As divas do Fashion Mall

Muitas vezes trabalho no computador ao som de alguma rádio, geralmente o site accujazz. Nos últimos tempos, impressionou-me a quantidade de cantoras lançando um CD após o outro. Por curiosidade, entreguei-me à anotação sistemática de seus nomes. Cheguei a mais de 50 nomes. Já ouviram falar de Antoinette Montague? Greta Matassa? Eleonora Bianchini? Kat Edmonson? Kristin Korb? Queen Esther? Ou do Sara Lazarus-Birelli Lagrene Gypsy Project? Caí de amores por Sara Lazarus, ao ouvi-la cantar Dans Mon Île, com a guitarra de Birelli Lagrene, guitarrista cigano da cepa de Django Reinhardt, que começou a tocar aos 4 anos e continua firme, aos 44. Sara mora na Europa, mas nasceu num 1.º de abril de ano não identificado, na mesma cidade do lendário trompetista Clifford Brown, Wilmington, Delaware. De lá (ware) ela quer distância. Morar em Paris é a sua cara. Seu repertório de standards inclui It"s Alright With Me, The Way You Look Tonight e Polka Dots and Moonbeams, velho favorito de Sinatra, Chet Baker e Lester Young.

Roberto Muggiati, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

É surpreendente como - passadas as ondas do rock, do soul, e do funk - essas cantoras valorizam os standards pré-1960. Polka Dots também está no repertório de Jo Lawry, que nasceu numa fazenda de amêndoas do Sul da Austrália, participou do quarteto de jazz irlandês-brasileiro Nós Novo, já foi vocalista de Sting e mora em Nova York. Vale ouvir sua interpretação do clássico da torch song, I Guess I"ll Hang My Tears Out to Dry. Kat Edmonson, de Austin, Texas, é outra purista. Com sua voz fininha de bebê (já foi comparada a Blossom Dearie), quase só canta standards, e tem um incrível desempenho a capela em Spring Can Really Hang You Up the Most.

Champian Fulton, uma gracinha de 26 anos (lembra a atriz Jenniffer Tilly), nasceu em Oklahoma, seguiu os passos do pai trompetista, Stephen Fulton, e se deu bem como cantora-pianista, Champian é campeã e nada fica a dever a Diana Krall; como ela, também bebe da fonte dos standards, on the rocks.

Essas divas, que despontaram nos anos 00 (sem ironia), não chegam a ser novas Billies, Ellas ou Sarahs - estrelas dessa grandeza custam a aparecer -, mas se esforçam para oferecer um trabalho atraente e diferenciado. (A maioria pode ser apreciada nos clips do YouTube.) Fatien Laika, por exemplo, cheia de bom gosto e de boas intenções, mergulhou de cabeça no repertório de Lady Day. Laika nasceu em 1968 em Paris, de pai da Costa do Marfim e mãe marroquina-espanhola judia. Merece atenção.

Apesar do nome de tintas hebraicas, Queen Esther nasceu em Atlanta, Geórgia, e partiu para Nova York. Em 2004 bancou seu CD de estreia, Talkin" Fishbowl Blues. Um crítico escreveu: "Se Keith demitisse Mick e decidisse deixar Tina Turner liderar a banda com Gram Parsons metralhando na retaguarda, eles soariam assim, um híbrido da música em meio à qual ela cresceu: blues de quintal, guitarra da antiga, gospel santificado e rock rural dos anos 70".

Tem muito molho brasileiro na praça de alimentação do Fashion Mall dessas novas divas. Nascida em Los Angeles, a loura Irene (Nachreiner), com sua Latin Jazz Band, já gravou até um CD de bossa nova, Summer Samba (2007). Deanna Witkowski, nascida em New Hampshire há 39 anos, estudou piano e flauta clássicos, mas acabou elaborando uma fusão Jazz, MPB e gospel (foi diretora musical de uma igreja episcopal durante dois anos). Ensinou piano no Quênia, mergulhou na música cubana e estudou bateria com o brasileiro Vanderlei Pereira. Já circulou pelo eixo Rio-São Paulo e teve a ousadia de gravar uma cover de João Gilberto, Doralice, com um sotaque de colegial americana. (João, que canta standards americanos em baianês, não está nem aí.) A italiana Eleonora Bianchini, fez dueto com Rosa Passos, gravou Ivan Lins, participou de um festival afro-peruano em Tutuma e também canta em espanhol, como no álbum Eleonora Como Un Aguila em lo Alto (2008). Jackie Ryan gravou clássicos hispânicos, como Historia de Un Amor, mas o sotaque é brabo, prefiro qualquer mexicana ou até nossa Núbia Lafaiete.

A juventude não é quesito obrigatório para entrar no clube das divas do Fashion Mall. Aos 62 anos, numa forma invejável, Lorraine Feather, teve dois CDs recentes entre os mais vendidos pelo site Amazon, Language (2008) e Ages (2010). Ela nasceu em Manhattan e ganhou dos pais o nome de Billie Jane Lee Lorraine, por motivos musicais: sua madrinha foi Billie Holiday, sua mãe Jane, cantora de big bands, dividiu apartamento com Peggy Lee, e a canção Sweet Lorraine era uma favorita do seu pai, o famoso crítico de jazz britânico Leonard Feather.

Na outra extremidade da faixa etária, Grace Kelly, que completou 19 anos em 15 de maio, é vocalista, saxofonista, compositora, arranjadora e bandleader. Nascida Grace Chung de pais coreanos em Massachusetts, ela adotou o sobrenome do padrasto, Kelly. Talento precoce, estudou piano clássico, passou para o sax alto e gravou o primeiro CD aos 12 anos. É o músico mais jovem já votado para o prêmio de crítica da revista Down Beat, aos 16 anos. Aos 18, Grace lançou seu sexto álbum, Man With The Hat, com o lendário saxofonista Phil Woods. O título do CD alude ao episódio ocorrido no Festival de Pittsfield, em 2006. Grace, aos 14 anos, fez um solo magistral em I"ll Remember April, ao término do qual Phil tirou seu emblemático boné de couro e o colocou na cabeça da jovem. Uma simbólica passagem de bastão para mostrar que o jazz, nascido há mais de cem anos, ainda tem muita estrada para percorrer.

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