As loucas e elegantes mulheres de Hitch

Filmes revelam que o pequeno Alfred teve problemas com a figura materna

, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Alfred Hitchcock, que homem sedutor! E ali está ele, todo rechonchudo na vanguarda dos grandes do cinema, como um fanático gerente de restaurante num romance de P.G. Wodehouse. Há muitas razões para se amar Hitchcock: o estilo, a astúcia, o ritmo, o grau de intensidade. Foi o que percebi quando assisti a uma série de filmes dele. Hitchcock sabe bem como enquadrar as imagens. Mas quando o assunto é mulheres, sua seleção é de figuras esbeltas. Elas caminham com cuidado, passando por experiências terríveis e enganosas, patologias tão extremas que provocariam gargalhadas, se a arte do cinema não fosse tão séria. Há a vamp, a vagabunda, a delatora, a bruxa, a esquiva, a traidora e, a melhor de todas, a mãe demoníaca. Não se preocupe, todas têm sua punição no fim.

Mas, estou me precipitando. A principal qualidade da heroína de Hitchcock é mentir, infligir sofrimento e depois se sentir atormentada sem amarrotar sua roupa. Se você quiser ver o que é misoginia, a crítica desenfreada à mulher e a apologia daquele que a ofende, veja Marnie, Confissões de Uma Ladra. Ela é mentirosa, ladra e tão tensa e frígida que é chantageada para fazer um casamento forçado. Ela tenta se suicidar. O marido submete-a a uma investigação privada, violando seu passado. Mas a patologia de Marnie é culpa de outra mulher, sua mãe, ex-prostituta, é claro. Uma noite, durante uma tempestade, um dos amantes da mãe tenta confortar Marnie, porque homens que usam prostitutas são sujeitos afetuosos. A mãe, imbecil, interpreta a situação de modo errado e acha que o homem estava molestando a filha e investe contra ele. Então Marnie, menina ingênua, fica histérica ao ver a briga e mata o pobre inocente com uma pá de ferro. Quando chega ao fundo de tudo isso, Marnie tem uma inspiração e decide salvar o casamento com o marido que a chantageou. Oh, final feliz.

As mulheres de Hitchcock são imaculadas, mas traidoras e fracas. Ele não mata nenhuma delas, apenas dá a elas uma boa lição. Em Intriga Internacional, uma aventura sobre erro de identidade, traição e agentes da CIA, Roger O"Thornhill (Cary Grant) é o sujeito inocente pego na sua vida de mentiras e fraudes pela agente secreta de ar inocente, Eve. Ela é também frívola, mal-intencionada, que se tornou agente porque se sentiu lisonjeada ao lhe pedirem que traisse um ex-amante cheio de segredos. Adoro essa combinação de estereótipos: somos estúpidos, maliciosos, compassivos e traidores, tudo ao mesmo tempo. Só numa mente odiosa essas qualidades contraditórias poderiam estar reunidas numa pessoa terrível que é a Mulher. A boba Eve percebe que sua vida corre perigo, ela se apaixona pelo sujeito errado e acaba pendurada, segura por uma mão só, no penhasco. E é salva por Roger.

Em Janela Indiscreta, L.B. Jeffries (James Stewart) é um fotógrafo que está se recuperando de acidente em que quebrou a perna, e passa o dia olhando seus vizinhos pela janela. Um deles é uma mulher ranzinza e irritante. A ponto de ter o castigo merecido: seu marido a mata, esquarteja-a e a coloca numa valise. E ataca a namorada de Jeffries (Lisa) quando ela vai lá para investigar, mas é salva no último minuto.

Janela Indiscreta é estranho, covarde, vil. Deveria ser sobre o horror de testemunhar um uxoricida trabalhando. Em vez disso, a trama subjacente traz a adorável, sincera e amável Lisa em ação - e depois mostrando como ela não merece confiança. Interpretada por Grace Kelly, Lisa, de deslumbrante socialite vira uma espécie de vizinha do lado, que se veste modestamente, mais interessada em acampar. Nos momentos finais do filme, porém, ela aparece com malícia lendo uma revista de moda enquanto seu amado dorme. Porque é assim que as mulheres são, você sabe, maliciosas.

