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As epifanias de bolso de David Perlov

Em certo sentido, David Perlov (1930-2003) realiza a utopia da "câmera-caneta" elaborada por Alexandre Astruc nos anos 1950 num artigo inspirador para os cineastas da nouvelle vague. Perlov usa sua câmera 16 mm como um despojado instrumento de escrita do seu diário pessoal. Registra sua vida, a partir da janela do seu apartamento em Tel-Aviv. Filma sua mulher e suas duas filhas, mas também a instabilidade política da região. Ao longo da série, vê-se envelhecer. Observa as meninas crescerem e se transformarem em belas mulheres, que lhe darão netos. Capta o fio da vida - e este fio abarca também o mundo, que tem o cineasta como seu personagem atuante, ano após ano, a partir de 1973. Os Diários são sua obra mais conhecida, em seis capítulos, que o Instituto Moreira Salles, no Rio, e a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, estão exibindo, ao lado de outros títulos do autor, até dia 30 (programação no site www.cinemateca.com.br).

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2011 | 00h00

A mostra, com curadoria da pesquisadora Ilana Feldman, não poderia ter nome mais adequado - Epifanias do Cotidiano. De fato, o que se sente, ao ver esses filmes em sequência, são pequenas iluminações que surgem a partir do registro em aparência mais simples. Flagrantes tanto mais agudos quanto maior é a sensação de estranhamento de Perlov. Judeu, nascido no Rio e criado em Belo Horizonte e São Paulo, passa longa temporada em Paris e se estabelece por fim em Israel. "A que lugar pertenço?", pergunta-se, a cada fotograma. Essa câmera viajante faz parte de uma tentativa de resposta a essa pergunta por parte do desenraizado crônico.

O Brasil está muito presente na sua filmografia - nem poderia ser diferente, uma vez que se deu aqui seu processo de formação. Sente-se o Brasil não apenas pelas visitas de amigos brasileiros que recebe em Israel, como por suas viagens ao País. A parte 6 dos Diários é filmada no Brasil, terno reencontro com o Rio, Belo Horizonte e a São Paulo da sua infância, cidades já tão mudadas. O Brasil aparece também nas evocações verbais de Perlov por intermédio de Dona Guiomar, uma espécie de mãe de criação. Protestante, filha de escravos, continua presente no imaginário de Perlov que a relembra, ao mesmo tempo em que procura exorcizar medos e preconceitos. A câmera é, também, terapêutica, além de despertar o sublime que dorme oculto no aparentemente banal.

EPIFANIAS DO COTIDIANO

Cinemateca Brasileira. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 3512-6111 (r. 215). R$ 8. Até 30/3 - www.cinemateca.gov.br.

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