'As Lembranças', romance de David Foenkinos, chega ao Brasil

'As Lembranças', romance de David Foenkinos, chega ao Brasil

Leia trechos do livro, publicado no ano passado na França

David Foenkinos,

05 Outubro 2012 | 18h11

Chovia tanto no dia da morte de meu avô que eu não via quase nada. Perdido na multidão de guarda-chuvas, tentei encontrar um táxi. Eu não sabia por que queria a todo custo me apressar, era absurdo, de que adiantava correr, ele estava lá, estava morto, ia seguramente me esperar sem se mexer.

Dois dias antes, ele ainda estava vivo. Eu havia ido vê-lo no hospital de Kremlin-Bicêtre, com a esperança constrangedora de que seria a última vez. A esperança de que o longo calvário tivesse fim. Eu o ajudei a beber com um canudinho. Metade da água escorreu ao longo de seu pescoço e ainda molhou bastante o camisolão, mas naquele instante ele estava muito além do desconforto. Ele me olhou com um ar desamparado, com sua lucidez dos dias válidos. Era certamente esta a coisa mais violenta, senti-lo consciente de seu estado. Cada respiração se anunciava para ele como uma decisão insustentável. Eu queria dizer-lhe que o amava, mas não consegui. Ainda penso nessas palavras e no pudor que me reteve no inacabamento sentimental. Um pudor ridículo em tais circunstâncias. Um pudor imperdoável e irremediável. Estive tão frequentemente atrasado com as palavras que gostaria de tê-las dito. Jamais poderei voltar a essa ternura. Salvo, talvez, com a escrita, agora. Eu posso dizer-lhe, aqui. (...)

***

(...) Era um maravilhoso domingo. Meu avô acabava de comprar um carro, ele estava tão orgulhoso! Dizia "meu carro" como poderia ter dito "meu filho". Ter um carro significava ter êxito na vida. Ele propôs a toda a família um passeio na floresta. Minha avó preparou as coisas para um piquenique. E esta palavra também, "piquenique", soava de maneira tão mágica! Ele dirigia calmamente, sua mulher à sua direita e seus três rapazes apertados no banco de trás. Eles poderiam ter ido até o mar, e a Lua até parecia atingível. Ele encontrou um bonito recanto de floresta, perto de um lago. O sol passava entre os galhos das árvores, dando à visão do dia como que o brilho de um sonho.

Meu avô amava profundamente sua mulher. Admirava sua força e sua meiguice, respeitava suas qualidades morais. Isso não o havia impedido de ser atraído por outras mulheres, mas nada mais tinha importância agora. Não havia nada além do domingo em família, com os sanduíches. Todo o mundo tinha fome. Meu avô engoliu sua primeira mordida, e foi como uma aceleração da felicidade. Ele gostava de pão, gostava de presunto, mas sua mulher tomara o cuidado de acrescentar uma divina maionese 1 feita em casa. Esta maionese ultrapassava tudo, esta maionese cristalizava a beleza de sua mais bela lembrança.

***

(...) Nos dias que se seguiram, fui um estrangeiro em minha vida. Eu estava lá, eu vivia, mas estava como que irremediavelmente amarrado à morte de meu avô. Depois as dores escaparam. Pensei nele cada vez menos frequentemente, e agora ele navega pacificamente em minha memória, mas já não sinto o peso no coração dos primeiros tempos. Creio até que já não sinto verdadeira tristeza. A vida é uma máquina de explorar nossa insensibilidade. Sobrevive-se tão bem aos mortos! É sempre estranho dizermo-nos que podemos continuar a avançar, mesmo amputados de nossos amores. Os dias novos chegavam, e eu lhes dizia bom-dia.

Naquela época, eu sonhava com tornar-me escritor. Enfim, não, eu não sonhava. Digamos que eu escrevia e não era contra a ideia de que toda essa simulação neuronal me fosse útil para ocupar concretamente meus dias. Mas nada era menos certo. Lembro-me muito bem desses anos em que eu não sabia nada de meu futuro. Eu teria dado tudo para ter elementos de minha vida adulta, para me assegurar, para que me dissessem que não me preocupasse, pois eu encontraria um caminho por seguir. Mas nada a fazer, o presente permanece imóvel. E ninguém teve a ideia de inventar as lembranças do futuro. Eu queria viver uma vida um pouco heroica, enfim, nada de esportivo, mas digamos que eu escolhera tornar-me vigia noturno pensando que isso fazia de mim um marginal. Acredito também que era por causa de Antoine Doinel. Eu queria ser o herói de François Truffaut. O que eu chamava de "minha personalidade" era o fruto barroco de todas as minhas influências. De noite, num hotel, eu ia enfim reunir as condições para deixar aparecer a genialidade cansada que dormitava em mim.

Encontrei emprego num pequeno hotel parisiense. Era tão calmo. A burrice dos homens descansava, e eu estava em bom posto de observação nessa pausa. As mulheres também descansavam, mas isso me trazia outra sensação, de todo diferente. Quando uma desconhecida subia para seu quarto, ocorria-me imaginá-la nua, e isso me fazia mal. Minha vida ia ser assim? Estar bloqueado no térreo enquanto mulheres sobem os degraus? Eu podia fantasiar, maldizer também, às vezes, seus acompanhantes. Eu havia lido estatísticas que atestavam que se faz mais amor no hotel que em casa. Vigiar de noite é vigiar o amor dos outros. Minhas esperanças eróticas eram frequentemente interrompidas por turistas meio bêbados que voltavam tarde. Depois de terem sido expulsos de todos os bares do bairro, não lhes restava senão uma pessoa com quem tagarelar: eu. Tive assim as conversas mais idiotas da minha vida. Digo idiotas, mas talvez elas fossem extremamente inteligentes. Há uma hora da noite em que já não se pode ter julgamento a respeito das palavras. Eu escutava, pensava, fantasiava. Aprendia como tornar-me um homem.

