As canções que mudaram minha vida

O que faz uma grande canção? Não é apenas a melodia agradável ou com batida empolgante, nem apenas a letra eficiente ou com versos sacados; não é nem mesmo a conjunção de uma com a outra; é a conjunção de tudo isso com o momento em que é feita, de tal modo que capta ou revela um potencial da sensibilidade, como uma polaroid de um período que pode sobreviver a ele. Letra não é poema e pode cativar com a simples musicalização de uma frase banal ("Eu sei que vou te amar por toda a minha vida"), pois as sílabas também fazem parte da sonoridade; e a música pouco é sem a letra, sem a possibilidade de que as palavras sejam repetidas pela audiência. E mesmo assim uma grande canção pode não ser um hit espontâneo, imediato, e levar algum tempo para ser uma tradução de seu tempo. A maioria dos hits, por sinal, morre; as grandes canções continuam vivas depois que saíram das paradas.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

A Canção Que Mudou Minha Vida é o nome de um programa de TV francês, citado por Alain Resnais em Medos Privados em Lugares Públicos (título inacreditável para o original Coeurs, "corações"), em que um convidado escolhia uma canção que o marcou e tentava explicar o porquê (ou melhor, o como). Talvez soe forte demais dizer que uma canção mudou uma vida, mas, por isso mesmo, podemos dizer que algumas canções mudaram nossa vida. Afinal, há momentos, pessoas e lugares que não conseguimos lembrar a contento se não lembramos também a canção associada a cada um - e não por acaso todo amor tem uma trilha e este tema tem sido cada vez mais presente no cinema, em Resnais ou em autores bem menores, como o do filme (água-com-açúcar disfarçada) 500 Dias com Ela.

Há quem diga que "a canção acabou", como Luiz Tatit ironiza em seu novo CD, mas o que está acontecendo é o contrário. Com mp3 e iPod, as canções de todas as épocas têm circulado e sido escutadas como nunca. Há um risco aí, que é a perda de espaço do CD, do álbum que une conceitualmente um grupo de canções (como as canções praieiras de Dorival Caymmi ou as canções de fossa de Frank Sinatra, para não falar de ópera rock como Tommy, do The Who, e Pink Floyd the Wall, admirada até por Jorge Luis Borges), mas a unidade canção não poderia estar mais em voga. Uma prova disso é a lista da revista GQ que me caiu recentemente em mãos, "50 canções que você deveria ouvir agora", o que até alguns anos atrás seria uma lista de CDs.

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Que CD extraordinário é o novo de Peter Gabriel, Scratch My Back! Ele "coça as costas" de 12 compositores que admira, interpretando as canções com um arranjo extremamente sofisticado, com andamento lento e uma orquestração inspirada em pós-minimalistas como Arvo Pärt e Steve Reich, e ao mesmo tempo com um apelo emocional muito direto. Gabriel sempre foi melhor de show do que de obra (como Prince, tem mais talento musical do que suas canções dão a entender), mas aqui fez um disco que "acontece", que invade a sala de sua casa. Mistura clássicos do pop como Heroes, de David Bowie, The Boy in the Bubble, de Paul Simon, e The Power of the Heart, de Lou Reed, além de Talking Heads e Neil Young, com joias recentes como Street Spirit, do Radiohead, My Body Is a Cage, do Arcade Fire, e a excelente Flume, de Bon Iver, de longe a melhor das listadas pela GQ. A canção está longe de morrer. Se a vida é feita de momentos, nada melhor para ilustrar isso.

Stacey Kent decidiu homenagear a canção francesa em seu novo CD, Raconte-moi, mas a primeira faixa é - em francês - Águas de Março, de Tom Jobim, que ela diz ser "a melhor canção do planeta". Ela conta que escutou diversas gravações, como as de Elis Regina e João Gilberto, e não dá para não afirmar que a sua está abaixo. Mas tem afinação e swing e o CD traz outras interpretações bem boas, muitas de compositores jovens, como Le Mal de Vivre, de Barbara, que tem o segredo das grandes canções, que era também, obviamente, o segredo das canções de Tom: ao chorar o desencontro amoroso, ela celebra a vida. Talvez seja por isso que a maioria das melhores canções são tristes no fundo. E mesmo quando alegres ou aceleradas na forma, como em Jorge Ben ou nos Beatles, basta prestar atenção à letra para ver que pedem para a chuva parar e o sol chegar.

