As faces de Dorian Gray

Há um pouco de psicanalista arguto e de um deus onisciente no ato de conceber ficção

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 02h00

Estou no país de Vargas Llosa. Há muitos autores latino-americanos hispanófonos que me marcaram. Imediatamente, penso em Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar e Alejo Carpentier. A lista é muito maior. Eles fizeram parte da minha vida e do meu crescimento ao lado dos escritores brasileiros e de outras nacionalidades. Nunca estive com nenhum deles e, curiosamente, pareço íntimo de todos, como se eu fora um bom amigo.

Ainda lembro do impacto de ler a Conversa na Catedral, de Llosa. Para mim, é uma das obras mais extraordinárias da literatura do Novo Mundo. Foi minha porta de acesso ao mundo dele. Fui descobrindo joias raras ao longo da vida. Levei um tempo para entender a variedade de estilo entre um capítulo e outro na obra Tia Júlia e o Escrevinhador. Depois de resolvidos os mistérios, tudo parece muito claro. Nada me fez refletir mais sobre o que é ser prático do que o livro Pantaleão e as Visitadoras. O texto do peruano sobre Flaubert e Madame Bovary mudou por completo minha leitura do romance. Percebi o que era um olhar agudo e treinado de um grande escritor sobre outro.

Borges foi perseguido pela política peronista. García Márquez emitiu opiniões políticas controversas em apoio ao governo cubano. Há um diferencial em Vargas Llosa: o autor de Arequipa concorreu à presidência. A questão se coloca desde Platão: a república precisa de intelectuais no poder? A condição de uma pessoa famosa pelas ideias ajuda ou atrapalha o exercício do cargo público? O Brasil teve a experiência de um sociólogo no poder. Parece que a sobrevivência de FHC deveu mais à busca de esquecimento sobre o que tinha publicado como pesquisador do que aos seus méritos analíticos das obras clássicas da área. Vargas Llosa diria, se tivesse sido eleito, que deveríamos esquecer o que ele escreveu?

O autor de A Festa do Bode foi agraciado com o Prêmio Nobel, tal como seu desafeto, García Márquez. O prêmio foi justo, como o fora ao celebrar Octavio Paz no México. Falta apenas lembrar ao povo de Estocolmo que temos em Portugal gente como Valter Hugo Mãe. Para o Brasil citarei apenas (poderiam ser muitos) Lygia Fagundes Telles. Além do Nobel, ele recebeu do rei da Espanha o título de marquês, alto galardão nobiliárquico. Brincou, na ocasião, que era o primeiro marquês mestiço. Utilizou em espanhol uma palavra muito forte: um nobre cholo!

Volto ao aparente oxímoro do intelectual político. Como autor, Vargas Llosa é livre para esquadrinhar a alma humana, criar e desfazer tramas, mostrar as ambiguidades contidas em tudo. Demiurgo da sua obra, ele voa sobre as personagens sem genuflexões a nenhuma delas. A beleza da criação, especialmente a ficcional, é a liberdade absoluta que revela aos leitores alguém sem medo, sem amarras e sem imperativos absolutos fora a beleza crua do mundo. Ao reconhecer apenas sua ação criadora, o bom autor é o espelho mais fiel do real, caso pudéssemos olhar todo dia e sem vergonha para o retrato que nós, Dorian Grays vulgares, guardamos a sete chaves. Há um pouco de psicanalista arguto e de um deus onisciente no ato de conceber ficção. Nunca fomos tão reais como somos em bons romances e contos. Por vezes, o texto é de uma sinceridade tão direta, que sofre ataques e até censuras, como viveu Flaubert. “Como assim?”, vociferam as vestais pudicas, “como você ousa revelar o que todas nós pensamos e fazemos no escaninho da nossa consciência individual e na calada da noite?”. As vestais têm horror à literatura de qualidade. É real demais para seus sonhos de pureza. Boa literatura faz pensar e dói. Vargas Llosa usa a figura do monstro de Borges, extrapolando-a: catóblepa, a criatura que comeu uma parte de si. Escrever é autofagia. Escrever é imolar-se.

A liberdade criadora de um autor encontra, no campo da política, seu perfeito nêmesis. A política é a arte da negociação e, por sua natureza pública, a contenção da bílis de cada um. Os deputados se insultam, tratando-se como excelências. Atacam de forma direta um colega e, minutos depois, entregam-se a alianças sólidas com o recente objeto de impropérios. Inimigos históricos apertam as mãos em um jardim de uma mansão. Espinha do político é o objeto mais flexível do planeta, já advertiam especialistas há décadas. Os ódios cedem lugar aos interesses do momento. O bom candidato deve sufocar todos os seus impulsos e suas convicções. Há uma lista de coisas politicamente corretas a dizer. Cada eleitor tem uma verdade e o candidato não pode ofendê-la.

Não se trata de uma deformação demagógica, porém de uma imposição da própria estrutura democrática. O cidadão precisa se identificar com o candidato. Ideias fortes e diretas criam rejeição. A política demanda mais Conselheiros Acácios, cada vez mais. Não, os políticos não são limitados ou superficiais. Os políticos são frutos de mídia training, como quase toda celebridade.

Como o ser livre por excelência, o autor/artista, pode se converter em político? Se Vargas Llosa tivesse vencido as eleições, teria seu Prêmio Nobel ou seu título de marquês? Sua derrota foi um ganho para nós, leitores, ou uma perda para os peruanos? Suponho que essas perguntas seriam extraordinárias para um bom romancista. Provavelmente, são péssimas como plataforma eleitoral. Boa semana para todos nós. 

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