As ideias sob os edifícios

Pulitzer com ensaios sobre arquitetura, Paul Goldberger faz palestra hoje em São Paulo e diz que os museus de arte são as novas catedrais

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2011 | 03h07

"Não acho que seja preciso escolher entre ética e estética para se fazer arquitetura", diz ao Estado Paul Goldberger, um dos mais proeminentes críticos de arquitetura dos Estados Unidos. "O grande arquiteto é aquele que sabe mesclar as duas coisas."

Ganhador de um Pulitzer em 1984, articulista do New York Times, crítico da New Yorker, Goldberger escreve livros em que examina sem tecnocracia o significado e a permanência de edifícios, monumentos e obras de arte. Ele lança esta semana seu primeiro título no Brasil, pela Bei Editora, A Relevância da Arquitetura (Why Architecture Matters), um ensaio que foi definido por Alain de Botton como um "sucinto, lírico e sensível livro que celebra os melhores trabalhos de arquitetura e aponta o caminho para que nos tornemos habilitados a construir mais deles no mundo atual".

Goldberger também faz uma palestra-aula hoje no evento Arq.Futuro, na Universidade Presbiteriana Mackenzie (Rua da Consolação, 930), às 18h. O evento traz ainda estrelas como Jacques Herzog (do escritório Herzog & de Meuron, detentor do Prêmio Pritzker 2001) e o lendário João Filgueiras Lima, o Lelé, mestre que fará 80 anos.

O crítico de arquitetura americano nunca esteve em São Paulo, embora conheça por fotos obras de Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Lina Bo Bardi. "Para uma cidade, energia e excitação são tão importantes quanto suas construções", previu. "Arquitetura é para as pessoas. Mas, às vezes, você pode sugerir com ela coisas maiores que o cotidiano. Pode fazer grande arte, e ajudar a transcender as coisas do dia a dia da existência humana." O ensaísta conversou com a reportagem por telefone, na quinta-feira passada, antes de embarcar para sua primeira visita ao Brasil.

Em sua obra, Goldberger esmiúça as mudanças na paisagem arquitetônica, e um dos seus livros, Up from Zero: Politics, Architecture, and the Rebuilding of New York (2004) analisou a polêmica em torno da cratera do World Trade Center e seus planos de reconstrução. Podem-se divisar as arquiteturas da presença e da ausência em seus trabalhos. Ele mesmo diz que é difícil pinçar um arquiteto favorito entre todos que estudou.

"Há tantos. É difícil escolher um, são tantos períodos diferentes. Meu próximo livro, no qual estou trabalhando agora, é uma biografia de Frank Gehry (ganhador do Pritzer em 1989, autor do Guggenheim Bilbao). Posso afirmar que tenho um grande interesse no trabalho dele", disse. Segundo Goldberger, a profusão de museus como obras transformadoras da paisagem em todo o mundo (coisa na qual Gehry é um especialista) é um sintoma de época, assim como a rarefação de grandes igrejas e templos - coisa que era muito comum até o século 19.

"Acho que religião tem um diferente papel hoje na sociedade. Não é mais tão dominante. Então, não construímos igrejas da mesma forma que já fizemos. Há algumas, há ainda grandes exemplos de arquitetura moderna com esse propósito. Eu acho que, de diversas formas, o museu de arte se tornou a nova catedral. O Guggenheim se tornaria uma catedral no Rio de Janeiro, se tivesse sido feito", afirmou.

Em Christo and Jeanne-Claude (2010), ele analisou as intervenções artísticas da dupla de artistas - ele, búlgaro, ela marroquina. Ambos, em 2005, fizeram furor em Nova York estendendo por 38 quilômetros do Central Park uma serpente de portais alaranjados por onde as pessoas passavam ao caminhar. "Acho que todo o trabalho de Christo e Jeanne-Claude tem uma íntima relação com arquitetura", justificou Goldberger.

Toda essa gama de interesses e a facilidade com que discorre sobre assuntos que parecem díspares faz o sucesso literário do autor, que se tornou muito regular nas livrarias americanas. Ainda assim, ele não vê a possibilidade do surgimento de um mercado "pop" para a arquitetura. "Hoje em dia, os tempos são difíceis para os livros. Qualquer livro. Está ruim em todos os lugares, nos Estados Unidos, no Brasil. Livros de arquitetura não vão se tornar grandes sucessos de vendas. Não são o tipo de assunto, mas está se suscitando mais e mais interesse. Acho que os bons livros de arquitetura sempre vão encontrar o seu espaço. Hoje, há um potencial substancial de crescimento", considera.

A arquitetura, como outras disciplinas do engenho humano, enfrenta o mesmo problema da ciência: é difícil achar alguém que escreva sobre ela de forma coloquial, e ainda assim sem tornar o tema simplista e reducionista. Esse tem sido quase sempre o problema de se escrever sobre temas complexos para o grande público. "É muito difícil. Mas quando um autor acha um bom ponto de apoio para escrever com clareza, encontra uma grande conexão com o público leitor. Como Stephen Hawkins, por exemplo. Há uma grande necessidade por bons livros que façam uma ponte entre a profissão e o público em geral. É o que eu tento fazer com arquitetura. Assim como a ciência toca muitos aspectos da vida em geral, acontece a mesma coisa com a arquitetura. Ela afeta a vida de todo mundo."

Mesmo antes de conhecer São Paulo, Goldberger demonstrou ter faro para decifrar a pauliceia. Ao ser informado que alguns pilotos de Fórmula disseram, tempos atrás, que era uma das cidades mais feias do mundo, ele afirmou: "Se me perguntar isso depois dessa visita, posso lhe dizer. Eu sei que, às vezes, energia e excitação são tão importantes para a demonstração de vitalidade de uma cidade quanto seus edifícios e sua arquitetura. Há muitos edifícios que são engenhosos e formidáveis, mesmo não sendo bonitos. Excitação é sua beleza".

Em entrevista recente, ele afirmou o seguinte: "Você não caminha muito na maior parte das cidades americanas. Você dirige". Será que o impacto da crise econômica poderá afetar essa forma como os americanos se relacionam com suas cidades. "Acho que a América está mudando. Está ficando mais responsável em relação ao consumo de energia, às fontes de energia. Mas não é ideal ainda, está só começando a ficar bom. Só começou a andar em uma direção mais responsável. Ainda está quase todo mundo em seus carros, ninguém desce deles. Eu odeio aquilo. Nova York é um lugar maravilhoso. Talvez Nova York e São Paulo tenham muito a ver uma com a outra", ponderou.

O arquiteto português Álvaro Siza disse uma vez que "houve momento em que acreditávamos que a arquitetura estava sendo feita para o novo homem, mas não há novo homem. É o mesmo homem todo tempo". Mas será que, após o advento das novas tecnologias de comunicação, das redes sociais, a chegada dos iPads, dos tablets, será que o homem não está de fato mudando? "Essas coisas todas estão provocando mudanças, mas na personalidade do homem. As circunstâncias sempre mudam, e as pessoas passam a se comportar de maneira diferente, mas acho que o que Siza quis dizer é que a natureza humana é a mesma. E, hoje, o que coisas como iPad e a tecnologia estão operando são mudanças profundas no comportamento do homem", disse.

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