As faces de um brasil que nasce da vontade

Livro de fotos dos irmãos Salvatore mostra como voluntários mudam o País

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2010 | 00h00

Há pouco mais de dez anos, na aldeia Mehinaku do Alto Xingu, os irmãos Ana Elisa e Luís Salvatore, então recém-formados, ele em Direito e ela em Design, começaram sua odisseia para criar o Instituto Brasil Solidário (IBS), uma ONG dedicada à inclusão social. Ao longo desses anos, eles já percorreram mais de 200 mil quilômetros levando medicamentos, livros, computadores, cestas básicas, instrumentos musicais, material esportivo e até câmeras fotográficas para 794 municípios brasileiros, também atendidos por dentistas, médicos e professores voluntários que já visitaram mais de 1 milhão de pessoas por meio de programas mantidos com a ajuda de parceiros do instituto (Casas Bahia e Banco Itaú). Para comemorar esse primeiro decênio de sua existência, os irmãos fundadores resolveram mostrar alguns desses brasileiros atendidos pelo IBS no livro Caminhos de um Brasil Solidário.

Mais do que um simples registro documental, trata-se de um ensaio fotográfico de dois irmãos descendentes de um nome histórico da fotografia no Brasil, Eduardo Salvatore (1914-2006), um dos fundadores do Foto Clube Bandeirantes em 1939, que reuniu os pioneiros na fotografia experimental. Como o avô, ligado à vertente pictorialista, Luís faz da construção de suas paisagens um exercício rigoroso de composição. Por outro lado, sua abordagem da relação dos modelos com o meio ambiente é menos formal e mais carregada de espontaneidade, o que se explica pela convivência de anos com as pessoas selecionadas para representar cada uma das regiões do país atendidas pelo instituto.

É exemplar o caso do violeiro Coque, da pequena Natividade, entre o deserto do Jalapão e a Chapada dos Veadeiros, em Tocantins. A exemplo da violeira de Campo Grande, Helena Meireles (1924-2005), ele é autodidata e ainda mais limitado por ter uma mão só. Em 1974, aos 16 anos, ele resolveu construir sua primeira viola caipira, ignorando a deficiência. Hoje, com a mão esquerda, toca um modesto repertório na viola de dez cordas e ainda espera gravar um CD como o fez, aos 69 anos, Helena Meireles, eleita pela revista americana Guitar Player, em 1993, um dos 100 melhores instrumentistas do mundo. Outros músicos autodidatas como Coque, entre eles a sanfoneira Sebastiana, de São Raimundo Nonato, Piauí, foram encontrados e registrados pelos fundadores do IBS.

Como o objetivo do livro é o de mostrar um pouco de cada região do Brasil, o fotógrafo e sua irmã reuniram, além de paisagens e personagens marcantes, registros de costumes locais e receitas típicas ao final de cada capítulo, em que levantam expressões regionais e fornecem dados sobre os municípios visitados. E, contrariando a visão estereotipada que muitos têm do Brasil, os autores mostram, por meio de fotos, como alguns vilarejos do Sul e Sudeste, entre eles o carente Vargem do Braço, próximo a Florianópolis, apresentam um panorama social não muito diferente do sertão nordestino.

Algumas das imagens de Caminhos de um Brasil Solidário já são históricas, como o registro da fachada da igreja São Luís de Paraitinga, no interior de São Paulo, destruída durante a enchente de janeiro deste ano. A preservação do patrimônio ambiental e cultural é também uma das preocupações do instituto, que promove palestras de especialistas e encontros de alunos com escritores. Maiores informações sobre o IBS podem ser obtidas no site www.brasilsolidario.org.br.

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