Greil Marcus mostra isso como poucos no livro Like a Rolling Stone, inteiramente dedicado a contar como, onde, quando e por que Bob Dylan compôs essa canção. Gosto muito de Hurricane, que também tem essa qualidade narrativa - o videoclipe já existia antes de ser inventado - que as grandes canções têm, mas não há como negar a importância da escolhida por Marcus. Ele mostra o contexto histórico e político (o que faltou no documentário que comentei semana passada, Uma Noite em 67, sobre o festival da Record, mas o objetivo não era esse), a "encruzilhada" de Dylan entre o folk e o rock e entre a fama e a originalidade; e acima de tudo descreve o que é a canção, sua dinâmica variada, sua força emocional, suas sombras intencionais - um som tão rico que ela "nunca é tocada duas vezes da mesma maneira". Boa.

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Nem sempre as melhores canções são as que mudaram nossa vida e vice-versa. Quando escuto Pai, de Fábio Jr (confesso), ou Sentado à Beira do Caminho, de Roberto Carlos, me lembro da infância. Ou Nelson Gonçalves cantando numa novela "Caboooocla, seu olhar" (que mais tarde ouvi na versão superior de Orlando Silva). Mas muitas vezes as melhores são também as que mudaram. Quando escutei Retrato em Branco e Preto pela primeira vez, com João Gilberto, e também com ele Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antonio Maria, descobri um mundo à parte, de uma riqueza melódica e harmônica, que casou bem com a fase de amadurecimento que vivia - assim como o cancioneiro americano de Gershwin, Porter e Berlin. Como separar Joana Francesa, de Chico Buarque, do namoro que ela embalava - com sensualidade digna de um Marvin Gaye? Se eu fosse ao programa francês, certamente citaria Chet Baker cantando "I fall in love too easily/ I fall in love too fast" (Sammy Cahn), com uma doçura melancólica que não sai da memória. E o que é descobrir os citados Beatles, Dylan e Pink Floyd quando se é adolescente e se quer expressar o desajuste em verbos e atitudes?

Canções envolvem atitudes desde que os trovadores as usavam para cantar as mulheres com intenções profanas sob a elegância provençal. Ou, como dizia o valsista, o bom da vida são "vinhos, mulheres e canções". Há incontáveis atitudes, e não apenas a rebelde, e as canções importam mesmo quando - ou especialmente quando - não têm essa pretensão toda. Há grandes cancionistas vivos, com os mais diversos recados existenciais, e lamento muito que a tirania da música-pulsação tire espaço de coisas menos gritantes. Peter Gabriel homenageia alguns em seu CD, no qual senti falta apenas de Leonard Cohen, e temos ainda Tom Waits - muito refinado a partir de uma base quase rústica, tirada de circos e cabarés - e Elvis Costello, gravado até por Ute Lemper e Anne Sofie von Otter. E dois dos maiores hits da primeira década do século 21, You Know I"m no Good, de Amy Winehouse, e Crazy, de Gnarls Barkley, são duas grandes canções.

Mas chega. Meu catálogo poderia encher páginas, mas acho que a esta altura o leitor já está ligando o som.

Por que não me ufano (1). Sempre que critico PT e PSDB, leio queixas de que estou tentando manter equidistância. Bem, é isso mesmo. Acho que os governos FHC e Lula foram equivalentes em muitos aspectos. Um derrubou inflação e fez privatização, contra a opinião do outro, que veio e aprimorou as políticas econômica e social. Ambos foram também equivalentes nos numerosos defeitos, como a redenção à oligarquia, à corrupção e ao comodismo, incapazes de reformas sérias. E este é o problema. Precisamos ser muito mais exigentes e parar de festejar a melhora inercial.

Por que não me ufano (2). Foram mais de 200 mortes causadas pelas chuvas e deslizamentos no Rio e Niterói. Depois da tragédia sempre há candidatos a heróis (alguns de verdade, como bombeiros) e as providências são tomadas... Ou melhor, verbas são prometidas à custa de mais impostos. Alega-se que nunca choveu tanto e que os estragos são produto de décadas de descaso público. Mas ele existe, não tem sido combatido - ou então tem sido encoberto por discursos sobre o presente divino que é a beleza da cidade - e duvidamos que venha a ser de modo eficaz.

Por que ninguém mais fala, por exemplo, nas ocupações ilegais na região de Angra, onde o fim de ano pareceu o fim do mundo? Ou vão dizer que desde então tudo tem sido documentado, regularizado e prevenido? Não me venham também com bairrismo: todas as grandes cidades brasileiras têm problemas sérios em periferias e mananciais, com pequena área permeável, falta de esgoto e coleta de lixo, habitação precária, etc. No Rio, por sua topografia, esses cuidados deveriam ser ainda mais urgentes. Mas só o são depois que a falência urbana levou mais dezenas de vidas.

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