As gavetas do escritor

Reunião de contos é treino inaugural de Rosa, mas já evidencia imaginação e preciosismo de linguagem

Walnice Nogueira Galvão, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Parece fatal, mas em alguma esquina da História os pecadilhos de juventude podem emboscar o escritor consagrado.

Em cuidada edição da Nova Fronteira, com as ilustrações originais, sai Antes das Primeiras Estórias, treino inaugural de Guimarães Rosa ainda em 1929-1930. É bom lembrar que dezesseis anos se passariam até sua estreia oficial, com o livro Sagarana, em 1946. É provável que nesse lapso de tempo resida o segredo, que vai destes contos até um estilo estabilizado e com marca registrada.

A imaginação do escritor alça voo para a Escócia, os Alpes suíços, a Alemanha e os fenícios de antanho. Não seria difícil localizar o sinete de suas numerosas leituras, por exemplo a de Edgar Allan Poe num texto gótico para ninguém botar defeito ou a do Flaubert de Salammbô em outro. Mas ainda não é isso o mais interessante, e sim o preciosismo da linguagem, entre parnasiana e simbolista, perseguindo um léxico raro e esdrúxulo. Pouca invenção há, e assim mesmo num ou outro neologismo ("esmeraldejava", "acorcundados") de raso lavor.

Mas deixa entrever como se encanta com os imponentes topônimos celtas, aqueles de consoantes dobradas e jeito impronunciável, ou então com os onomásticos fenícios. O autor deleita-se em falar de "Tragywyddol, guardião de Duw-Rhoddoddag", e de Kartpheq, Narr-Baal, Quaimph, Asdoth-Pisga. O fantástico predomina como clima geral, com insinuações de eflúvios do diabo, lado a lado com a precisão vocabular amaneirada ao descrever paisagem e fauna.

Outro escritor pilhado em semelhante armadilha foi Fernando Pessoa. Tendo publicado apenas um livro em vida, Mensagem, morreria deixando dispersos e esparsos em periódicos. Toda a sua rica e numerosa obra levaria décadas para sair, e seria póstuma. Assim foram aparecendo volumes que traziam os heterônimos e mais o ortônimo, os poemas dramáticos, os poemas em inglês, a prosa e o Livro do Desassossego. Tudo o que se encontrava no famoso baú em vias de ser desentranhado, hoje na Biblioteca Nacional, aos poucos tem sido publicado, gerando, como não podia deixar de ser, muita polêmica.

Até aí, nada demais. Mas chegou um dia em que publicaram suas quadrinhas, à moda espontânea e popular. De fato, nada acrescentam à reputação do poeta, muito pelo contrário: críticos, como o grande pessoano Adolfo Casais Monteiro, protestaram devidamente, em vão. E lá vieram somar-se a uma alta poesia as rimas fáceis e as pieguices das quadrinhas.

Euclides da Cunha tampouco escapou. Grande controlador de tudo que escrevia, nunca viu mérito em transferir para páginas de livro as reportagens que fez sobre a Guerra de Canudos, hoje publicadas e republicadas. E, recentemente, veio à luz sua poesia juvenil, que repudiou até explicitamente, em observação manuscrita no caderno Ondas, atribuindo-a às ilusões da tenra idade.

Mas há escritores a quem a falta de cerimônia dos pósteros não prejudica. O caso notório é Mário de Andrade, cuja obra editada conforme sua vontade é pouco mais da metade da que existe hoje. Aconselhava aos confrades que não se desperdiçassem e que escrevessem para jornal "pensando em livro" - e seguia seu conselho. Graças à curadoria de seu acervo no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), tornou-se um exemplo de como esse tipo de resgate de fundo de gaveta pode vir a beneficiar um escritor e sua obra, em vez de deprimi-los. Completando as pesquisas interrompidas pela morte precoce, contidas em dossiês, pastas, recortes, folhas avulsas e fichas, as equipes do IEB prepararam novos livros de sua autoria discutindo estética, música, arte popular, o Bumba-meu-Boi, o cantador nordestino, entre outros.

Quanto a Guimarães Rosa, sempre cioso e bom juiz da própria obra, nunca quis que sua poesia abandonasse o ineditismo, pois, tanto quanto Euclides da Cunha, sabia bem o que ela valia: mas Magma acabou saindo. O estudo que Maria Célia Leonel dedicou a essa poesia sequestrada, em Magma e Gênese da Obra, debruçou-se sobre os indícios estilísticos que a uniriam ao restante dos escritos.

Todavia, nenhum dos casos que examinamos se reduz ao porte da reputação e à infelicidade de vir à luz material de ordem inferior. É preciso ponderar que um escritor, ao tornar-se figura pública, deixa de ter em sua vontade o árbitro exclusivo da obra e se torna patrimônio coletivo.

Por mais radicais que sejamos, nada se pode comparar à curiosidade que temos e ao interesse que despertam fundos de gaveta de grandes escritores. A pesquisa exige que esses materiais não sejam escamoteados mas sim revelados para alimentar os estudos, propiciando, não diria uma nova avaliação, mas elementos para alicerçar teorias e hipóteses.

É o que se verifica agora com estes primeiros contos, publicados antes dos livros, em revistas de outrora. Como poderíamos negar que lançam uma nova luz sobre a obra? Canhestros, tateantes, vertidos de uma pena ainda em busca de um caminho próprio, que demoraria a encontrar: trata-se de um escritor tardio, que publicaria seu primeiro livro, Sagarana, já perto dos 40 anos.

Mesmo que não esclarecessem mais nada, basta lê-los para perceber que o escritor, limitado a seu país, era presa de sua imaginação, que o arrebatava para o exotismo de países distantes, como estes contos deixam entrever, reiterando seu fascínio por geografia e mapas na infância. No entanto, depois que foi palmilhar os lugares de seus devaneios, e após viver temporadas no exterior, o escritor percebeu que o exotismo estava aqui, e acabou por construir sua obra sobre o sertão, as entranhas do país. Só por isso, esta edição já estaria justificada.

WALNICE NOGUEIRA GALVÃO, PROFESSORA TITULAR DE TEORIA LITERÁRIA E LITERATURA COMPARADA NA USP, É AUTORA DE EUCLIDIANA: ENSAIOS SOBRE EUCLIDES DA CUNHA (COMPANHIA DAS LETRAS), ENTRE OUTROS TÍTULOS

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