Gérard Ricobert, o proprietário do hotel, parecia satisfeito com meu trabalho. E havia motivo para isso. Eu era sério e dócil. Não reclamava nem quando a substituição da manhã chegava atrasada. Acontecia ele passar em plena noite para verificar se eu não estava dormindo ou se não havia convidado uma garota para fazer-me companhia (hipótese altamente improvável). Cada vez eu via bem que ele ficava desarmado ao me encontrar sentado ereto em minha cadeira, perfeitamente ativo, e eu sentia que no fundo ele julgava tal profissionalismo ridículo. Ele sempre me oferecia um cigarro, e eu aceitava esperando que fazer espirais nos evitaria falar. Uma noite, notando meu bloco de notas posto sobre o balcão da recepção, ele perguntou:

- Você escreve?

- Hum... não.

- Os verdadeiros escritores são sempre aqueles que dizem que não escrevem.

- Ah... não sei.

- Sabe que Modiano, quando tinha mais ou menos a sua idade, foi vigia noturno aqui?

- Não! Verdade?

- Bem, não... estou brincando.

Ele partia cochichando: "Então, boa-noite, Patrick." Minha concentração estava acabada. Por que ele vinha exercer seu humor sobre mim? Sem dúvida ele era do tipo que monopoliza longos minutos nos jantares em restaurantes, contando histórias desde o aperitivo (sempre as mesmas; ele devia viver mal socialmente com um magro aquário de algumas histórias, cujo sucesso testara com os membros dóceis de sua família; sendo sua obsessão, é claro, repetir a mesma história para a mesma pessoa). Naquela época, eu não o conhecia, e tinha medo de ter de suportar, por obrigação profissional, suas saliências e outras considerações sobre a sociedade. Eu experimentava a angústia de ter de rir de suas piadas, enquanto nada me fazia rir menos que uma piada, ainda que fosse a mais hilariante do mundo.

Eu ia me enganar tantas vezes com respeito às pessoas em minha vida. Tanto, que chegaria à resolução seguinte: não emitiria mais a mínima opinião sobre uma pessoa antes de ter convivido com ela por pelo menos seis meses. Estava fora de questão que eu me fiasse em minha intuição doentia e certamente gangrenada pelo abuso de devaneio, ou pela simples falta de experiência em matéria de relações humanas. Que sabia eu daquele homem, no fundo? Eu não sabia que ele sentia certa ternura por mim, e que, com suas brincadeiras, tentava desajeitadamente manifestá-la. Cada um exprime seus sentimentos como pode. Podia eu adivinhar que ele ia agora voltar para casa e enfrentar a frieza de sua mulher? Ia abrir a porta do quarto, hesitar um momento antes de sentar-se sem ruído na beirada da cama. Como podia eu saber que ele se poria então a acariciar-lhe os cabelos de maneira tão delicada? Nada a fazer, ela continuaria a dormir. A tentativa do marido permaneceria num impasse sensual.

De manhã, eu gostava de caminhar um pouco antes de pegar o metrô. Cruzava com operários africanos, que deviam pensar que eu fosse um desses jovens endinheirados que saem da discoteca ao amanhecer. Eu dormia até o meio da tarde. Ao despertar, relia as poucas notas que pudera tomar durante a noite e ficava consternado com o brilho de minha mediocridade. No entanto, algumas horas antes, eu acreditara em mim, e pensava que tinha ali o início de um romance promissor. Era suficiente um pouco de sono para mudar a iluminação de uma inspiração. Será que todos os que escrevem sentem isso? A sensação de potência que anuncia a da fraqueza. Eu não valia nada, eu não era nada, eu queria morrer. Mas a ideia de morrer sem sequer deixar um rascunho válido me parecia pior que a morte. Não sabia quanto tempo eu continuaria a viver assim, na esperança de poder agarrar concretamente meu pensamento. Talvez isso não acontecesse nunca, e então eu precisaria encontrar outros caminhos para tocar minha vida. Eu fazia listas, nos dias de depressão, para vislumbrar todas as profissões possíveis. Ao fim de uma hora, em minha folha, escrevera: editor, professor de francês, crítico literário.

***

(...) Grande parte da obra de Patrick Modiano é dominada pela Segunda Guerra Mundial. Ele tem a estranha impressão de haver vivido naquele período; no entanto, nasceu em 1945. Sua obsessão pelos fatos, nomes, lugares, e até horários dos trens, oferece o sabor de uma autobiografia antecipada; talvez até pudéssemos falar de memórias de além-nascimento. Livret de Famille, publicado em 1977, está entre seus livros mais pessoais. Em epígrafe, ele retoma este tão lindo verso de René Char: "Viver é obstinar-se em consumar uma lembrança." Em Livret de Famille, há sobretudo esta frase que me parece ser uma das chaves de sua obra, uma frase que me toca particularmente de tanto que faz eco às estranhezas que penso sentir, e que confere à lembrança uma loucura que nos escapa: "Eu não tinha senão vinte anos, mas minha memória precedia meu nascimento."

AS LEMBRANÇAS

Autor: David Foenkinos

Tradução: Carlos Nougué

Editora: Rocco

(264 págs., R$ 39,50)

 

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