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Leandro Karnal
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As missas da Terra de Santa Cruz

Pinturas históricas falam da concepção que queremos produzir sobre o passado

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2017 | 02h00

Hoje é o aniversário da primeira missa celebrada no que viria a ser o Brasil. Ato simbólico do descobrimento, a liturgia oficiada por frei Henrique de Coimbra é um verdadeiro mito fundador do País. O quadro que o catarinense Victor Meirelles de Lima (1832-1903) pintou por volta de 1861 continua a ser ilustração para livros didáticos, foi roteiro para o filme de Humberto Mauro e tema de inspiração permanente. Sua importância histórica justifica uma visita ao Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro.

Já foi forte a tendência de ficar apontando nos quadros de época as incongruências históricas. É um gesto possível. A comitiva do príncipe d. Pedro não estava a cavalo, como mostra o quadro de Pedro Américo no ainda fechado Museu do Ipiranga. Não existia uma cruz do porte retratado por Meirelles. O objeto religioso só surgiria na segunda missa. A mãe de Napoleão Bonaparte não estava presente à coroação do filho, como a retratou Jacques-Louis David no quadro famoso. 

Pinturas históricas falam da concepção que queremos produzir sobre o passado. Tal como fotografias, incluem a subjetividade do autor, da escolha da cena, do registro do enquadramento. São documentos e, como todo documento, necessitam de interpretação. Ao contrário do que imagina o senso comum, nenhuma imagem fala por si, ela precisa de interlocutores.

Mais rico do que estabelecer um “jogo de sete erros” entre o real histórico e o quadro, podemos aprofundar suas fontes, seus discursos ocultos ou revelados, sua gramática da recepção. A Primeira Missa em Cabília, de Horace Vernet (1789-1863), é fundamental para entendermos como se cria, recria e omite o passado através da pintura. 

O Brasil nasceu católico em uma missa sob o sol da atual Bahia. Mas a cena já oculta algo da maioria: os indígenas reais e do quadro não eram cristianizados. Ao retratar a primeira missa, já estabelecemos uma linha futura com a vitória oficial do Catolicismo Romano na Terra de Santa Cruz. O que o quadro recria, no século 19, é uma narrativa dominante branca e católica, que, por muitos anos, foi a única narrativa possível. 

O processo é antigo e continua sendo renovado. Produzimos narrativas para tentar impor uma versão sobre muitas outras possibilidades. Vi, em uma palestra no interior de São Paulo, um gigantesco monumento que anunciava que aquela urbe “pertencia ao Senhor Jesus Cristo”. Imaginei que ali, com menos arte e técnica, existia o mesmo intento do quadro Primeira Missa no Brasil. O Brasil pertence ao rei de Portugal e a Jesus, diz, no fundo, frei Henrique de Coimbra ao elevar a hóstia. Esta é a cruz, eu represento o Estado que trouxe esta cruz, logo, sendo a Terra de Santa Cruz e eu seu legítimo e único representante, o Brasil me pertence. 

Talvez o problema não seja a ideia de que a cidade pertence a Jesus, todavia saber quem, dentre seu variado fã-clube, fala em nome do Mestre e que, como tal, se torna o interlocutor válido para assumir a posse da cidade. 

Ocorre o mesmo quando vejo um adesivo num automóvel: propriedade do Senhor Jesus. É provável que o código Renavam do automóvel não esteja em nome registrado de Jesus de Nazaré, mas de um cidadão comum como você e eu. O carro é de Jesus, no entanto eu o compro, vendo, alugo ou destruo de acordo com a minha vontade. A quem, de fato, pertence o carro? O adesivo representa uma crença que apenas visa a proteger o proprietário? Jesus seria um escudo simbólico, indicado como dono, mas que funcionaria como guardião? Difícil saber o que cada pessoa pensa ao fazê-lo. 

O Reino de Deus é complexo e fascinante. O debate mais forte não é sobre o caminho para o Paraíso, mas quem foi habilitado a cobrar o pedágio da via celestial. O poder político no País sempre esteve próximo do religioso. Apenas dois chefes do Executivo do País não foram católicos. Um deles, Geisel, chegou a se irritar com as imagens contidas na capela do agora assombrado Palácio da Alvorada. Porém, para o grande público, nem Geisel nem Café Filho assumiram posição de enfrentamento com o status quo católico. 

Tivemos presidentes de catolicismo incerto, como Getúlio Vargas, capaz de batizar seu filho com o nome pouco pontifício de Lutero. Fernando Henrique Cardoso era, ao que se sabe, ateu. Esse dado parece ter pesado na derrota para a Prefeitura de São Paulo. FHC deve ter aprendido a lição, que o príncipe deve parecer todo piedade e todo religião, especialmente se não possuir tais apanágios. 

A primeira missa no Brasil é uma tentativa de produzir um discurso unívoco sobre o País. Para nossa sorte, nem a turma do almirante Cabral nem a turma do presidente Temer sabem, de verdade, o que se passa na cabeça de nós, os indígenas, que estamos olhando para a celebração. Ah... se soubessem! Boa semana a todos. 

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