Para uma mensagem mais séria, veja Os Pássaros. Trata-se de alerta sobre o que ocorre a uma mulher que tenta fazer uma piada. Melanie Daniels (Tippi Hedren) gosta de pregar peças e mentir, tenta dar alguns periquitos à irmã mais nova de Mitch, o sujeito que a atrai. O mundo dos pássaros inteiro, humilhado por se tornar títere num jogo trapaceiro da mulher, parte em vingança. Daí em diante, a mulher fica a mercê do alucinado ataque das aves. A mensagem é que: a) as mulheres sempre querem conquistar os homens e b) elas não conseguem pois estão ocupadas dando bicadas e brigando pelos homens.

A mãe de Mitch odeia Melanie. Ela odeia a ex-mulher de Mitch também, mas a ex-mulher de Mitch o ama tanto que não consegue viver longe dele. A ex-mulher de Mitch odeia Melanie e morre. A mãe de Mitch é tão obcecada por homens que ao ser abandonada pelo Homem 1 (marido), é tomada pelo medo de que o Homem 2 (filho) a deixe também. A mãe de Melanie abandonou a família. Todas essas mulheres neuróticas têm a surra das aves que merecem, numa batalha junguiana de pássaros palpitantes e penteados incríveis.

E há Um Corpo Que Cai, um duelo de ambiguidade feminina suntuosamente vestida. Uma história bem contada de uma mulher mentirosa que explora homem inocente que tem vertigens, Scottie, para transformá-lo em testemunha de um assassinato tramado. Essa trama envolve homem que assassina a mulher e faz com que o caso pareça suicídio provocado por doença mental da mulher. Pondo certo ar mítica em torno do caso, e oferecendo uma espécie de álibi psicológico, temos a história da bisavó da mulher, que se matou um século antes. Nesse caleidoscópio de mulheres loucas, malvadas, tristes e elegantíssimas, uma coisa é certa: aquela que mente, morre (embora a inocente também morra). A mulher que serve de isca se apaixona por Scottie, sujeito que ela deveria ludibriar. Ele se vinga, obrigando-a a se tornar a imagem da cônjuge morta. Exige que ela recrie a morte no topo da torre da igreja e assim cura seu problema de vertigens, embora esse não seja o foco do filme.

E agora o mais importante: a entidade de Hitchcock que abrange tudo, conhecida como Mãe. Em Intriga Internacional, o drama se desenrola como se o protagonista estivesse prestes a enviar um telegrama à sua mãe. Em Os Pássaros, o advogado Mitch vive com sua mãe quando não está trabalhando. Em Um Corpo..., Scottie censura a ex-mulher por ser muito maternal com ele, durante sua convalescença. E em Janela Indiscreta, a terapeuta de Jeffries também é conselheira e maternal.

Acho seguro dizer que o pequeno Alfred tinha problemas com a mãe. E o filme em que eles estão mais aparentes é Psicose. Apesar do horror do suspense, Psicose é dos mais simples do cineasta, porque a dinâmica central é poderosa. É também um filme psicologicamente realista, apesar do cenário macabro. Em vez do pânico junguiano de Os Pássaros, você tem um modelo emocional freudiano, no estilo de Hamlet. A cena da morte no chuveiro que todo mundo lembra (com a cortina de plástico barata) é só Hitchcock fazendo com prazer seu jogo favorito de punir uma ladra e mentirosa, no caso, a mulher que roubou dinheiro do escritório e se registra no Bates Motel com nome falso.

Misoginia. O verdadeiro drama vem depois. Norman ama tanto sua mãe que não suporta o desejo dela por outro homem e a mata. Ele nunca conseguiu vencer seu ódio edipiano, seu quarto é um quarto de bebê preservado, mas à medida que cresce, seus sentimentos são revestidos de uma misoginia bem comum. Tem vergonha de seus desejos sexuais e projeta isso nas mulheres que mata. Em vez de assumir os assassinatos, ele acusa sua mãe. E procura viver nela, usando suas roupas como um amante faria. E se diz, em uma cena, que nos assassinatos ele está exteriorizando os ciúmes da mãe das mulheres que ele deseja. No fim da minha maratona de filmes em DVD de Hitchcock, percebi como Psicose é revelador. Norman é Hitchcock, brincando que as mulheres são demônios maquinadores e os homens, inocentes que se comportam mal porque se veem em situações difíceis. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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