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As máscaras do mundo

Os hipócritas são pessoas com uma dor muito forte e transformam seu sofrimento em setas de ataque aos outros. É um analgésico que revela mais do que resolve

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

26 de maio de 2019 | 05h30

Hipocrisia nos define como humanos. O termo deriva de uma ideia clássica associada ao teatro: o hipócrita representa, finge, demonstra coisas distintas do que sente ou do que é. Para exercer sua arte, o profissional do palco exerce uma “hipocrisia”: imita uma personagem, copia seus trejeitos, adapta sua fala ao imitado. Da virtude da cenografia, desembarcamos no defeito do fingimento. É conhecido o pensamento de François de la Rochefoucauld: a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. O hipócrita sabe o que é certo e tenta imitar o certo, mas sendo errado, só lhe resta interpretar um papel. 

O hipócrita sabe como deve agir ou falar e tem a consciência simbólica do comportamento moral. Jesus atacava os fariseus com fúria e os classificava como fingidores de uma virtude que estava na lei e que devia ser cobrada exaustivamente dos outros, menos deles mesmos. Em Mateus 12, 34, existe um ataque quase apoplético do Messias: classifica todos eles como “raça de víboras”! Para homens acostumados ao deserto como os hebreus, a víbora era um perigo silencioso e fatal. Sem fazer barulho, daria o bote de forma mortal, disfarçando suas intenções. Ainda que a biologia das víboras diga o contrário, a metáfora funcionava: os fariseus se arrastavam no pó e envenenavam de forma sorrateira.

O drama nasce da estrutura comum à maioria da espécie humana. Temos padrões duros para julgar os outros e elásticos quando o objeto do júri somos nós. Eu, que tropeço na gramática, ouço um erro alheio e denuncio como sinal de analfabetismo absoluto.

Geralmente significa o seguinte: conheço a regra A e desconheço muitas outras e, quando alguém infringe a que eu conheço, relevo as que não domino e centralizo na regra quebrada todo o peso da comunicação. “Como ele não sabe que orações adverbiais são emolduradas por vírgulas?”, resmunga a autoridade de um isolado conhecimento. A questão é que todos estamos aprendendo, sempre, e que seria bom que nos estimulássemos à melhoria conjunta, sem a arrogância cínica e hipócrita da destruição alheia. No meu caso específico, a lembrança permanente de que meus alunos não sabem o que eu sei, em primeiro lugar porque têm menos de 20 anos e estão em formação e, principalmente, estão ali para aprender e o pouco que eu sei não sabia com a idade deles. O hipócrita, além do duplo padrão de cobrança (um para si e outro para os outros) inventa passado: “Na sua idade eu já falava quatro línguas!”.

Lembro-me sempre de uma velha piada de um professor americano que ataca um aluno insolente com a comparação: “Na sua idade, Abraham Lincoln já era advogado”. O discente teria redarguido: “E na sua, já era presidente”. 

Jesus não era falso e não tinha duplo padrão de julgamento. Estamos mais próximos do DNA dos fariseus do que do Nazareno. Nossa hipocrisia é universal, coletiva, descarada e, quase sempre, funciona no mesmo campo semântico farisaico: atual pelo bem e em nome da moral. Não se trata de perdoar todos, mas de incluir-se no problema. Além de ser parte do lodo da humanidade, cumpre não criar dois pesos e duas medidas. Colegas meus que desculpavam todos os tropeços gramaticais do presidente Lula, encontrando até certo charme na fala, agora caem matando em deslizes do ministro da Justiça ou da Educação. Se um deslize de fala nos condenasse ao Inferno, o Paraíso seria despovoado. Todos temos a obrigação (começando comigo) de falar o melhor possível nossa língua materna.

O preparadíssimo ex-presidente FHC, em congresso do seu partido, disse que “queremos brasileiros melhor educados, e não brasileiros liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria”. Os especialistas na gramática formal e na educação preferem “mais bem” a “melhor”. FHC errou, como eu e como você, querida leitora e estimado leitor. Todos erramos sempre e seria melhor não apontar muito o dedo porque o “castigo vem a cavalo”. Os erros de todos nós não desculpam nossa necessidade de buscar melhorias, apenas deveriam diminuir nossa arrogância. É uma lição para todos nós cidadãos, em especial para mim e para todos os professores que temos como parte da missão corrigir textos e falas de alunos. Não se envaideça com seu conhecimento se o padrão comparativo for de jovens em idade de aprender. Imagine-se submetido, no mesmo tema, a um rigoroso inquérito de especialistas de altíssimo padrão e todos saberemos que, tal como seus alunos, seu/nosso conhecimento tem limites sérios.

Se sairmos, para encerrar, do campo moral ou cristão sobre a hipocrisia, restam-nos as parapraxias freudianas, os atos falhos que revelam muito da nossa dor ou sentimentos pouco elaborados. Os verdadeiros sábios não se abalam com o limite dos discípulos, pois não são alunos mais adiantados, são mestres. Homens e mulheres tranquilos com sua sexualidade jamais atacam a alheia. Pessoas realmente refinadas nunca entram em crise histérica com comportamentos menos sofisticados. A hipocrisia é também um grande ato falho que serve para disfarçar nosso incômodo de pertencer ao mesmo grupo que ataco. Os hipócritas são pessoas com uma dor muito forte e transformam seu sofrimento em setas de ataque aos outros. É um analgésico que revela mais do que resolve. Boa semana para todos nós!

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