As crianças estão bem

O novo filme de Lisa Cholodenko, The Kids Are All Right, (As Crianças Estão Bem), que estreou no último fim de semana em Nova York, lotou os cinemas de Manhattan. Às dez e meia da manhã já havia fila para a primeira sessão no cinema do meu bairro e o público claramente não era segregado por sexualidade.

Lucia Guimarães, lucia.guimarães@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2010 | 00h00

Em The Kids Are All Right, um casal de lésbicas, Nic e Jules, vivido por Annette Bening e Julianne Moore, cria dois filhos concebidos como esperma do mesmo doador. Nic engravidou de Joni, com 18 anos, e Jules deu a luz a Laser, que, aos 15 anos, começa a se perguntar como seria ter um pai. Ele pede à irmã, que chegou à maioridade, para descobrir no banco de esperma a identidade do pai biológico. O banco precisa de autorização do dono do esperma para revelar sua identidade. Apanhado de surpresa por uma chamada no celular, ele concorda em ser procurado pelo resultado da doação que lhe rendera US$120, há 19 anos.

Ele é Paul (vivido por Mark Ruffalo), dono de um restaurante de comida orgânica, bon vivant e incapaz de censurar seus pensamentos ("Adoro lésbicas!"). Paulo se mostra tão curioso quanto os dois irmãos e despreparado para o assalto de emoções que vai ameaçar seu estilo de vida.

Um novo Tolstoi poderia escrever um romance com uma variação da clássica abertura de Anna Karenina, "todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira." O filme de Lisa Cholodenko é detalhista na rotina do casal e de seus filhos, para mostrar que todas as famílias, independentemente de orientações sexuais, enfrentam muitos obstáculos semelhantes à felicidade.

Num país onde "valores de família" se tornou um slogan político da direita conservadora, The Kids Are All Right retrata uma família contemporânea com mais sensibilidade pró-família do que qualquer coluna do jornalista David Brooks. E, ao contrário do conservador light Brooks, os roteiristas Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg têm um ouvido perfeito para a comédia.

A emergência de tramas sobre a vida privada de homossexuais na narrativa mainstream de Hollywood ainda não havia produzido, que eu me lembre, uma representação tão articulada e terna de um casal de mulheres. O personagem Paul confirma um fato não mencionado mas que noto ser comum na vida social de famílias de lésbicas. A presença de um heterossexual atraente e solteiro pode ser vista como uma ameaça à estabilidade. E Paul faz a sua parte para perturbar o equilíbrio doméstico.

O filme é rico no tipo de linguagem que parece ter sido inventada para um sketch de comédia do Saturday Night Live mas, de fato, é usada com seriedade por gente como Nic e Jules ? educadas em Berkeley e vivendo no conforto suburbano do sul da Califórnia. É uma mistura de jargões terapêuticos e clichês politicamente corretos que traduzem a infantilização da vida insular e afluente.

Mas a diretora Lisa Cholodenko não quer atrair riso barato à custa da humanidade de suas personagens. Cholodenko é lésbica e, como suas protagonistas, decidiu ter uma criança com sua parceira através de um doador de esperma. Embora tenha escrito o roteiro antes da experiência da maternidade, ela diz que anos de espera pelo financiamento do filme independente acabaram servindo como uma longa gestação da sua própria compreensão do que é uma família. The Kids Are All Right não é um filme sobre homossexuais e sim um filme sobre a evolução de um núcleo familiar.

Desde o sucesso do filme no festival de Sundance, em janeiro, comentaristas e blogueiros, especialmente os que não assistiram ao filme, atacaram a escolha de duas atrizes héteros e até a inclusão do adultério com um homem na trama. A estupidez das críticas é notável. Annette Bening, no papel da ginecologista cerebral que tenta controlar todos os aspectos da vida familiar, e Julianne Moore, a paisagista avoada e meio New Age, já são donas inevitáveis de duas indicações para o Oscar de 2011. A hilariante cena de sexo entre as duas vai ser reconhecida por casais de qualquer persuasão ? com filhos em casa e anos de bagagem acumulada.

Mia Wasikowska (a Alice de Tim Burton) é o melhor presente que a Austrália deu ao mundo do cinema desde a indomável Judy Davis. Como a adolescente no limiar da iniciação sexual e de partida para o campus universitário, ela se rebela contra as mães com a tirada: "Eu fiz tudo certo, só tirei nota 10, para ser a representante perfeita da família homo. Estou cheia de vocês!"

Numa cultura onde a patrulha do discurso engessa a cultura popular, The Kids Are All Right não agoniza sobre a validade do casamento gay. O filme parte do fato consumado de que há uma geração de filhos que são produto destes casamentos. E se debruça sobre cada nuance do arranjo caótico e imperfeito que é a convivência sob o mesmo teto, complicada pela reinvenção dos laços de família.

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