As fitas da discórdia

Aos 81 anos, João Gilberto perde um round importante para reaver sua obra

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2013 | 02h10

João não está feliz. Ainda lhe dói a alma lembrar do dia em que a gravadora EMI-Odeon resolveu relançar seus três álbuns fundamentais, em 1987. A voz limpa para ser cool em 1959, gravada em Chega de Saudade, vinha com ecos e brilhos. "Algo como botar um bigode na Mona Lisa", diz ao Estado a jornalista e namorada do compositor, Claudia Faissol. A sequência das músicas também lhe parecia estranha, fora de lugar. João suspirou fundo e foi à luta - em seu ritmo, claro. Sete anos depois de se contorcer de raiva, entrou na Justiça contra a gravadora e começou uma das mais dolorosas batalhas da música brasileira.

A última decisão da Justiça deixa João ainda mais triste. Depois de ganhar dois rounds nos últimos dias, ele perde uma batalha importante. Primeiro, a juíza Simone Nacif obrigou a gravadora a entregar a ele os masters (gravações originais) dos álbuns reclamados Chega de Saudade, de 1959; O Amor, O Sorriso e a Flor, de 1960; João Gilberto, de 1961; e o compacto João Gilberto Cantando as Músicas do Filme Orfeu do Carnaval. Havia até prazo para isso: cinco dias. A EMI então recorreu da sentença e João venceu de novo. O juiz Sergio Wajzenberg determinou que a empresa cumprisse a decisão, chegando a estipular multa de R$ 100 mil e busca e apreensão do material caso ele não fosse entregue. Wajzenberg acatou ainda o pedido para que fosse feita uma perícia nas fitas que seriam entregues. Até o perito foi nomeado: o produtor Marco Mazzola.

A reviravolta veio ontem, por volta das 17h, quando o desembargador André Gustavo Correa de Andrade julgou o novo recurso que a EMI levou à 2ª instância, para derrubar as decisões anteriores. Agora, o magistrado entende que João não apresenta condições de cuidar de seu material. "A entrega pura e simples das gravações originais (a João), sem prova de que elas ficarão sob os cuidados de empresa especializada em guardar e acondicionar em condições ideais esse tipo de material, é medida temerária", escreveu em sua decisão.

O caso que opõe decisões de juiz e desembargador segue para ser analisado pelos desembargadores da 7ª Câmara Cível do Rio de Janeiro, sem data para ocorrer. A EMI, procurada pela reportagem, manteve sua estratégia do silêncio. "No momento, a companhia não tem interesse em se pronunciar", informou, por meio de sua assessoria de imprensa. Já Claudia Faissol falou, antes da nova decisão da Justiça: "É uma conduta desastrosa não só contra João Gilberto, mas contra o nosso País". Já João Gilberto, 81 anos e nenhuma previsão de voltar aos palcos ou aos estúdios, segue triste e calado.

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