As metamorfoses de um iluminista demolidor

Wilson Bueno foi nosso La Fontaine, infelizmente nada popular como o fabulista francês. Há cinco anos, ao comentar seu Cachorros do Céu, escrevi que algum dia o Brasil ainda iria reconhecer o escritor paranaense - assassinado em sua casa, em Curitiba, onde foi encontrado morto na última segunda-feira - como um dos grandes reinventores do panorama literário brasileiro. E foi. No entanto, o que produziu jamais recebeu os merecidos prêmios - e ele foi finalista de tantos deles, perdendo sempre, que deve ter se habituado à derrota. O talentoso ficcionista chileno Roberto Bolaño (1953- 2003), ao menos, ganhava todos, mesmo não tendo a popularidade de que desfruta nos dias de hoje. Fatalmente deve acontecer o mesmo com Wilson Bueno, que já tem livros publicados fora do Brasil.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2010 | 00h00

Metamorfose era o negócio de Bueno. Em Cachorros do Céu, tudo parece o que não é, mas poderia ser, o que coloca o autor do outro lado da linha de La Fontaine e outros moralistas. Para Bueno, a apropriação era um direito literário e ele não abriu mão de ressuscitar Ivan Krilov para refletir sobre nosso atual estado de irracionalidade, usando as lições desse iluminista, que igualmente recorria às bestas como alegorias de nossa corrupção e selvageria, a mesma que matou a facadas o ficcionista brasileiro de 61 anos.

Bueno tem tantos livros bons que seria difícil apontar o melhor. Desde Mar Paraguayo, publicado em 1992 pela editora Iluminuras - em portunhol, como foi concebido -, esse cruzamento híbrido de guarani, português e espanhol ficou identificado como sua marca registrada, a da ironia fina, erudita, demolidora, que não poupa ditaduras nem ditadores. Há, em Cachorros do Céu, um grau tão elevado de demolição que as próprias palavras tremem em desenfreada metamorfose, como seus bichos - um jabuti que se disfarça de bacia, um macaco que dança tarantela e um rato beauvoiriano que se enoja da experiência existencial.

Diversas editoras se ocuparam da obra de Wilson Bueno, que desde 2005 era exclusivo da Planeta do Brasil - à qual coube seu testamento literário, este acerto de contas com o irmão, morto em 2002, que é Mano, A Noite Está Velha. A Iluminuras, além de Mar Paraguayo, lançou também o experimental Jardim Zoológico, apresentado pelo compositor Arnaldo Antunes. Nomes como o do músico pop e o do ensaísta Benedito Nunes, autor do prefácio de Meu Tio Roseno, a Cavalo, atestam a versatilidade de Bueno, capaz de pular da academia para o bar da esquina em dois rápidos parágrafos.

Criador de um caderno cultural de grande repercussão, também lido por acadêmicos e plebeus, Nicolau, e durante anos colaborador do Estado, Wilson Bueno vai ser lembrado, sobretudo, por sua generosidade, por seu humor e imenso talento literário. Bolaño deve estar em boa companhia.

O AUTOR

Nome: Wilson

Bueno (1949-2010)

Origem: Jaguapitã (PR)

Principais obras: Bolero"s Bar (Editora Travessa, 1986), Mar Paraguayo (Iluminuras, 1992), Meu Tio Roseno, a Cavalo (Editora 34, 2000) e A Copista de Kafka (Planeta, 2007)

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