As imagens históricas de uma tribo muito sofisticada

Para uma etnia sofisticada, que concebe o universo como terras e céus sobrepostos, segundo explicação da antropóloga Dominique Tilkian Gallois, o encontro dos índios da tribo Zo'é com o fotógrafo paraense Rogério Assis foi não só o começo de uma bela amizade como de um registro histórico igualmente requintado. Em1989, Rogério se tornou o primeiro fotógrafo a ter contato com o povo Zo'é, naquela época ameaçado por uma epidemia de gripe levada por missionários.

O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2013 | 02h12

Vinte anos depois ele voltou à Amazônia, na região dos rios Cuminapanema, Erepecuru e Urucuriana, para visitar a Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema mantida pela Funai e registrar a iniciativa do órgão, de defender o isolamento da terra indígena. O resultado é o livro Zo'é (128 páginas, R$ 70), que a Editora Terceiro Nome coloca agora nas livrarias .

Outra fotógrafa, Rosely Nakagawa, chama a atenção no livro para a difícil integração do fotógrafo ao cotidiano da tribo. Como registrar o ócio sem um olhar crítico, sendo Assis um homem urbano que, por natureza, não pode esperar? "Percebemos nessas imagens uma postura sutil, delicada, de se deixar desaparecer entre os outros para se tornar um deles", diz ela, evocando a defesa dos ociosos pelo escritor escocês Robert Louis Stevenson, que passou pelos mares do Sul para entender como viviam os antípodas.

A primeira lição de Assis no convívio com a tribo foi aprender que não existia um cacique ou um pajé para comandar ou manipular a tribo de forma tirânica. Suas fotos mostram os Zo'és sempre brincando, resolvendo suas diferenças não com agressões físicas, mas na conversa. As crianças são educadas com liberdade e mamam até os três anos, sempre que desejam. Aos quatro, já podem circular livremente pelo pátio da aldeia e visitar familiares.

O livro de Assis presta particular atenção às crianças, mas cobre praticamente tudo o que interessa a um antropólogo, dos cuidados que as moças têm com suas tiaras, a obsessão pelos banhos, os cuidados na confecção de cordéis de fibra de curará e a escarificação com dente de cotia nas pernas dos rapazes. Uma bela introdução do mundo dos Zo'és. / A.G.F.

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