''As crianças têm de ser felizes''

Omara Portuondo empresta voz à avó que entoa canções de ninar em O Caminho das Gaivotas

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2011 | 00h00

Famosa por suas canções de ninar, que entoava para o filho, "que hoje dá dois de mim", a cantora Omara Portuondo é a escolha perfeita para ninar a plateia de O Caminho das Gaivotas. Ao ouvir a diva cubana entoar "Duérmete, mi niño. Duérmete, mi sol...", não resta dúvida que sua voz vai ninar e despertar milhares de crianças e adultos que assistirem ao filme.

Omara, que empresta sua voz em espanhol e em português ao curta, gravou sua participação nos estúdios do lendário Icaic (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos) há algumas semanas em Havana. "Foi especial. Apaixonei-me pela menina Maria Soledad. Esta menina linda que vive em uma ilha e tenta desesperadamente se fazer notar e se comunicar com os poucos adultos que ali vivem. É triste e lindo."

Aos 80 anos, Omara, que deve vir ao Brasil para o lançamento do filme (um curta de 9 minutos, o primeiro da série Histórias do Coração), em junho, no Festival de Cinema Infantil de Florianópolis, esbanjou disposição ao gravar o áudio do filme, e conversou sobre o projeto:

Você já tem uma relação íntima com o Brasil, país que conheceu em 2005 e para o qual voltou em 2007 para gravar com Maria Bethânia. Como foi receber agora este convite?

Foi especial. Imagine que, quando conversamos em 2007, estávamos, eu e Bethânia, lançando nosso CD juntas. E justamente naquele CD celebrávamos o fato de Brasil e Cuba serem países irmãos em suas raízes negras, em suas culturas populares tão ricas.

E já naquele CD, vocês incluíram duas canções de ninar, Lacho (de Facundo Rivero e Juan Pablo Miranda) e Menino Grande (de Antonio Maria).

Exatamente! Para você ver como a canção de ninar está também tão ligada às culturas dos dois povos. Todos nós, quando cantamos, ninamos a criança que existe em nós. Tenho o privilégio de ninar não só as crianças cubanas e brasileiras, mas do mundo todo.

Como foi contar a história de Maria Soledad?

Lindo e difícil. Ela tem a solidão no nome. Tem coisa mais triste que uma menininha que rodopia feito pião para tentar ser ouvida pelos adultos? Que brinca sozinha? Eu assistia ao filme e dizia: "Ela está sofrendo muito. Não posso narrar isso!".

Mas quando Dios Huracán (o Deus Furacão) chega à ilha e "desperta" todos, a menina renasce. Espera que mais projetos como este façam renascer tradições como cantigas e brincadeiras que hoje perderam espaço para o reggaeton e o videogame?

Espero que haja de tudo um pouco. Não podemos fugir do progresso. Mas é importante proteger a infância.

O filme, que mistura técnicas de aquarela, animação 2D e stop motion, também teve a participação das crianças em sua criação. Isso é incrível. É preciso aproveitar o talento das crianças, porque desde que nascemos temos talento. E isso é importante para todos os países e para a humanidade. No sentido geral, tem-se que apoiar muito mais as crianças. Elas têm de ser felizes. E farei de tudo para que elas sejam felizes.

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