As conchabranças de um jovem dramaturgo

RIO "Você é aquela atriz daquela peça em que o pessoal se diverte?" A atriz é Débora Lamm, a peça é As Conchambranças de Quaderna, de Ariano Suassuna. A pergunta inusitada ela ouviu numa das muitas paragens do espetáculo, que desde 2010 viajou do Cariri ao Sul. A montagem já rendeu prêmios e indicações (Shell, Qualidade Brasil, de produtores) aos atores e à diretora, Inez Viana, além de muita diversão, uma grande amizade e a vontade de permanecer juntos.

ROBERTA PENNAFORT /, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2012 | 03h08

Eles estão de volta, na recém-criada companhia Omondé ("a confusão", no vocabulário da peça). A nova empreitada é Os Mamutes, que estreia hoje na arena do Espaço Sesc, palco de experimentações de Copacabana. Do autor clássico nordestino de 84 anos, membro da Academia Brasileira de Letras, passaram ao carioca Jô Bilac, de 26 anos, foco de atenção de público e crítica desde os 19, e dono de um Shell de autor, por Savana Glacial.

Isadora (Débora) é uma menina de 9 anos, de risada de vilã de desenho animado e apelido autodeclarado "Faca no Peito", que assusta e intriga por ser tão precoce quanto perversa. Ela escreve em seu caderninho uma história que tem como figura central Leon (Diogo Camargos), um rapaz ingênuo que é impelido a se corromper para sobreviver. À procura de emprego, acaba numa grande rede de lanchonetes, a Mamute's Food, cuja garota propaganda é uma apresentadora de programa infantil que não suporta crianças (Cristina Flores).

Seria um Mc Donald's, mas o seu hambúrguer é de carne humana. E para trabalhar lá é preciso abater presas a serem transformadas em sanduíche. Logo no início da peça, Isadora cita a morte de 123 pessoas numa "verdadeira chacina banhada em pipoca doce" - que lembra o caso de Mateus Costa Meira, o atirador do cinema do Morumbi Shopping. A diferença é que na peça, os mortos, chamados de mamutes, são pessoas "das quais ninguém sente falta", gente desonesta, má.

Os Mamutes foi o primeiro texto de Jô, escrito aos 18 anos, e contém o "encanto com a despretensão irreverente de um olhar adolescente", conforme sua análise retrospectiva. Distingue-se do que viria (Limpe Todo o Sangue Antes Que Manche o Carpete,Cachorro, Rebu) a começar pelo grande número de personagens (são 11 atores em cena).

"Venho escrevendo textos com pouquíssimos personagens, sempre enredados em um questão familiar e amorosa. Os Mamutes reflete uma fase inicial da minha escrita, mais política ao que tange esse desejo de gritar com o mundo. Hoje sou mais malandro", diz Jô.

Alice Através do Espelho, o clássico de Lewis Carroll, é citado à medida que aparecem personagens os mais fantasiosos e os questionamentos filosóficos de Leon. "Em 2009, Jô me convidou para fazer um peça dele que acabou não saindo. Em 2010, vendo as Conchambranças, ele falou desse texto. Fiquei louca: fala de consumo exacerbado, da nossa repetição de padrões. Tenho a impressão de que ele não a escreveria hoje", arrisca Inez, que começou os ensaios há três meses, entre palcos tão distintos quanto o de Na Selva das Cidades, de Brecht, dirigida por Aderbal Freire-Filho, e o de Amor Confesso, baseado em Arthur Azevedo, em que ela dirigiu Alexandre Dantas e Claudia Ventura (outra da trupe das Conchambranças, que quer dizer "conchavos").

A temática não é alegre como a de Suassuna, o riso da plateia não vem tão fácil. Débora é que continua se divertindo. "Hoje é muito raro textos para muitos atores. A gente se conheceu no dia 8 de setembro de 2009 e desde a primeira leitura tem tanto afeto... É um grupo muito heterogêneo, de todo o Brasil, de muitas idades, e isso deu a liga."

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