Edison Vara/Pressphoto/Divulgação
Edison Vara/Pressphoto/Divulgação

As lições de uma grande dama

Emocionada, Fernanda Montenegro recebe homenagem em Gramado

Luiz Carlos Merten / GRAMADO, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2011 | 00h00

Tudo funcionou bem na terça-feira no Festival de Cinema Brasileiro e Latino. À tarde, no programa de curtas, foi exibido o melhor título até agora - A Mula Teimosa e o Controle Remoto. À noite, o encantamento aumentou com o concorrente chileno, La Lección de Pintura. Após a lição de pintura de Pablo Perelman veio a lição de oralidade e transmissão do conhecimento - uma lição de canto - de As Hiper Mulheres, o concorrente brasileiro de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro. E, entre os dois filmes da noite, houve a homenagem a Fernanda Montenegro.

Veja também:

blog Acompanhe a cobertura do Festival de Gramado pelos blogs do Merten e do Zanin

link Curtas em mostra desigual

A imprensa havia sido avisada de que Fernanda, ainda emocionada, de luto pela morte do amigo Ítalo Rossi, viria honrar o compromisso, mas não queria saber de festa nem de entrevista. Ela viria a Gramado para receber o troféu Oscarito, mas seria uma coisa muito simples. E foi. Mas a simplicidade de uma grande dama como Fernanda adquire complexidades inesperadas. O cineasta Roberto Farias foi chamado a lhe entregar o prêmio. Farias surgiu na Atlântida, onde reinava Oscarito. Fernanda lembrou-se que, jovem ainda, nos anos 1950, foi fazer um teste para um filme com o parceiro de Grande Otelo. Ela não foi selecionada mas, ontem, no palco do Palácio dos Festivais, reencontrou Roberto Farias e, de certa forma, Oscarito.

Ela lembrou seu tempo de "cinemeira", como disse, quando não perdia as chanchadas nem as produções de Hollywood. A Fernanda garota amava Gregory Peck. Conheceu-o, velhinho, quando foi indicada para o Oscar. Fernanda foi grande. Lembrou que fez poucos filmes, mas todos são importantes - de determinada época, determinado autor.

Após a lição de simplicidade da grande atriz, veio a de pintura. Pablo Perelman baseou-se no livro de um pintor que, certo dia, resolveu parar de pintar e virar escritor. É uma novela curta, editada no Chile em 1974. O diretor anunciou que fez uma livre adaptação. Até pela data da publicação, um ano após o golpe militar que depôs Salvador Allende, ele se sentiu autorizado a dar um fundo político à sua trama.

É a história de um farmacêutico de província que acolhe uma garota. Ela é mãe solteira. O farmacêutico quer ser pintor e, na abertura do filme, destrói sua obra. Descobrimos o por quê depois. A funcionária tem um filho. O menino é um prodígio como desenhista, e pintor. A primeira parte trata do seu aprendizado. A segunda, dos preparativos para o golpe, vistos de um lugar tão distante quanto esse pueblito. No final, Pablo Perelman logra dizer o que pretende - o golpe conseguiu destruir o que havia de melhor no Chile.

O debate do filme levantou tantas questões insignificantes, que foi como se a imprensa estivesse decidida a minimizar a importância de La Lección de Pintura. E veio o filme brasileiro. Um documentário encenado é um docudrama? Uma ficção? O começo de As Hiper Mulheres parece difícil. Uma aldeia do Xingu, índios - índias - que pretendem retomar um ritual que não se realiza há quase 30 anos. Uma das cantoras adoece. Durante quase 20 minutos o espectador corre o risco de se aborrecer com o vaivém. O ritual vai sair?

E aí, ocorre o clique. O x da questão é justamente que não existem muitas mulheres que conheçam as canções que vão compor a festa. Um velho índio, que sabe, vem cantarolando pela estrada. Sua filha vem por outra estrada, também cantando. A câmera acompanha um e outro. O ritual vai sair. A encenação é suntuosa. O ritual é uma afirmação da força feminina. As mulheres manifestam sua sexualidade, falam de sexo e, no canto e dança, perseguem os parceiros. O filme nasceu dentro de um projeto de política cultural governamental, um programa para registro de bens imateriais. O canto recuperado, imortalizado. Tem gente que acha que o filme nem devia estar no festival. Mas como se, como cinema, é o melhor brasileiro até agora?

NOTAS

Homenagem

O grande homenageado desta edição do Festival de Gramado com o troféu Eduardo Abelim, o ator, diretor e dramaturgo carioca Domingos de Oliveira, não compareceu à cerimônia para receber o seu prêmio. Ele mandou um vídeo de agradecimento no qual explica como se acidentou: ele caiu e fraturou a clavícula. Domingos, de 74 anos, tem sido uma figura fundamental do cinema brasileiro desde meados dos anos 1960, quando fez Todas as Mulheres do Mundo, lançando o mito de Leila Diniz.

Sucessos

Flávio Bauraqui e André Ramiro estão fazendo o maior sucesso aqui em Gramado. O Bispo do Rosário de O Senhor do Labirinto e o Matias de Tropa de Elite têm sido perseguidos pelos paparazzi e pelos fãs. São campeões de fotos e autógrafos na cidade.

Tudo o que sabemos sobre:
Fernada MontenegroGramadocinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.