Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

As joias do incansável China

Aos 31 anos, pernambucano canta, compõe e produz em seu novo disco solo

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

Dona Lúcia pode não ter se dado conta, mas até hoje ela tem grande peso naquilo em que seu filho Flávio Augusto se tornou artisticamente. Conhecido por todos, desde pequeno, como China, ele ouviu de sua mãe que se decidisse a ser músico, "teria de ser o melhor e trabalhar sem descanso". A rotina dele segue assim até hoje e resume-se no título do disco Moto Contínuo, que China lança quarta-feira, gratuitamente, no site da gravadora Trama.

O nome do álbum pode ser o mesmo do tema de Chico Buarque e Edu Lobo (registrado no antológico Edu&Tom, de 1981), mas não tem ligação direta com tal composição. Apenas reflete a ubiquidade de China, dando a impressão de que ele está por toda parte o tempo inteiro. E está: como cantor, compositor e produtor deste disco completamente autoral, entre os amigos do Mombojó nos frequentes shows com o Del Rey (cantando músicas de Roberto Carlos) e diariamente na MTV, como apresentador do programa Na Brasa. "Eu ainda estou aprendendo muito com essa coisa de roteiro, de olhar pra câmera, dos cortes... Mas tem me ajudado muito como comunicador, que tenho tentado aproveitar e levar para os meus shows", diz China.

Sobre o fato de ele ter seu programa em uma emissora voltada para a música, China admite um extremo cuidado em não ficar inflando suas crias, como por exemplo o clipe de Só Serve Pra Dançar (feito colaborativamente por fãs internautas), que estreou recentemente. "Seria muita cara de pau eu ficar lá bombando meu clipe, saca? Nem pensar, man", comenta.

A preocupação se deu do mesmo jeito para fazer com que Moto Contínuo saísse do forno. Em 2007, China (que nos anos 1990 integrava a banda Sheik Tosado) havia captado recursos em um fundo de incentivo para viabilizar seu primeiro disco solo, Simulacro, que teve Pupillo como produtor. "Eu queria que ele tivesse produzido este também, mas não tinha grana para pagar. Fiz tudo do meu bolso, contando com a "brothagem" dos amigos, e não queria de novo inscrever meu disco num edital, seria muito escroto pegar grana do governo de novo sendo que outros artistas também precisam e têm esse direito", conta China.

Nessa linha, o compositor justifica o longo período de gravação do disco (entre novembro de 2009 e setembro de 2010) exatamente por não ter esse dinheiro sobrando e pelo fato de ter assumido a produção do próprio disco. "Quando você assume a produção do seu trabalho, man, você fica dez vezes mais criterioso, mas tem esse lado bom de fazer um disco solo, de não ter um conceito, uma unidade estética definida. Justamente por isso eu pude gravar músicas minhas que eu jamais pensaria em gravar um dia", explica.

E o não se guiar por um único conceito faz com que Moto Contínuo soe coeso, mas com "várias bandas em um único disco".

A diversidade fica evidente com a dançante Só Serve Pra Dançar, passando pelo hardcore de Espinhos, pela balada Overlock (com Pitty), pela doce Terminei Indo (com Tiê), pelas influências eletrônicas misturadas com rock em Nem Pensar em Você, pela dolente e etérea Mais Um Sucesso Pra Ninguém, chegando à valsa Anti-Herói, feita para seus filhos. "Sempre contei muita história inventada para meus filhos. Estou até começando a escrever um livro infanto-juvenil com elas. Não paro, man. Mas essa parada do livro não tem previsão de data ainda", diz.

Como ele mesmo gosta de definir, Moto Contínuo foi produzido por todo mundo que participou. Entre eles, amigos de longa estrada, como o irmão Bruno Ximarú, Dengue, Chiquinho, Homero Basílio, Vicente Machado, Felipe S., Jr. Black, Yuri Queiroga, e tantos outros. Tudo na base da irmandade colaborativa, fazendo com que, assim como Nó na Orelha (Criolo), Memórias Afro/Lusitanas (Gui Amabis), Metá Metá (Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França) e Um Labirinto em Cada Pé (Romulo Fróes), Moto Contínuo, de China, seja mais uma das preciosidades de 2011.

CHINA

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, telefone 3871-7700. Dia 8/9, às 21h30. De R$ 4 a R$ 16.

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