As crônicas e ensaios do romancista José Lins do Rego

Lado menos conhecido do escritor está em seleção feita pelo poeta Lêdo Ivo. E mais: a volta de "On The Road", de Jack Kerouac, os textos kafkanianos do italiano Dino Buzzati, o melhor da poesia de Ferreira Gullar...UMA SELEÇÃO DE CRÔNICAS E ENSAIOS DE JOSÉ LINS DO REGO. POR LÊDO IVO.O paraibano José Lins do Rego é mais conhecido pelos seus romances. Os best-sellers Fogo Morto e Menino de Engenho, principalmente. Mas produziu também muitos outros textos dignos de leitura, como os que o poeta Lêdo Ivo selecionou, a pedido da José Olympio Editora, para o agora lançado O Cravo de Mozart é Eterno (370 páginas, R$ 38,00). Uma antologia de crônicas e ensaios. Vejam o que diz Lêdo Ivo sobre o romancista na apresentação do livro: "José Lins do Rego escrevia diariamente. A sua caligrafia, uma sucessão de garranchos, era a aflição e o terror dos linotipistas; e de tal modo que havia n?O Globo um linotipista especializado em decifrar-lhe os hieróglifos. Nele, a obrigação de escrever era suplantada pelo prazer de escrever. O artigo do jornal, sua primeira manifestação literária, foi também a última.Nos dias finais, num leito de hospital, ele ditava crônicas ou pequenos ensaios, a sua prosa de adeus ? de um adeus que ele, aliás, se recusava a dar com o seu grande e guloso amor pela vida e o medo de morrer que o acompanhava desde a infância".O organizador dividiu o livro em quatro partes: "No Reino da Prosa", impressões de leitura; "Notas de Viagem", relatos de suas andanças pela Europa e Israel; "Criaturas e Paisagens", miscelânea; e "Entre Poetas, Pintores e um Músico", em que incluiu um artigo a respeito da poesia do próprio Lêdo Ivo.UM LIVRO QUE DESMISTIFICA ALGUMAS LENDAS E MITOS DA HISTÓRIA.Um novo best seller do norte-americano Richard Shenkman, jornalista e apresentador de TV ? ganhador do prêmio Emmy de reportagem investigativa ?, chegou recentemente às livrarias. Em As Mais Famosas Lendas, Mitos e Mentiras da História do Mundo, lançado pela Prestigio, estão respostas para perguntas como estas, por exemplo:Você acredita que Nero tocava harpa enquanto Roma queimava?Que o rei Arthur morava num castelo (se é que ele existiu realmente)?Será que os bárbaros eram tão selvagens como são descritos?Num divertido passeio pela Historia do mundo, desde a Guerra de Tróia à Segunda Guerra Mundial, Shenkman apresenta em seu livro (208 páginas, R$ 29,90) personagens e eventos fictícios e reais de forma humorada e documentada, exibindo revelações que provam que boa parte da História é realmente "uma fábula sobre a qual as pessoas concordam".A verdade é relativa, mostra ele. E cada verdade tem a sua própria versão. A versão que algumas vezes aprendemos com a mídia pode ser, segundo o autor, fantasiosa ou mentirosa. Cuidado!Um livro instigante e polêmico. A tradução é de Antonio Carlos Vilela.UM CLÁSSICO DA CHAMADA "GERAÇÃO BEAT" ESTÁ DE VOLTA ÀS LIVRARIASUm livro que nasceu rejeitado: levou mais de dez anos para ser aceito por uma editora. Mas chegou às livrarias, finalmente, no longínquo 1957. Chegou e se tornou, logo, logo, uma das maiores influências sobre a juventude norte-americana. Ajudou também a moldar a contracultura dos anos 60. Pois bem, o On The Road ? Pé na Estrada, de Jack Kerouac, está de volta. Agora, lançado pela editora L & PM, de Porto Alegre. Apesar de ter sofrido várias modificações em relação ao texto original, On The Road (384 páginas, R$ 19,50) conserva o estilo "espontâneo" da narrativa, cheio de coloquialismos que, na época, significavam uma revolução. Nele está o relato da viagem, costa a costa dos Estados Unidos, dos personagens Sal Paradise e Dean Moriarty na lendária Rota 66. Uma jornada de autoconhecimento por meio da exploração das profundezas do