As estrelas subiam

Livro que celebra o centenário do bondinho cristaliza crônica de uma era da música no Rio

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h11

O show biz é um sobe e desce contínuo, glória e derrocada, mas no bondinho do Pão de Açúcar ele sempre foi mais para cima do que para baixo. Quem revela esse movimento - e a história da chamada Concha Verde da Urca - é um livro lançado em abril pela Editora Lacre no Rio de Janeiro e que já se configura como essencial para conhecer uma parte fundamental da história da música brasileira e internacional.

Morro da Urca: Estação da Música (136 págs., R$ 95) foi feito sob encomenda para a celebração do centenário do bondinho, em 27 de outubro do ano passado. Tem texto e pesquisa do jornalista Antonio Carlos Miguel (de O Globo) e da historiadora Monique Sochaczewski e recupera a crônica de uma era de esplendor da música e da vida brasileira. Os autores fuçaram arquivos desde o da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos até acervos particulares, passando pela Cinemateca, jornal Última Hora e O Globo, Getty Images, entre outros.

O trabalho foi uma iniciativa da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar e salienta os eventos culturais que acompanharam a história do morro. "Fui contratado e me envolvi com o projeto, já que acompanhei todos os projetos musicais que subiram o Morro da Urca, desde a Concha Verde, em 1977, quando eu engatinhava no jornalismo musical", contou o crítico de música e repórter Antonio Carlos Miguel.

O conjunto paisagístico do Pão de Açúcar desfruta de unanimidade. Em 1973, foi tombado pelo Iphan. Mas a vocação cultural do bondinho surgiu mesmo em 1972, quando entraram em operação os novos carros e foi erguido em meio à vegetação o anfiteatro Concha Verde, inicialmente utilizado para peças infantis. A partir de março de 1977, muitos cobras começaram a subir o morro: Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Gal Costa, Edu Lobo, Caetano Veloso, João do Vale, Gil, Rita Lee, João Bosco, Novos Baianos, Alceu Valença.

O empresário e agitador cultural Guilherme Araújo (associado ao compositor, jornalista, produtor musical e escritor Nelson Motta) subiu o morro um ano depois com um projeto ousado. Em março de 1978, realizou o primeiro de seus 11 bailes carnavalescos, o Sugar Loaf Carnival Ball.

No prefácio, Motta conta: "Eu não planejava continuar no ramo de profissional da noite. E, para rechaçar os muitos pedidos de reabertura, tinha uma resposta pronta que parecia botar uma pedra em cima do assunto: 'Só se for no Pão de Açúcar!'".

Foi assim que, em julho de 1978, Motta se veria compelido a cumprir a promessa e levar para o anfiteatro Concha Verde a pioneira discoteca Dancing Days, inaugurada com um show superlotado das Frenéticas e do DJ Dom Pepe. Era o auge da disco music, uma época em que a conexão brasileira com as pistas de dança da América era imediata.

Vieram outros projetos, como o Noites Cariocas, o Beija-Flor Sobe o Morro e o Mama África. No Noites Cariocas, inaugurado ali em janeiro de 1980, passaram gente como Blitz, Barão, Marina Lima, Lulu Santos, Paralamas, Ultraje, Titãs, Legião Urbana.

Desde 2007, o morro abriga a série Verão no Morro, espraiando sua vocação cultural. A lista de artistas vai de Los Hermanos a Zeca Pagodinho, passando por Diogo Nogueira, Maria Rita, Erasmo Carlos, Beth Carvalho, Rita Lee, Marcelo D2, Jorge Ben Jor, Capital Inicial, Ana Carolina, Maria Gadú, Jota Quest, Barão Vermelho, Blitz, Caetano Veloso, Gilberto Gil.

"Em termos estéticos, minha série preferida foi Quem Sabe, Sobe, que teve a estreia luxuosa com Hermeto Pascoal, seguido de Egberto Gismonti. E, em um ano e pouco, teve uma escalação que contou com toda a música brasileira da época, dos Novos Baianos a Aracy de Almeida, de Caetano a Ney Matogrosso", lembra Miguel. "Mas o período inicial do Noites Cariocas, quando a geração do rock br dos anos 80 surgiu, também teve uma importância decisiva", considera.

O centenário do bondinho começou a ser comemorado no ano passado com uma exposição de fotos e shows da harpista Cristina Braga, do DJ Dom Pepe e de Jorge Ben Jor. Em janeiro, no Aterro do Flamengo, um trio elétrico reuniu Afro Reggae, Preta Gil, Evandro Mesquita e Léo Jaime. A Conspiração Filmes também prepara um longa-metragem sobre o bonde.

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