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As duas mulheres de John Lennon

Mãe e a tia que criou o músico estão no centro de O Garoto de Liverpool

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2010 | 00h00

Pode ser psicanálise elementar, mas John Lennon, que foi abandonado pela mãe quando criança, talvez tenha passado a vida inteira procurando uma substituta para ela. Encontrou-a em Yoko Ono e foi a união perfeita - até que os disparos de Mark Chapman pusessem fim à harmonia do casal. Dificilmente o espectador que for ver O Garoto de Liverpool, que estreia hoje, deixará de pensar assim. O filme já foi exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. Poderia ter-se beneficiado de uma publicidade extra, se tivesse entrado há duas semanas, coincidindo com os shows de Paul McCartney.

Pois embora o garoto de Liverpool biografado pela diretora Sam Taylor Wood seja Lennon, o filme cobre os anos em que o jovem, atormentado e solitário, ligou-se a Paul (McCartney) e a George Harrison. Foi naquele período entre 15 e 20 anos, quando descobriu o rock e formou a primeira banda. A amizade foi o embrião para o surgimento dos Beatles, o que todo fã de carteirinha sabe.

É uma história conhecida, é verdade que não por todos e a diretora imprime seu toque pessoal ao retirá-la do âmbito dos amigos para encontrar outro foco. Porque a Sam Taylor Wood o que interessa de verdade é a relação de Lennon com as duas mulheres que marcaram sua infância e adolescência - a mãe que o abandonou e a tia que o criou. Essa mãe foi sempre um fantasma a assolar a criatividade do artista, em famosas criações como Mother e Woman, ambas da sua carreira solo.

"Mother, you had me, but I never had you/I wanted you, you didn"t want me" (Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você / Eu queria você, mas você não me quis), canta/chora o eterno garoto marcado pela rejeição. Uma forma de compensação ele encontra na tia, que lhe dá a primeira guitarra e termina por abrir, pela via da arte, uma possibilidade de superação. Só que isso pode induzir o espectador a uma expectativa errada sobre o que vai encontrar no filme. Sam Taylor Wood, até por ser mulher, talvez queira iluminar um pouco essa mãe, resgatá-la da sua aura de crueldade.

Pois o jovem Lennon, ao descobrir o paradeiro da mãe, vai bater à sua porta, tentando ouvir dela o porquê do abandono, Cria-se uma espécie de vínculo tardio e ele coincide com a depressão que a morte do marido causa na tia. Produz-se quase que uma inversão - a mãe fica mais palatável e a tia revela seus aspectos mais sombrios. O pobre garoto de Liverpool, realmente, depende cada vez mais da arte para solucionar os impasses de sua vida.

Mas a verdade é que, por mais interessante que seja como tentativa de entender o gênio. O Garoto de Liverpool sofre do problema básico envolvendo muitas cinebiografias de grandes artistas.

O filme é bem feito, razoavelmente interpretado, mas dá a impressão de ficar na superfície dos fatos e personagens. Seria necessária uma abordagem narrativa muito mais forte e ousada para que O Garoto de Liverpool fizesse justiça à criatividade que caracterizava vida e obra de John Lennon. Isso não deixa de ser surpreendente porque a diretora, como membro do movimento Jovens Artistas Britânicos, expôs seus trabalhos com sucesso em várias mostras (coletivas ou individuais), chegando a vencer o prêmio de talento mais promissor na Bienal de Veneza de 1997.

O Garoto é seu primeiro longa e antes dele Sam Taylor Wood fez o curta Love You More, produzido por Anthony Minghella, que participou da competição da categoria no Festival de Cannes de 2008. O ator Aaron Johnson, que faz o papel - ele ficou famoso por Kick-Ass -, é capaz de imitar o jeito e até o sotaque do biografado, mas não vai fundo em sua viagem em busca da alma do personagem. É interessante assinalar que, durante a filmagem, a diretora e o ator iniciaram um affair que continua. Pena que a paixão da vida não tenha sido incorporada à ficção.

Trailer. Veja cenas de O Garoto de Liverpool no site

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