As melhores de 2012

Sim, o leitor há de ter sido assediado pelas listas de fim de ano. Os melhores filmes, livros, os melhores memes, os maiores vexames capturados em vídeo. Mas, antes de deixarem a bola cair literalmente à meia-noite em Times Square, vou levantar a bola com minha lista de 10 mais. As 10 melhores coisas que não aconteceram em 2012. Anestesiados pelo pessimismo, calejados por decepções, tivemos gratas surpresas e, na ausência do pior esperado, há mais motivo para brindar o ano-novo.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2012 | 02h06

1 - A impunidade não prevaleceu no Brasil

Um dos episódios mais desmoralizantes da nossa jovem democracia não acabou em pizza. A popularidade de um presidente não dobrou o Poder Judiciário e o cinismo que marcou minha juventude sob a ditadura, quem sabe, pode ser substituído por uma nova expectativa do poder público.

2 - O mundo não acabou

Não chega a ser surpresa mas o circo em torno da interpretação tola do calendário maia proporciona um exemplo de frivolidade amplificada que dá mau nome ao jornalismo. Como crendice fútil para 2013, proponho espalhar que, no próximo dia 21 de dezembro, vai haver um arrebatamento exclusivo para personagens de reality shows escatológicos. Imaginem se um punhado deles acredita e desaparece por precaução?

3 - O dinheiro de poucos não comprou a eleição presidencial

Acreditávamos que a eleição mais cara da história americana poderia ser decidida pelos doadores zilionários liberados por uma decisão histórica da Suprema Corte, que considerou o uso de dinheiro na política equivalente à liberdade de expressão. O ultrarreacionário magnata de cassinos Sheldon Adelson pode ter gasto mais de US$ 100 milhões tentando derrotar Barack Obama e eleger protegidos para o Congresso. Podia ter investido numa fábrica de gelo no Alasca.

4 - A Suprema Corte não matou o Obamacare

Uma doce vitória para 40 milhões de americanos que não têm nenhum tipo de seguro-saúde, já que ela veio num ataque de consciência de um conservador de carteirinha, o juiz John Roberts, presidente do tribunal. Entre a militância legislativa e o lugar na história, Roberts escolheu seu legado e fez a coisa certa. Em poucos dias, lunáticos do Tea Party começaram a desfilar de camisetas com o slogan "Impeach John Roberts".

5 - A mídia extremista não teve sua noite de triunfo

Diante dos números da apuração, na noite de 6 de novembro, soldados de Rupert Murdoch aquartelados na Fox News tentaram em vão telegrafar otimismo. A certa altura, um dos grandes arquitetos da propaganda de direita desde a era Bush, Karl Rove, decidiu que a contagem contrariava sua certeza. Foi um momento emblemático que trouxe ridículo para a rede especializada em jornalismo como bolha ideológica.

6 - O lobby das armas, afinal, perdeu a pontaria

Diante do massacre de crianças numa escola de Connecticut, com o país mergulhado em luto, a National Rifle Association, que há décadas corrompe o sistema político americano, deu um tiro no pé. Reagiu com desdém cruel à chacina de Newtown e ofereceu sua visão paranoica de uma sociedade ainda mais armada. Pela primeira vez, desde os anos 80, o público dá sinais de apoio à ideia de que ninguém precisa de uma metralhadora automática ou de 100 rodadas de munição para caçar patos.

7 - Os latinos disseram "No" nas urnas

Os latinos foram tratados como cidadãos de segunda classe nos debates entre candidatos republicanos e tiveram seus amigos e parentes convidados por Mitt Romney a se autodeportar. Votaram maciçamente nos democratas. Os republicanos estão fazendo serenata sob a janela de qualquer latino jovem disposto a ser a cara do movimento conservador.

8 - O aquecimento do planeta não é ficção

O resto do mundo sabe disso, é claro, mas um momento numa entrevista coletiva, em meio ao caos após a devastação do furacão Sandy, será lembrado como uma reversão da tradição de avestruz que marca o discurso político sobre o clima nos Estados Unidos. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, disse que a exceção meteorológica está se tornando rotina. Aproveitou o choque da população para fazer as conexões entre a erosão da costa, o nível do oceano e a temperatura. Virou o debate que tem tratado aqui a ciência ambiental como panfletagem ideológica.

9 - O romance não morreu

Os praticantes da ficção nos deram bons presentes em 2012. Escritores como Alice Munro, Junot Diaz, Hillary Mantel e Zadie Smith, só para citar exemplos em língua inglesa, são sinais evidentes do vigor do romance e desafiam as previsões de casmurros que todo ano marcam no seu calendário maia particular o fim dos tempos literários.

10 - Willard Mitt Romney não se mudou para Washington

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