As dores de Nelson

Coletânea joga luz sobre composições pouco gravadas e menos conhecidas do sambista da Mangueira

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2011 | 00h00

Nelson Cavaquinho gostava de dizer que passou fome apenas uma vez na vida. Certa feita, havia comprado um frango numa sexta-feira e seguiu para o botequim para encontrar amigos e desconhecidos, ficando por lá durante todo o fim da semana. Afogando as palavras no álcool e cantando um samba atrás do outro, esqueceu-se de comer. Lembrou-se do frango somente na segunda-feira, que, apodrecido dentro do estojo do violão, exalava um cheiro terrível.

O único compromisso de Nelson era com a boemia. Despojado e sem pretensão de estourar nas paradas, rendeu a seus pés os quadrados e os catedráticos, que até então julgavam não ser de bom tom para as rádios fazer sambas daquele jeito, sem refrão. A história já mostrou que eles estavam redondamente enganados, como comprova o disco duplo Nelson Cavaquinho - Degraus da Vida.

Rodrigo Faour, produtor e idealizador da coletânea, foi encarregado de uma missão saborosa, que é garimpar o repertório de Nelson, mas ao mesmo tempo inglória, já que, pela quantidade exorbitante de sucessos do compositor, seria possível compilar material para um álbum triplo, quádruplo...

São 14 faixas antológicas que atestam a grandeza de Nelson na santíssima trindade do samba, ao lado de Noel e Cartola. No repertório, como não poderia deixar de ser, temas como Folhas Secas, na voz de Beth Carvalho, Juízo Final, por Clara Nunes, Notícia e Degraus da Vida, por Roberto Silva, Vou Partir, O Meu Pecado e Luz Negra, por Elizeth Cardoso, Duas Horas da Manhã, por Paulinho da Viola, Palhaço, por Dalva de Oliveira, e Quando Eu Me Chamar Saudade, por Nora Ney.

"Nelson é um compositor fantástico. Em relação aos sucessos, não deu muito trabalho escolher. Difícil foi o escolher entre as composições do lado B dele, que são tão boas quanto as mais conhecidas. A música dele tinha uma verdade, refletia o que ele vivia, saía de dentro. É difícil de acreditar que um sujeito semianalfabeto tenha composto uma melodia como Se Você Me Ouvisse", diz Rodrigo Faour.

Mas o destaque de Nelson Cavaquinho - Degraus da Vida fica por conta da arqueologia musical do segundo disco, que joga luz sobre algumas raridades do "São Francisco do Samba".

A compilação é importante para demonstrar que, assim como os maiores sucessos de Nelson, as composições mais obscuras mantêm a qualidade e a marca de tratar de temas pesarosos como a morte, as desilusões amorosas e os dissabores da vida. Mais um atestado de que, enquanto Cartola era o dia e a luminosidade no samba, com a alegria de A Sorrir, Alvorada e Corra e Olha o Céu, mesmo com dores de consciência, Nelson era a noite e as trevas. "Ele mesmo dizia: "As pessoas pensam que eu sou assim, triste, mas eu não sou." E não era mesmo, ele animava o ambiente, embora suas letras tratassem de outras coisas. O Nelson foi o meu maior companheiro de boemia, sinto muita falta dele", conta o compositor, poeta e escritor Paulo César Pinheiro, que foi casado com a cantora Clara Nunes, uma das maiores intérpretes de Nelson.

"A Clara conheceu muita música dele por mim. Eu aprendi 90% da obra do Nelson e cantava para ela, que sempre gravava alguma coisa dele. O Baden (Powell), que foi meu parceiro mais constante, também era alucinado pelo Nelson. Vivia me pedindo para eu levá-lo na sua casa. Chegava lá e mal pegava no violão, ficava só ouvindo o Nelson cantar", lembra Pinheiro, que tem em casa fitas K-7 com Nelson cantarolando sambas inéditos, mas não pretende lançá-los.

A tristeza dos sambas do compositor aparece em Tenha Paciência, registrada por Clara Nunes, em 1976; É Só Vergonha, por Gilberto Alves, em 1954; Se Me Der Adeus, por Jorge Veiga, em 1969; Cigarro, por Risadinha, em 1953; Se Você Me Ouvisse, por Beth Carvalho, em 1977; Depois da Vida, por Paulinho da Viola, em 1971; Não Precisa Me Humilhar, por Germano Batista, em 1969; e Caridade, por Blecaute, em 1954.

"Para mim, o Nelson foi o maior compositor do mundo. Tratava de temas difíceis com profundidade e com melodias e harmonias geniais. Surgir outro vai ser difícil", diz Beth Carvalho, outra gigante intérprete do compositor, de quem pretende incluir mais um tema em seu próximo disco.

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