Imagem Laura Greenhalgh
Colunista
Laura Greenhalgh
Conteúdo Exclusivo para Assinante

As duas vitórias de Michelle

A entrevista seria às 8 da manhã. Mas a jornalista, vinda de São Paulo na véspera, chegou ao La Moneda às 7. Precaução. Entrevista presidencial rende noite maldormida, temor de que algo vai dar errado. Sempre pode dar.

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2013 | 02h06

Santiago amanhecera fria. À entrada do palácio chileno, saudação ao militar carabineiro, impecável em suas botas de cano longo e couro bom. O homem convida a jornalista a se acomodar na Sala dos Oficiais, "y esperar hasta las ocho". Espera longa, o olhar vagando no éter da memória...

A visitante imaginaria o bombardeio aéreo daquele lugar, também numa manhã fria, em 11 de setembro de 1973. Cenas que tantas vezes pôde rever no ótimo documentário de Patricio Guzmán, A Batalha do Chile. Mas era novembro de 2006, outro tempo, a primeira presidente latino-americana, uma socialista, tomara posse, vitória da democracia. "Té o café, señora?", perguntou-lhe o oficial, curvando-se com duas garrafas térmicas nas mãos. Choque de realidade. Meu Deus, o oficial das botas impecáveis tem uma magreza e um bigodinho que o fazem sósia de... Jorge Videla! O ditador argentino! Não, não era hora para coincidências de mau gosto.

O carro trazendo a presidente cruzou o pórtico do palácio às 7h50. Cinco minutos depois, a jornalista era convidada a se dirigir ao Salão Azul. Com uma encarregada do cerimonial à frente, varando corredores e explicando a mais recente reforma do La Moneda "de triste memória". Michelle Bachelet entrou no salão a las ocho. Simples na aparência, simpática no trato, comedida na fala. Tinha apenas oito meses de governo. A jornalista agradeceu de saída o encontro e anunciou que iria perguntar sobre tudo.

A presidente consentiu. Em duas horas e meia, conversaram sobre quase tudo. Sobre a primazia de ser a primeira mulher a suceder 46 homens naquele cargo, em 200 anos de vida republicana. Sobre o futuro da Concertación, coalizão política que garantiu a transição democrática do país. Sobre a agilidade com que a economia chilena se abria para o mundo, em múltiplos acordos comerciais. Sobre os contenciosos com vizinhos latino-americanos, Bolívia e Venezuela. Sobre os estudantes que começavam a sair às ruas. Por duas vezes a moça do cerimonial foi dispensada de avisar que o tempo fixado para o encontro já se esgotara.

Na véspera, havia sido decretada a prisão domiciliar do general Augusto Pinochet, este sim de triste memória. Michelle seria discreta ao comentar a decisão da Justiça. E firme ao defender o processo de reparação que a sociedade chilena levava adiante, mesmo com o ditador vivo. Presidente, acha mesmo que as feridas do passado vão fechar? "Vou responder como médica. Sabe que sou pediatra, não? Quando uma ferida está contaminada, suja, ela não cicatriza. E sempre pode reabrir. Temos que ir limpando, limpando, limpando..." Tudo dito, tudo entendido, abraços de despedida. A presidente então decide acompanhar a jornalista até um corredor de saída. Passam numa sala de portas fechadas. Michelle para e aponta. "Foi aqui que aconteceu." Aconteceu o que, presidente? "Allende." Proferiu o nome, olhou firmemente a interlocutora e disse adeus.

Até aquele momento, a morte de Salvador Allende pairava enigmática na minha cabeça. Muitos como eu, da geração cujos sonhos de juventude foram acuados pelas baionetas, guardaram por anos a impressão de que o presidente socialista fora assassinado dentro do palácio, e dele saíra pela porta da rua Morandé, número 80, o corpo embrulhado em uma manta. Seria o triste desfecho de um golpe matutino, que se desdobraria na longa noite de um regime sanguinário. No entanto, Michelle anunciava ali, laconicamente, e em 2006, o que o juiz chileno Mario Carroza viria sacramentar para a Justiça e para a História somente no ano passado: diante das traições e da devastação brutal, Allende deu cabo da vida.

Se a presidente ousou tocar nesta ferida, no derradeiro momento do nosso encontro, evitou contato com outra, ainda mais exposta, ao longo da entrevista. Explico. Chegara às livrarias, naqueles dias de 2006, o volume As Cartas do General Bachelet, assinado por duas jornalistas chilenas e feito a partir da liberação (pela família) da correspondência do pai de Michelle. Alberto Bachelet foi preso na manhã do golpe e morreria seis meses depois, em consequência das torturas que sofreu. Deixou epístolas que brotam do desalento, escritas desde o momento em que o capturaram até a véspera da morte. São o testemunho do quanto pode ser conspurcada a "honra de servir à pátria", essa nobre distinção militar, face ao desvario totalitário. Pois Michelle não se pronunciou sobre o livro, publicação incômoda que o ditador ainda deve ter tido o desprazer da leitura.

Passaram-se os anos e eis que velhos fantasmas retomam a cena, agora no embate eleitoral entre Michelle Bachelet, de centro-esquerda, reeleita presidente do Chile dias atrás, e a ex-ministra Evelyn Matthei, de centro-direita. A vitória da socialista, a bordo da Nova Maioria, frente política que expande a antiga Concertación, era dada como certa. O que despertou interesse foi o confronto entre duas filhas de generais - Alberto Bachelet, destacado oficial da Força Aérea chilena e chefe da Secretaria Nacional de Abastecimento no governo Allende, e Fernando Matthei, também aeronáutico, que servia em Londres no momento do golpe.

O confronto das filhas suscitou perguntas incômodas. Quando Matthei foi logo chamado de volta ao Chile, pela junta liderada por Pinochet, teria se ocupado da prisão de Bachelet, seu companheiro de farda? Teria pretendido enredar o pai de Michelle com os quadros radicais da esquerda? Teria imputado a ele a titularidade de uma conta bancária suspeita? Teria ordenado as famigeradas sessões de "ablandamiento", eufemismo para tortura, a que foi submetido Bachelet, um cardiopata? Matthei está vivo para rebater o "sim" que militantes de Direitos Humanos dão a essas questões: "Acusar-me de participação na morte de meu amigo é tão grotesco quanto acusar Alberto Bachelet de traição à Pátria".

Juntando estas peças, penso que a reeleição foi a segunda vitória de Michelle este ano. A primeira veio com o reconhecimento - agora oficial- de que seu pai morreu no dia seguinte a uma sessão de "ablandamiento", como conclui a investigação conduzida pelo mesmo juiz que comprovou o suicídio de Allende.

Do livro de cartas - e abençoados sejam os que as escrevem - seleciono a mais singela delas, em que o general, hospitalizado por isquemia depois de uma sessão de maus tratos, escreve para a filha Michelle, estudante de medicina, chamando-a pelo apelido, para felicitá-la pelo aniversário. Dispenso a tradução: "29 de Septiembre de 1973. Mica, no te podré cantar el 'Feliz Cumpleaños'. No te prodré abrazar, besar ni entregarte algún regalo. No te podré invitar a comer donde los chinos. Pero te deseo un montón de felicidades, otro montón de abrazos y besos en tu cumpleaños, con el cariño y amor de tu padre, que siempre te recuerda, esté donde esté".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.