André Fontes/Divulgação
André Fontes/Divulgação

As cariocas

Peças do Rio são a maioria no Festival de Curitiba, que começa hoje, e comprovam o renascimento da cena teatral da cidade

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

Aparentemente, a fórmula é a mesma. Seguindo a toada dos anos anteriores, o Festival de Curitiba abre hoje sua 20.ª edição reafirmando o propósito de ser uma "vitrine do teatro brasileiro". Relaciona importantes representantes de companhias estáveis - caso do grupo Galpão e da Companhia Clowns de Shakespeare. Traz comédias. Uma boa dose de musicais. E também não esqueceu de contemplar uma fatia mais alternativa da produção.

O que mudou, então? Os papéis que Rio e São Paulo, os dois maiores centros de produção teatral do País, costumam desempenhar nesse cenário.

Saudados pelo caráter experimental de sua cena, os paulistas ocupam um lugar muito mais "comportado" na grade deste ano. Respondem pelas montagens de caráter mais comercial e pela cota anual de atores globais.

Já os dramas menos apegados às convenções - que costumavam ser vistos como marca do nosso teatro - aparecem, desta vez, na conta dos cariocas.

Também numericamente a representação do Rio leva vantagem. Ainda que o diretor do Festival Leandro Knopfholz não localize um caráter geográfico na seleção, dos 31 espetáculos que compõem a mostra oficial, 18 são de lá. "Temos, de fato, mais passagens emitidas para o Rio de Janeiro. Mas não acho que exista um foco no Rio", ele diz.   Talvez a intenção não fosse mesmo privilegiar a produção de um Estado ou de outro. Mas o mote que a curadoria usou para embasar suas escolhas pode oferecer uma boa pista para entender o fenômeno. "Tentamos capturar o que está acontecendo de novo. E essa questão da dramaturgia nacional está cada vez mais forte", comenta Knopfholz.

Aparecem contemplados no evento nomes de jovens autores como Daniela Pereira de Carvalho, que traz As Próximas Horas Serão Definitivas, e Pedro Brício, responsável por dois selecionados Me Salve, Musical e Comédia Russa. Além deles, merece destaque Jô Bilac, que recebeu recentemente o Prêmio Shell por Savana Glacial. Coincidência ou não, são todos cariocas.

Os anos 1990 e 2000 ficaram marcados pela emergência e fortalecimento dos grupos. Um movimento em que São Paulo assumiu nítido protagonismo. Agora, porém, parece ser a dramaturgia que impulsiona a renovação da cena nacional. E aí, talvez, a coroa mude de cabeça.

"Se o teatro paulista tem essa questão do coletivo como força motriz, o Rio é movido pela ideia do indivíduo autoral, norteado por princípios pessoais fortíssimos", comenta a crítica Tânia Brandão, uma das curadoras de Curitiba. "Assistimos no Rio a uma virada criativa. Existe uma pulsação muito forte."

Para Celso Curi, outro curador do evento, a capital fluminense vive um momento de retomada. Seu teatro alcançou um patamar parecido com o de São Paulo. Mas surpreende mais. "Nosso experimental ficou mais endurecido, compactado. Para bem e para o mal, o carioca é mais relaxado. Há no Rio hoje um frescor, uma experimentação mais descompromissada".

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