'As Horas Vulgares', algo mágico em Tiradentes

Algo de mágico passou-se no Cine-Tenda, que sedia a Mostra Aurora, na terça. Na tela, uma peça de jazz é executada por um grupo de amigos. Dez minutos de olhares, pequenos gestos e muita tensão erótica entre homens e mulheres. Antes da sessão do filme capixaba, os diretores Rodrigo de Oliveira e Vítor Graize haviam advertido que o filme não se parece com nenhum outro do atual cinema brasileiro. OK, tem ecos de Estrada para Ythaca, do coletivo Pretti-Parente, mas é, senão propriamente original, único.

LUIZ CARLOS MERTEN, TIRADENTES , O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2012 | 03h09

Um filme sobre amizade viril, que comporta certa tensão homossexual, a crônica de uma morte anunciada. Havia gente reclamando de superficialidade. Ela está muito mais no olho de quem vê. As Horas Vulgares começa com a despedida de um casal. Ela pede ao homem que pinte seu retrato. Entre os extremos, os amigos vivem o exílio interno, a dor da separação, indagam-se sobre o sentido da vida e a busca da felicidade.

O preto e branco é rigoroso. Muitos planos mostram grupos de dois, três personagens. Conversam sobre algo que o espectador não ouve. Os diálogos no primeiro plano são quase sempre indagações sobre vida e morte, o vazio que consome, a arte que cria. E há essa imagem de um acidente. O espectador percebe, pelo diálogo, que Lauro morreu. De que jeito? O acidente pode ser uma pista falsa. Pois outro personagem, Gil, também morreu.

Sem nada a ver com 2 Coelhos, o filme do Espírito Santo tem uma pegada que talvez o aparente com o de Afonso Poyart. 2 Coelhos abre-se com a imagem de um acidente. Um carro - outro carro - mata uma mulher e um menino. Logo em seguida, com a entrada em cena de Fernando Alves Pinto, fala-se muito num plano que ele tem e que parece de um assalto, mas é outro - a família restaurada. Em As Horas Vulgares, o movimento parece inverso. A dura aceitação da morte.

A Mostra Aurora é a grande vitrine do cinema brasileiro autoral. Houve ontem uma coletiva para divulgar a Carta de Tiradentes, emitida pelo chamado Fórum dos Festivais. A entidade, que congrega 65 eventos audiovisuais brasileiros, reclama das novas diretrizes governamentais. Os festivais não podem mais fazer acordos com ministérios. Isso se reflete muitas vezes na contrapartida social dos eventos. A grana é reduzida, mas paga uma oficina aqui, um seminário ali. Coisas estão sendo sacrificadas e, em certos casos, é justamente o que garante o acesso das populações, o que lhes abre as portas para a participação, a discussão e o entendimento do cinema.

Os organizadores de festivais estão preocupados. Os críticos, pelo visto, ainda não tiveram o clique da Mostra Aurora. É pena. As Horas Vulgares é um belo trabalho. Tem o seu tempo, às vezes lento. Toca, como o cinema sabe fazer, em temas profundos, que remetem, como se diz, à essência do ser.

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