AS FACES DA DOR

Poderosos signos visuais emolduram a tragédia de Eurípides dirigida por Gabriel Villela

O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h10

Fantasmas, além de outras conveniências, são um presente para a imitação artística de modo geral. Em particular, são uma dádiva para o teatro porque podem adotar os formatos mais extravagantes tanto para assumir fruições dramáticas quanto para ornamentar os espetáculos. A encenação de Hécuba dirigida por Gabriel Villela se esforça para elevar à potência máxima a dimensão fantástica da personagem encarregada do prólogo da tragédia de Eurípides.

Desse modo, a aparição de um dos últimos Priamidas, cumprindo a função de informar sobre lances da narrativa, só é comparável à evolução da porta-bandeira nos desfiles carnavalescos. Quem acompanha a exibição das escolas aprende a adivinhar, através da comissão de frente, a qualidade estética e o ânimo coletivo daquele desfile e pode-se dizer o mesmo desta encarnação de Polidoro, que precede os episódios protagonizados por sua mãe Hécuba. Figura andrógina, protegida por uma sombrinha vagamente oriental, assessorada por luzes, embrulhada em filó, pesadamente maquiada, a aparição do menino morto contradiz por meio da formalização impostada e irônica o conteúdo patético do discurso. Sob essa pesada camada de signos visuais mal se percebe o débil chamado da criança que os pais tentaram proteger e que, assassinada pelo parente a quem foi confiada, anseia pelo colo materno e pelo repouso entre os ancestrais.

Nas outras imagens que se sucedem persistem as camadas sobrepostas e por vezes amalgamadas de formalizações de épocas e culturas remotas cujo traço de comum é contrastar o período clássico da cultura grega. Relembrando o esplendor das máscaras micênicas, os artefatos africanos, a tecelagem indígena, e, enfim, a mistura de todas essas técnicas e representações consagradas pela distância temporal ou pela tradição laica e religiosa, o espetáculo se empenha na valorização estética do artesanal e, portanto, do "bárbaro".

Também soam como memória arcaica os solos e os cantos corais potentes e muito bonitos, modulando frases em uma língua incompreensível e sugerindo uma resistência coletiva opondo-se ao "ai dos vencidos". No entanto, é o murmúrio constante do sofrimento, a dor íntima e não menos intensa dos que estão fora do campo de batalha e, portanto, a salvo dos golpes físicos, que impregna o discurso das mulheres e as entrelinhas das peças troianas de Eurípides. Essa tonalidade, ao mesmo tempo lírica (porque se refere ao sentimento individual) e trágica (porque partilhada entre todos os cidadãos) é uma das características mais apreciadas pelos leitores modernos da dramaturgia grega. Pode-se compreender, entretanto, que encenadores contemporâneos temam a vizinhança com o psicologismo e com os aspectos prosaicos da experiência cotidiana imiscuídos nas queixas de mulheres que choram por maridos, irmãos, filhos e por suas casas destruídas. Jean-Paul Sartre, referindo-se à adaptação de As Troianas, expressou esse receio: "O espetáculo trágico, representado em condições tão artificiais quanto rigorosas, é, primeiramente, uma cerimônia, que visa por certo a impressionar o espectador, mas não a mobilizá-lo. O horror aí se faz majestoso, a crueldade solene".

A elevação majestosa e o andamento solene seriam antídotos contra a pieguice que, durante muito tempo, se associou às representações de tragédias. Talvez por esse motivo, sob a direção de Villela, as mulheres troianas e sua rainha sejam inegavelmente sóbrias e audaciosas ao vingar o assassinato de um de seus filhos. Mas a condição de séquito humilhado, de majestade destronada, está submersa na celebração visual e vocal da cultura bárbara que o espetáculo faz prevalecer sobre o tema trágico.

Troia não venceu e é sobre isso que a trama se desenvolve. Tampouco venceram os gregos e esse é um ponto de vista do autor que decidiu encerrar sua obra com a previsão dos infortúnios que aguardam os que se imaginam vencedores. Quase nada desse sentimento avassalador de desperdício sobrevive em cena, uma vez que a tristeza é sepultada sob a proliferação de imagens e cânticos entusiasmados. Nos raros momentos em que um significado doloroso ultrapassa a máscara facial ou corporal dos intérpretes, uma ocorrência espetacular dilui o efeito.

Walderez de Barros, uma atriz que possui em alto grau a habilidade de tomar nítida a dinâmica interior das personagens que interpreta, parece engessada dentro de uma máscara pesada. No lugar da velha senhora alquebrada, mas, ainda assim, capaz de extrair forças do ressentimento, a atriz que interpreta a protagonista sonega à personagem a habilidade que possui em alto grau de tornar nítida a dinâmica interior das suas personagens. Hécuba, neste espetáculo, tem apenas a faceta da matriarca solene, maquiada para acentuar a irrealidade da cena, com uma voz muito grave, impassível ao modular no mesmo registro a súplica a favor da vida e o desejo de vingança. É essa a linha adotada pela encenação e cabe aos intérpretes disciplinados seguir a trilha. Fica difícil apiedar-se de uma personagem cuja caracterização está destinada a fazê-la triunfar esteticamente. E, sem a compaixão pelos vencidos, os vencedores tornam-se menos temíveis.

Crítica:

Mariangela Alves de Lima

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.