As mil faces de Lewgoy

Ator, dirigido por Glauber e Herzog, ganha documentário

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2011 | 03h08

O Lewgoy é como o mar; você passa aquelas primeiras ondas na arrebentação e depois é tudo tranquilo. Quem assim define o ator José Lewgoy (1920-2003) é seu amigo, o cartunista Chico Caruso. A frase resume bem o sujeito com pecha de irascível, mas que se revela um doce de coco depois que a intimidade se estabelece. Visto de longe, Lewgoy parece mesmo um mar. Imenso, multifacetado, plural, cheio de contrastes e sempre igual a si mesmo - como descobriu Claudio Kahns, diretor de Eu Eu Eu José Lewgoy, documentário que estreia sexta-feira.

"Muita gente não conseguia atravessar essas primeiras ondas e chegar até o Lewgoy", conta Kahns, que o conheceu em Lisboa onde o ator trabalhava em O Judeu, de Jom Tob Azulay. Kahns atreveu-se a enfrentar a arrebentação e os dois tornaram-se amigos. Lá mesmo, em Portugal, o cineasta percebeu como Lewgoy era famoso. "Era época da novela Dancing Days e ele era reconhecido na rua em Lisboa." Pediam autógrafos e aplaudiam. A mesma coisa em Roma. "São poucos os atores brasileiros que tiveram esse reconhecimento internacional", acredita Kahns.

Fama justificada por longa carreira, que começou na Universidade de Yale, na qual o gaúcho de Veranópolis José Lewgoy conseguiu bolsa de estudos graças à influência de Érico Veríssimo. O filme relembra esse período, o início da atividade na cena teatral norte-americana e o embarque de volta ao Brasil, talvez precipitado e no fundo lamentado por Lewgoy. Depois o trabalho nas chanchadas, nas quais se tornou o eterno vilão; em um clássico do cinema político como Terra em Transe, no qual faz o governador populista Vieira.

Um grande número de filmes, tendo contracenado com Oscarito e Grande Otelo, Cyll Farney e Anselmo Duarte e sido dirigido por cineastas como Glauber e Werner Herzog. Além deles, o teatro e mais de 30 anos de participação na programação da Globo são suficientes para tornar uma pessoa muitíssimo conhecida e amada pelo público.

E, assim, Claudio Kahns, depois de atravessar as ondas, marolas e correntezas contrárias da primeira aproximação com o ator, tornou-se íntimo e lhe propôs fazerem um documentário. Lewgoy se esquivava, rabugento: "Isso é para quem está com o pé na cova. Você quer que eu morra". E a coisa parou por aí. Amigos, mas sem filme. Até que um dia, de surpresa, como era seu hábito, Lewgoy ligou para Kahns e disse que estava pronto para começar o documentário. Era o ano de 2002, mas em seguida Lewgoy ficou doente, foi internado e, meses depois, morreu. Não houve tempo de fazer o que haviam planejado, um filme em que fossem os dois juntos a toda parte, entrevistando amigos, familiares, produtores, gente de todo tipo que havia trabalhado ou convivido com ele.

O jeito foi fazer o filme de Lewgoy... sem Lewgoy. Por sorte, havia muito material a ser pesquisado. "Cem filmes, 23 novelas e algumas minisséries e cinejornais dos quais ele tinha participado", conta Kahns. Havia também um longo depoimento dado à Fundação Roberto Marinho. Muito material, hoje em dia, é sinônimo de muito problema, por conta dos direitos autorais. Houve isso? "Negociei e tive de abrir mão de alguns materiais por conta dessas dificuldades; acho que o filme não se ressente. O Lewgoy essencial está lá."

E está lá em momentos díspares, como convém a um perfil que recusa o elogio fácil. Lewgoy era egoico e temperamental. Era generoso e inteligente. Essas características contrárias afloram nas entrevistas com sua família em Veranópolis, no interior do Rio Grande do Sul. Era também grande, como constata um emocionado Werner Herzog ao recordar do ator que com ele trabalhou em Cobra Verde e Fitzcarraldo, no qual fazia um bilionário explorador da borracha em plena floresta amazônica. Herzog interrompeu suas férias na Floresta Negra para gravar o depoimento sobre o ator e amigo.

Lewgoy era diferente - nesse ponto todos estão de acordo. E por quê? "Parece que a formação sofisticada, sua cinefilia e cultura o levaram a trilhar uma carreira diferenciada", arrisca Kahns. Lembra que o ator falava várias línguas, tinha morado nos Estados Unidos e na França, "Viajava muito e estava sempre up to date naquilo que acontecia pelo mundo", diz o cineasta.

Esse conjunto de circunstâncias, aliado àquele plus indefinível chamado talento, produziu de fato um artista singular: Herzog dá um depoimento iluminador: "Há grandes atores, que podem fazer grandes ou pequenos papéis, não importa se são protagonistas ou coadjuvantes... Lewgoy era um deles", de acordo com o cineasta alemão.

Ator de muitas faces e homem contraditório, ranzinza e generoso, Lewgoy era de fato único.

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