país.O autor, nascido em Massachusetts, estudou durante algum tempo em Columbia, onde conheceu, entre outros, o poeta Allen Ginsberg. Os dois tornaram-se os grandes destaques da chamada "geração beat". O próprio Kerouac (1922-1969) batizou-a de beat e pretendia que ficasse conhecida como uma abreviação de beatitude. Mas os beats tornaram-se mais conhecidos pela sua disposição para a aventura.A ESTRÉIA DE UM NOVO ESCRITOR CUBANO. UM BOM ROMANCISTA.O primeiro romance do poeta e ensaista Abílio Estevez, assessor do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. Lançado no Brasil pela Editora Globo, Teu é o Reino é visto pela crítica como o livro de ficção mais importante da literatura latino-americana nos últimos anos. O jornal New York Times, por exemplo, saudou-o assim: "O romance de estréia de Abílio Estevez é uma efusão extremamente ambiciosa da construção mítica do realismo mágico, rico em alusões à arte e à literatura". A história é ambientada em um local parecido com o bairro em que o autor passou sua infância ? uma zona residencial perto de Havana, repleta de árvores, estátuas e histórias alucinantes. Teu é o Reino (408 páginas, R$ 41,00), representa para Abilio Estevez a recriação artística de sua memória: "Cada um de nós está sempre procurando se explicar, dando voltas em torno das mesmas obsessões", diz ele. Segundo o escritor, com uma carreira literária marcada pelo teatro e pelos contos, "dois gêneros muito tirânicos", escrever um romance "era como buscar a liberdade". Em Teu é o Reino, o narrador é capaz de reconstruir o tempo perdido da sua infância, a aventura e os perfis de todos os personagens que conheceu.O ITALIANO DINO BUZZATI, UM DOS DESCENDENTES DO GRANDE KAFKA.Em sua História da Literatura Ocidental, o crítico Otto Maria Carpeaux (1900-1978) considera Dino Buzzati um dos principais kafkanianos da literatura universal. O italiano estreou com o romance O Deserto dos Tártaros, a história de um jovem oficial que passa a vida inteira, frustrado, numa fortaleza de fronteira, esperando o ataque de inimigos que ? revela-se, enfim ? não existem. Uma vida sem sentido, conclui Buzzati. Agora, acaba de ser lançado no Brasil, pela Nova Fronteira, o seu Naquele Exato Momento (312 págs., R$ 42,00), uma reunião de 156 pequenos textos (a maioria provavelmente escrita durante as horas vagas no expediente...), em que o autor explora seus temas preferidos: a solidão, o fantástico que brota da vida banal, a vida que se esvai. Nos mini-contos (quando não havia ainda uma pretensão em transformar isso em gênero), que mostram o exercício de várias técnicas e abordagens, abrindo espaço para o poético e o humor.Embora seja ainda pouco conhecido no Brasil, Buzzati é um dos grandes nomes da literatura italiana. Por causa de sua estrutura, Naquele Exato Momento é uma boa oportunidade para começar a conhecer o escritor.NA AGENDA DE LOUVORES À PAULICÉIA DE 450 ANOS, A HISTÓRIA DE PORTINARI.Um pouco (muito pouco, infelizmente) de um poema de Carlos Drummond de Andrade para saudar a chegada às livrarias de Portinari ? O Pintor do Brasil, da jornalista Marília Balbi, editado pela Boitempo na sua coleção Paulicéia. Um pequeno fragmento de A Mão, publicado no Jornal do Brasil (Rio) uma semana depois da morte, no dia 6 de fevereiro de 1962, de Portinari. O mineiro de Itabira começa com uma rápida viagem pela distante paisagem de Brodósqui, no interior de São Paulo, onde o menino Candinho nasceu e começou a pintar.Entre o cafezal e o sonho o garoto pinta uma estrela dourada na parede da capela, e nada mais resiste à mão pintora. A mão cresce e pinta o que não é para ser pintado mas sofrido.O livro de Marília Balbi (176 páginas, R$ 29,00) mostra que Portinari foi o primeiro pintor a revelar a saga dos trabalhadores