"As Aves" de Aristófanes é relançada em livro

Isso é o que se pode chamar de atualidade. Evélpido vira-se para a platéia e diz: "Somos cidadãos de Atenas, nascidos de famílias ilustres. Não fomos expulsos, resolvemos sair da cidade por vontade própria. Querem saber por quê? Não é por Atenas, tão boa pra se viver! O problema é a corrupção de seus habitantes. Os atenienses vivem empoleirados em processos judiciais. E os burocratas e os delatores profissionais? E os cidadãos que ganham três óbolos por dia para participarem das assembléias? Por isso, estamos indo embora."Aristófanes (455 a.C.-375 a.C.) é o autor da comédia As Aves, encenada pela primeira vez em 411 a.C., que tem nova tradução para o português lançada nesta quarta-feira em São Paulo. É a segunda versão brasileira em cinco anos: em 1996, a Jorge Zahar publicou a peça, uma das 11 de Aristófanes que restaram integrais até nossos dias, junto com As Vespas e As Rãs, em tradução de Mário da Gama Kury; agora, a Editora 34 mostra o resultado de uma "dobradinha": a tradução é do professor de literatura grega da USP Antonio Medina Rodrigues, adaptada pela historiadora e escritora de livros infantis Anna Flora. O resultado não é exatamente o de um livro infanto-juvenil. Há uma introdução bastante didática sobre a política, a vida cotidiana e o teatro grego na época de Aristófanes, mas o texto da peça, em si, não parece ter nicho: publicado integralmente, é claro o suficiente para ser lido por jovens e elaborado numa medida que não incomoda os adultos."Aristófanes é, num certo sentido, um autor juvenil", argumenta Medina. E a fábula é uma linguagem infantil." Medina e Flora combinam um respeito pelo sentido geral da história com o uso de gírias atuais. Assim, para eles, é possível recuperar alusões feitas por Aristófanes, que satirizava comportamentos de sua época.As Aves conta a história de dois homens - Evélpido e Pistétero - que se cansam da conturbarda vida política grega, num período posterior à Guerra do Peloponeso (431 a.C.). "O Estado, cada vez mais, impunha aos cidadãos a noção de que o progresso de Atenas dependia do seu domínio sobre outros territórios. O equívoco fez com que o carreirismo e a corrupção se tornassem rotineiros", segundo Anna, autora da introdução.O dois decidem, então, fundar uma nova cidade, com ajuda das aves. Convencem a poupa, que já fora o rei Tereu antes de virar pássaro, a ajudá-los a convencer outras aves. Também eles, após alguma resistência das aves, ganham asas, e, juntos com elas, constróem a Cidade das Aves (Cucolândia-nas-Nuvens, na tradução de Kury), de onde poderiam governar ao mesmo tempo os homens e ou deuses, controlando o suprimento de alimento de uns e dos outros.Fantasia - O projeto dá certo, mas começa a causar problemas, porque os homens passam a querer viver como as aves. No final, num acordo selado com representantes do Olimpo, Pistétero casa-se com Realeza, filha de Zeus, para com os deuses governar os homens."A peça mostra o elemento demagógico e popular em Atenas", diz Medina, para quem a Cidade das Aves acaba se transformando numa ditadura. "Ela mostra que a malícia política está em manipular as energias da inocência." Medina diz desconhecer montagens de As Aves no País, mas imagina um elenco ideal: concepção musical de José Miguel Wisnik, José Celso Martinez Corrêa no papel de poupa, Juca de Oliveira no de Pistétero, Ney Latorraca no de Evélpido - e Elba Ramalho no de rouxinol.Em novembro, Anna e Medina publicam, na mesma coleção, Lisístrata ou A Greve de Sexo, a comédia de Aristófanes mais conhecida. No ano que vem, lançam Um Deus Chamado Dinheiro. Segundo Anna, o projeto previa publicação de três comédias e três tragédias , mas talvez isso mude - e sejam publicados mais textos de Aristófanes.Na visão de Medina, o teatro brasileiro privilegiou sempre a tragédia grega, em detrimento da comédia. "Nos criamos dentro da sisudez, que é o braço armado da mediocridade", diz. Agora é esperar quem faça Aristófanes sair do papel e subir ao palco - para fazer rir e pensar a política.As Aves, de Aristófanes. Versão de Antonio Medina Rodrigues e Anna Flora. Ed. 34, R$ 17, 176 págs. Lançamento na quarta-feira às 18h30, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915, tel. 3814-5811).

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