, como , por exemplo, fantasias românticas irrealizáveis ou estabelecimento de exigências inalcançáveis.As mais exigentes têm menos chancesKaneshiro descobriu também que algumas moscas são muito seletivas na escolha de seus parceiros, ao contrário de outras, que cruzam adoidado, sem grandes exigências. As fêmeas se tornam mais seletivas nos períodos em que a população de moscas é numerosa, oferecendo fartura de opções. Quando, porém, alguma alteração ambiental vem ameaçar a espécie, qualquer macho passa a ser considerado válido.Podemos deduzir que o sentido de seleção das fêmeas funciona, ao mesmo tempo, para aprimorar a espécie e para regular seu crescimento. Se sobram indivíduos, elas só escolhem os melhores machos, para terem a melhor descendência. Se faltam indivíduos, abandonam seus escrúpulos, e lançam mão - ou patinha- de qualquer reprodutor. As moscas pouco atraentes, as excessivamente seletivas e as 30% "solteiras" seriam uma espécie de reserva erótica da espécie, que, embora sem muito uso em tempos de normalidade, viria salvar a lavoura nas horas de crise.Impossível não lembrar da Idade Média, quando as famílias nobres mantinham sempre alguns filhos solteiros, homens e mulheres, para servirem de moeda matrimonial em caso de necessidade. Impossível não lembrar os numerosos casamentos que antecedem e se seguem às guerras. E a situação em certos quilombos brasileiros onde, devido à falta de mulheres, cada uma delas tinha direito a mais de um marido, convivendo todos na mesma casa, a dela. Impossível não ver uma clara semelhança entre o comportamento humano e o das moscas. Sem ser uma garantia, essa semelhança pode nos dar uma outra visão da solidão amorosa. Uma visão que não culpabiliza tanto o indivíduo tornando-o o único responsável, mas que o engloba em um contexto harmônico maior, o do equilíbrio da espécie.

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