brasileiros. Retratou o homem e o seu trabalho na lavoura, no garimpo, imortalizados no lavrador de café, no mestiço, na colona, na mulher na lida pelo Brasil afora. Portinari também colocou em cores e formas vivas, e em primeiro plano, o operário das cidades, o estivador, o sorveteiro, o músico, das festas do interior paulista aos boêmios do Largo do Machado no Rio de Janeiro.A coleção Paulicéia, uma homenagem da Boitempo aos 450 anos de São Paulo, já retratou outros personagens, como o compositor Adoniran Barbosa e o publicitário Carlito Maia, e recantos da cidade como o Brás e a Vila Madalena.EM DESTAQUE, O HUMOR NEGRO. A MORTE É O PERSONAGEM PRINCIPAL.O mineiro Rodrigo M. F. de Andrade (1898-1969), advogado e jornalista, destacou-se principalmente como historiador. Escreveu Brasil: Momentos Históricos e Arqueológicos e Artistas Coloniais. Mas em Velórios, agora reeditado pela Cosac & Naify, mostra que era também um contista de talento. O livro (144 páginas, R$ 29,50) reúne oito contos por meio dos quais o autor expõe, freqüentemente com humor negro, as reações extremamente particulares que homens, mulheres e crianças têm quando defrontados com a morte. Publicado com uma tiragem quase clandestina em 1936 e uma segunda edição modesta em 1974, Velórios era, até agora, uma raridade, apreciada por poucos e bons críticos e intelectuais. A prosa refinada do escritor mineiro mereceu, logo na segunda edição, consistentes elogios de Manuel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, entre outros.Um trecho de um dos contos de Rodrigo M. F. de Andrade, o Quando Minha Avó Morreu (pág. 53): "Minha avó tinha morrido. Era um fato incontestável (...). Considerei que luto por avó deveria ser forçosamente pesado. Não poderia se resumir num lacinho qualquer no braço. Tinha de ser um grande luto, um luto de proporções condignas. E à medida que planejava vestir-me à altura das circunstâncias, uma excitação imensa foi se apoderando de mim".O TEXTO MUITAS VEZES PREMIADO DE DURANT, EM NOVO LIVRO DA EDIOURO.Falemos um pouco do autor, para começar. Will Durant (1885-1981) recebeu o cobiçado Prêmio Pulitzer (1968) e a Medalha da Liberdade (1977). Passou mais de cinqüenta anos escrevendo A História da Civilização, onze volumes elogiados pela crítica (os últimos escritos em parceria com sua esposa, Ariel). Escreveu também Idade da Fé e a coleção Os Grandes Filósofos, Filosofia da Vida, além de diversos artigos para o Diário Californiano. A popularidade de Durant, como professor de História e de Filosofia, não diminuiu com o passar do tempo. Um livro seu acaba de ser incluído pela Ediouro em sua coleção O Livro de Ouro. Um título longo: O Livro de Ouro dos Heróis da História ? Uma breve história da civilização, da antiguidade ao alvorecer da era moderna. Nele (464 páginas, R$ 52,00), o autor analisa as grandes civilizações do mundo, incluindo a China Antiga e a Europa Medieval, os acontecimentos que marcaram a humanidade e os grandes personagens de nossa História. De Buda a Jesus Cristo, de Confucius a Shakespeare, do Império Romano à Reforma, são mais de 2000 anos de História contados de forma simples e emocionante.A tradução é de Laura Alves e Aurélio Barroso Rebello.O MELHOR DA POESIA DE FERREIRA GULLAR. UMA REEDIÇÃO DA GLOBAL.Um livro publicado inicialmente em 1987. Agora, na sua sétima edição, Melhores Poemas de Ferreira Gullar (Global Editora, 296 páginas, R$ 39,00) chega às livrarias com algumas novidades. Uma delas é a presença das produções mais recentes do poeta. A seleção é do professor Alfredo Bosi, que também assina o prefácio. O maranhense de São Luís é considerado um dos maiores nomes da poesia brasileira. O crítico e ensaísta Fausto Cunha, por exemplo, escreveu sobre ele coisas assim: "Ferreira Gullar nos dá conta do caminho