As mais aplaudidas do Festival de Teatro de Curitiba

O diretor do Oficina, José Celso Martinez Correa, vem lutando pela criação de uma universidade na qual as mitologias indígena, africana e grega sejam estudadas em profundidade e com igual importância no currículo. De certa forma, essa valorização sintetiza a poética de dois espetáculos muito aplaudidos no primeiro fim de semana do Festival de Teatro de Curitiba, que começou na quinta e termina no domingo. Ambos vieram do Rio e integram mostra oficial: Bakulo, os Bem Lembrados, com a Cia. dos Comuns, que levou ao palco do Guairão nove atores e cinco músicos, todos negros, e A Descoberta das Américas, solo do ator Júlio Adrião. Por outro lado, frustração foi o que provocou o cancelamento das apresentações de outra produção carioca, O Amor Imortal de Antônio e Cleópatra, que deveria estrear na quarta-feira na mostra oficial e já estava com lotação esgotada. O motivo foi a não liberação do ator Caco Ciocler das gravações de cenas da minissérie JK, exibida pela rede Globo. A Descoberta das Américas chegou ao festival cercada de expectativas positivas e já tinha ingressos esgotados. Nesse caso, a atração não se devia à projeção do ator via TV, mas às críticas elogiosas ao seu trabalho e também ao texto de Dario Fo, prêmio Nobel de Literatura. E Júlio Adrião não decepcionou. O público aplaudiu entusiasticamente a performance desse ator que, de tão criativo, torna-se efetivamente um parceiro autoral de Fo. Feito sob encomenda para comemorar os 500 anos das descobertas, o texto mostra o europeu como invasor cruel e estúpido e subverte a História ao transformar um marginal pé-de-chinelo italiano, depois de muitas peripécias, em líder indígena, que expulsa os espanhóis do continente. Adrião é um ator carismático, inteligente, de muitos recursos. Há momentos geniais em sua performance. Por exemplo, vale por mil discursos sobre antropofagia cultural, no sentido usado por Oswald de Andrade, a forma como ele resolve, no corpo, a cena em que os índios cantam com ritmo próprio um hino recém-aprendido na catequese. E a precisão da partitura gestual do ator - o grande trunfo do espetáculo - fica muito clara na cena, igualmente brilhante, em que ele ´costura´ barrigas de índios rasgadas em guerra. Certamente não é nada fácil dirigir um ator com a força criativa de Adrião e faz falta uma intervenção mais eficaz da diretora Alessandra Vanucci, o que poderia marcar com mais clareza as idéias e a poética embutidas no texto. Por exemplo, o conhecimento que salva o personagem no novo mundo - a sabedoria de ler na lua - quase o mata na Europa, por ser considerado bruxaria. A imagem de uma lua amarela volta à cena, sempre em momentos decisivos, mas nada marca essas passagens. Pequenas "amarras" ajudariam a dar rumo à performance tão exuberante que acaba por diluir sentidos. Ao final, a vontade imediata é aplaudir intensamente a performance do ator. Mas é evidente que Adrião busca muito mais do que a mera exibição, ao escolher esse texto de Dario Fo. São igualmente ambiciosos os atores da Cia. dos Comuns do espetáculo Bakulo, que tem como principal qualidade um extremo rigor formal e coloca em diálogo três planos: o mitológico, o da realidade cotidiana e o conceitual. Este último se traduz por meio de textos do geógrafo Milton Santos lidos ao microfone diretamente para o público. A realidade dos negros no Brasil é captada por meio de um suposto documentário que um cineasta negro "da comunidade" está fazendo sob encomenda para uma TV a cabo. Mas o seu sonho mesmo é uma ficção autoral, alegórica - Glauber Rocha é seu modelo -, sobre os negros, mote para o plano mitológico. A beleza é claramente uma perseguição, mesmo nos momentos em que se mostra o negro submisso, "dominado" pela introjeção da ideologia da dominação. E, grande mérito: a beleza estética - construída pelos figurinos, pela música executada ao vivo por um quinteto, pela belíssima iluminação - não tira contundência do retrato. A beleza cênica e o rigor formal - importantes num País onde é comum associar negritude e precariedade como algo "intrínseco" e não circunstancial - estão entre os muitos méritos de Bakulo, dirigido por Marico Meirelles, mas sem dúvida criado em parceria com os integrantes da Cia. dos Comuns. Em cena, atores "autorizados" a falar de realidade negra, que não temem levar ao palco as próprias contradições e não fazem o discurso da vitimização, mas da potência. Um espetáculo que merecia ser democratizado por projetos de apoio de circulação, para ser visto, e discutido, por um público mais amplo.

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