Filipe Araujo/AE
Filipe Araujo/AE

As canções que Ney gravou

Luhli canta suas composições que fizeram sucesso na voz do cantor, como 'O Vira' e 'Bandolero'

Lauro Lisboa Garcia,

23 de março de 2011 | 08h00

Luhli é uma artista de múltiplos talentos e uma cativante contadora de histórias. A mais longa e intensa delas tem relação com Ney Matogrosso, amigo de cinco décadas e seu intérprete mais assíduo. No show Ney e Eu, que faz hoje no Sesc Vila Mariana, entre todas as canções de sua autoria gravadas pelo cantor, ela lembra de vários episódios dessa amizade movida a "um encantamento profundo por bicho e por planta" em comum.

 

Foi ela quem incentivou Ney a cantar e o apresentou a João Ricardo, quando o compositor precisava de um vocalista para os Secos & Molhados. Sobre sua madrinha musical Ney fala num vídeo que abre o show. Dois dos maiores sucessos do grupo são dela, O Vira e Fala, parcerias com João, com quem também compôs, Toada & Rock & Mambo & Tango & Etc., que fecha o segundo e último LP do trio.

 

Em carreira solo, Ney gravou o blues Aqui e Agora ("uma declaração de amor") e A Chance de Aladim (sobre "o poder da gratidão e da amizade"), só dela. Das diversas parcerias com Lucina, tem a caliente Bandolero e a densa De Marte ("canções que o mar me deu"), Êta, Nóis! ("o amor que acabou"), Me Rói, Coração Aprisionado (em que ela fala do "arauto da liberdade" no show), Napoleão ("brincadeira sobre o poder militar, que fiz com raiva na época da ditadura"), Pedra de Rio e Bugre.

 

No show, Luhli recebe outro cantor de personalidade marcante, Rubi, para um duo na comovente Êta, Nóis! Eles devem também cantar Sangue Latino (João Ricardo/Paulinho Mendonça) no bis. "Essa não é minha, mas adoraria que fosse", brinca Luhli, que também incluiu no roteiro a inédita Regando o Mar, que Ney não gravou, mas ela gostaria que ele cantasse e costurou o roteiro situando essas canções na história.

 

Imagens de Ney no Pantanal, feitas por Luiz Fernando Borges da Fonseca, fotógrafo que o acompanhou durante 20 anos, formam um "cenário vivo" em determinadas canções do show. Algumas fotos de Fonseca, com quem Luhli foi casada até a morte dele aos 48 anos, Ney autografou e autorizou Luhli a vender. Ela vem fazendo esse show sozinha há dois anos. Aqui, além de se acompanhar ao violão, chamou dois músicos de sua banda do tempo em que morou em São Paulo para tocar juntos, Ney Marques (bandolim, guitarra e violão) e Décio Gioielli (kalimba, marimba, percussão e instrumentos exóticos), amigos desde os anos 1980.

 

A carreira de Luhli foi diversas vezes interrompida por questões de ordem familiar. Depois do frustrante resultado de seu primeiro álbum, Luli (1965), com repertório e arranjos impostos pela Philips, ela ficou tão traumatizada que parou de cantar por sete anos. Só se recuperou na dupla com Lucina no início da década de 1970.

 

Vida nova. Com o fim da dupla e a morte da mãe, há três anos ela trocou definitivamente o Rio por Lumiar, na região serrana, a voltar a "ser alguém". Ali, "viciadona em ar puro e água de nascente", essa única amiga de Ney Matogrosso "sobrevivente" de uma geração vem fazendo oficinas e shows, confecciona tambores, realiza trabalhos sociais com a comunidade, dirige um coral de mulheres. Tem um ateliê, Viva Raiz, trabalha com cristais, continua a tocar tambor na umbanda, como há 30 anos, dá aulas de percussão e viola caipira, promove "luaulas" (rodas de percussão com fogueira), faz presentes musicais e pratica seu lado mágico, lendo tarô, herdado da família cigana do pai.

 

"Isso cria uma certa necessidade energética e me fez querer não mais passar por certas situações. Sou símbolo alternativo, sem gravadora, coroa, sem dinheiro e sem produtor. No Rio de Janeiro eu iria ficar no retiro dos artistas folheando álbum de retratos que só iria interessar para mim mesma.

 

Num lugar pequeno, com um tempo de carência (igual plano de saúde), criei um ateliê na beira da estrada, já estou conhecida, meu nome já está virando ícone na região. No máximo em 5 anos vou estar articulando cultura lá. Essa força que eu pegar posso despejar de volta no Rio."

 

 

 

 

DEPOIMENTO: Luhli

"Escrever é o que faço melhor"

COMPOSITORA, CANTORA, ESCRITORA, POETA, ARTISTA GRÁFICA E ARTESÃ

 

"Musicalmente tenho consciência da minha limitação. Não sou instrumentista, não me arrisco a fazer solo de violão, os anos hippies estragaram a minha voz. Mas tendo consciência dos limites, a gente é boa no que faz. Onde tenho total controle é na palavra. Li muito na vida, tenho facilidade de lidar com o português. O que faço melhor é escrever. Tenho vários livros na graveta - romance, poesia, contos. Faço letras para músicas difíceis, exploro gêneros musicais que estão meio abandonados. Cavo em vários veios. Tenho mais de 30 parceiros atuantes no Brasil no momento."

 

 

 

PRESENTES MUSICAIS DA ‘MULTILULI’

Criadora do Mpbnet, Carô Murgel prepara o website bilíngue para abrigar 49 das canções inéditas de Luhli, 7 de cada estilo (blues, bossa, samba, canção, choro, pop e raiz). Vai disponibilizar trechos e quem gostar pode baixar a música inteira mediante pagamento "baratinho". Todo mês vai ter uma de brinde e a cada 10 downloads o internauta ganha a capa para fazer um CD. Ela também faz canções exclusivas para quem quiser presentear pessoas especiais. Já tem mais de 80, baseadas em histórias incríveis. Não por acaso, seu e-mail é multiluli@hotmail.com.

 

LUHLI

Sesc Vila Mariana - Auditório. Rua Pelotas, 141, telefone 5080-3000. Hoje, 20h30. 

Ingressos de R$ 3 a R$ 12

 

 

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