As diversas pessoas de Fernando pessoa

A rica multiplicidade do poeta é revelada em sons e imagens

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

Espaços. Entre as cabines com os heterônimos, a mostra reproduz quadro de Almada Negreiros que inspira móveis pendurados                

 

 

 

 

 

 

O famoso quadro de Almada Negreiros, que mostra Fernando Pessoa escrevendo em uma mesa ao lado da edição de número 2 da revista Orpheu, marco do modernismo em Portugal, permitiu que o cenógrafo Helio Eichbauer fizesse uma brincadeira que também é uma homenagem - ele pendurou réplicas dos móveis próximas à pintura, de forma que uma complete a outra. "Os objetos de Pessoa ajudam a conhecer melhor sua trajetória", comenta.

De fato, a vida do poeta nascido em 1888 e morto em 1935 confundiu-se com sua obra, permitindo a relação entre autoria e personalidade, sentimento e expressão. Figura complexa, criador de tantos "eus", Fernando Pessoa construiu uma obra singular, baseada na própria individualidade, seus limites, enganos e dilemas. Também deixou poucas pistas sobre seus reais pensamentos - afinal, como dizia o próprio poeta, "todas as frases do livro da vida, se lidas até o fim, terminam numa interrogação".

É esse ar de mistério que também justifica a disposição da mostra na forma de um labirinto. Eichbauer lembra que a falta de noção do caminho a seguir experimentada pelo visitante reproduz o desconhecimento do que seria encontrado vivido pelos grandes navegadores dos séculos 15 e 16.

As atrações mais atraentes da exposição são justamente as que provocam surpresa. Assim, depois de passar pelas seis cabines na entrada, onde versos, palavras e poesias são projetadas, o visitante adentra um universo em que tanto pode permanecer em um espaço no qual vozes de atores declamam poemas até conhecer um banco de areia onde, com um sinal feito pela mão, um poema é projetado sobre aqueles grãos, como se escrito na praia. Depois, basta outro aceno com os dedos e os versos são apagados pela água do mar, que surge também projetada, produzindo um agradável efeito.

A exposição traz ainda raridades, como a primeira edição do livro Mensagem, único publicado por Pessoa em vida, composto durante um período de mais de 20 anos entre 1913 e 1934. Nessa fase, o poeta desenvolveu uma íntima relação com a astrologia, uma das diversas atividades que consagraram seu lado místico.

Inspirado nessa faceta de Pessoa, Eichbauer fechou um espaço com vidro em que dentro figura um pêndulo atrás de uma mesa, representando o Tempo e flutuando próximo de imagens do zodíaco. "O poeta acreditava em todas essas doutrinas e, ao mesmo tempo, duvidada de todas", afirmou o pesquisador americano Richard Zenith, um dos curadores, em uma entrevista publicada pelo Estado em 2006. "E todas, por sua vez, eram formas de Pessoa duvidar da sua opção literária. Da mesma forma que os heterônimos se contrapunham e contradiziam, assim acontecia com as crenças de Pessoa e com suas formas de entender e até de duvidar."

Há também edições de suas obras em diversas línguas, reprodução de manuscritos e de cartas trocadas com amigos e confidentes, além de fotos. "Como a obra do poeta é muito vasta, nossa expectativa é que o visitante saia da exposição com vontade de ler e de descobrir mais detalhes", conta o também curador Carlos Felipe Moisés.

 

 

 

UM PASSEIO PELO SEU LEGADO

Os heterônimos

Ao chegar, o visitante encontra seis cabines, cada uma com poemas do próprio Pessoa e dos heterônimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. A sexta, chamada de Eu Sou Muitos, é dedicada às outras personas do poeta.

Labirinto

Em seguida, o visitante passeia por uma espécie de labirinto poético, que mostra poesias e fotografias de Pessoa. Também conhece um ambiente com vitrines encobrem reproduções aumentadas de manuscritos e documentos datilografados.

Mesa comunitária

No mesmo local, uma grande mesa expõe relíquias como a primeira edição da obra Mensagem, com dedicatória do poeta.

Mar

Também ali, uma cabine traz um pêndulo e, ao lado, dois tanques de areia (foto), que simulam um poema escrito na praia.

Vídeo

Produzido por Carlos Nader e com roteiro de Antônio Cícero, traz pessoas recitando Pessoa.

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