percorrido nos últimos anos, os amigos perdidos, as portas que faltam, a diária descoberta do corpo. Permanece fiel a algumas constantes temáticas e desenvolve incessantemente a reflexão sobre a gênese do poema, sobre a vida real, o mundo real. Ele sabe que nenhuma via de acesso à realidade deixa de passar pelo humano (...) Mantém a admirável unidade de toda sua obra, porém sempre se deslocando no sentido de uma pureza maior, até de uma dureza maior".Um dos precursores do concretismo e autor do Manifesto Neoconcreto de 1959, Ferreira Gullar é um poeta de vanguarda que, após implodir a linguagem, quis implodir também a própria idéia de vanguarda em nome do engajamento político.UM LIVRO DE QUASE MIL PÁGINAS. NELE, A HISTÓRIA DE ALGUMAS NAÇÕES.O autor, Philip Bobbitt, é professor de Direito Constitucional na Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Seu livro, A Guerra e a Paz na História Moderna (928 páginas, R$ 149,00), editado pela Campus, é uma investigação sobre a natureza do Estado, sua origem na guerra, sua busca pela paz e legitimidade. A partir de seu estudo sobre o Estado-nação, Bobbitt procura antecipar possíveis futuros sobre as políticas e as guerras do século 21. O autor acredita que o domínio do Estado-nação nos últimos 200 anos está para ser substituído pelo o que ele denomina de Estado-mercado. Um livro que mereceu alguns elogios dignos de destaque. Um deles de William Roger Louis, presidente da American Historical Association. Diz ele: "Um livro soberbo. A Guerra e a Paz na História Moderna percorre os séculos tomando como referência a interseção entre a política e a economia e, acima de tudo, o direito e a estratégia.Trata-se de uma obra histórica, que pode ser lida tanto como uma história da guerra quanto como uma história de paz".O QUE É PORTUGAL? O QUE É A IDENTIDADE PORTUGUESA? RESPOSTAS.Um novo romance do escritor português Helder Macedo. Vícios e Virtudes (224 páginas, R$ 30,00), que chega às livrarias com o selo da Record, conta a história de dois amigos que, depois de um longo tempo, encontram-se em Lisboa. Após conversarem sobre uma enigmática mulher, começam a viver um jogo envolvente e perigoso que revela a própria identidade de Portugal. O romance Vícios e Virtudes pode ser lido como uma reflexão sobre a identidade e, especialmente, a identidade nacional portuguesa, remetida a dois marcos: o reino de Dom Sebastião, cuja morte frustrou o projeto de expansão do império e provocou a perda da nacionalidade lusitana, e a Revolução de Abril. Ou sobre a recusa da identidade, como veremos. De fato, para o principal narrador, que se faz passar pelo autor, a mulher enigmática, Joana, seria uma espécie de reencarnação da mãe de Dom Sebastião, Joana de Áustria.ESTÁ COM MUITAS DÚVIDAS? ALGUMAS LIÇÕES PARA SUA CARREIRA.Um livro cuja proposta é mostrar ao leitor como ele pode antecipar-se e exercer, de fato, o controle direto de seu destino. De sua vida e carreira profissional. Um lançamento da Negócio Editora. Em Assuma a Direção de Sua Carreira ? Os ciclos que definem o seu futuro profissional (156 páginas, R$ 29,00), Jair Moggi e Daniel Burkhard mostram que assumir o controle é o grande ativo de uma carreira. É claro que as circunstâncias e os momentos são variáveis e imponderáveis. Há o imprevisível, a dificuldade. Mas isso é a maior fonte de aprendizado e crescimento. Só que esse crescimento somente será potencializado quando estivermos no comando. Não há como fugir.Um pouco sobre os autores. Jair Moggi, economista e advogado é Mestre em Administração de Empresas pela FEA-USP. Daniel Burkhard tem formação em Educação para Adultos no NPI - Nederlands Pedagogish Institut, na Holanda.

Agencia Estado,

31 de agosto de 2004 | 15h24

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