As heresias de uma senhora

Grandiosidade cênica e alfinetada em Lady Gaga são as marcas no cardápio sacro de Madonna

JOTABÊ MEDEIROS , MILÃO, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h09

Tudo mudou e nada mudou. Madonna está assumindo o papel de "Material Mom" em cena, trazendo o filho, Rocco, para participar do coro do show e fazer uns passinhos iniciáticos de breakdance. Mesmo quando ela surge vestida de cheerleader, entre bailarinas vestidas de cheerleaders (as "Majorettes"), não é para fazer uma exaltação da eterna juventude, mas uma reflexão sobre a natureza ilusória das alegorias de juventude dourada. É um grande momento do espetáculo, com uma banda marcial surgindo no teto do palco gigante, tocando suspensa por cordas, soldadinhos de chumbo em marcha aérea.

O show é mais rocker, e também sombrio, na maior parte do tempo. Há passeios virtuais e cenas gravadas em um cemitério, com destaque para palavras-chave em epitáfios de pedra: Imortalidade, Memória, Esperança, Fé, Morte. E um manifesto: "O amor está acima de tudo."

O repertório segue essa predisposição. Ela abre o show com Girl Gone Wild, após uma oração à Virgem Maria (entoada pelo Kalakan Trio, que a acompanha e faz participação fundamental no show). A partir daí, examina a própria reputação de mundana e mulher fatal com sarcasmo, fumando e bebendo durante a execução de Revolver em um quarto de motel vagabundo (com a ajuda, no telão, de Lil Wayne). Em seguida, mais uma "convidada": Nicki Minaj, vestida de freira (em Hang Up e I Don't Give a), que vai decretar: "Só existe uma rainha dance, e essa é Madonna." Em Papa Dont' Preach, chamas tomam conta da cena, num cenário digno de Hyeronimus Bosch.

O visual é estupefaciente. Antes de o show começar, com o palco limpo, parece que nada pode sair dali - apenas um gigantesco incensário no centro do palco. Mas as projeções em alta definição criam um universo em frações de segundos, com plataformas móveis saindo do chão como se o tablado tivesse molas. Madonna surge e desaparece de lugares diferentes do palco e da passarela, engolida pelo chão móvel.

Ela canta entre "surfistas de trem" da Índia e o trem de Darjeeling atravessa os telões com sua promessa de experiência mística. Arfa e bebe água enquanto canta Open Your Heart com o Kalakan Trio, rendendo homenagem à música do País Basco e sua percussão libertária (que remete à utopia nômade).

"Teve gente que previu que o mundo ia acabar em 2012, mas eu prevejo unidade e harmonia. 2012 será o começo de algo maravilhoso", disse Madonna. Seu empresário, Guy Oseary, diz que a cantora tem um "love affair" com o Brasil, e que a equipe se diverte em ver a onipresença das bandeiras brasileiras nas plateias por onde passam. Oseary pilota as turnês da cantora desde 2005, mas não quer saber de meter a colher na suposta briga entre Madonna e Lady Gaga (durante o show, Madonna ironiza a concorrente com a frase "Ela não sou eu", aludindo a suposta apropriação de sua canção Express Yourself por Gaga em Born This Way). "Não é da minha conta", diz.

Os temas vão enfatizando o conceito do show, que é operístico, transpassa todo o espetáculo: I'm a Sinner, I'm Addicted, Like a Prayer. "Sou uma pecadora, e gosto disso." Madonna condena a religião, mas não o rito, a cerimônia. Quando ela inicia o último set, com Vogue, entra em cena a "igrejinha" da moda, na qual ela acredita piamente - e é recíproco, os sumo sacerdotes da moda jogam suas fichas nela, tanto que os estilistas Donatella Versace e Giovanni Bianco assistiam ao show na área VIP. Madonna alterna modelos de Jean Paul Gaultier (veste ainda, durante o show, Prada, Alexander Wang e Jeremy Scott).

É nesse bloco que Madonna agora examina a catedral do sexo (tem o atual namorado, Brahim Zaibat, 29 anos mais jovem, dançando dois números calientes consigo): acaricia garotas e garotos e coloca na passarela a outrora transgressiva ambiguidade sexual. É quando ela exibe o derrière com um olhar malicioso, que alterna a febre fetichista com Sade e Masoch, veste couro e tênis All Star.

Ao final, após livrar de sua fúria iconoclasta um único coral gospel (ao estilo Mahalia Jackson, uma nova elegia pop com túnicas com uma cruz na parte dianteira), um coletivo virtual de DJs toma conta do palco, em Celebration - Madonna entre eles. Madonna está de joelhos frente ao novo Deus, o Deus da tecnologia, da autoconfiança, das crenças portáteis, do Olimpo inacessível do show biz.

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