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As areias da ampulheta: atrasados e pontuais

Octogenário, o relógio lembra que cada badalada nos fere, e a última será fatal

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2016 | 02h00

Ao casar com minha avó materna, meu avô comprou um relógio de parede na casa Masson, em Porto Alegre. Sendo um luterano alemão, o velho Ervin Schlusen deveria imaginar que um bom casamento demandava um controle do tempo muito preciso. Por décadas, o relógio deu badaladas no lar da infância da minha mãe. Hoje, ele funciona na parede do meu escritório. Octogenário, seu mecanismo continua firme lembrando que cada badalada nos fere, e a última será fatal.

O relógio no meu escritório está impávido atrás de mim e, na minha frente, na tela do computador, vejo vídeos de alunos atrasados do Enem. Fico sempre estarrecido. Como alguém que tem um compromisso decisivo na sua biografia pode se atrasar? Sim, ônibus quebram, trânsito engarrafa, chuvas acontecem. Por isso (penso com o mesmo sangue que irrigou a alma do meu avô): por que não sair de casa com muitas horas de antecedência?

Todos os anos, o fenômeno se repete e as cenas povoam a rede. Contradição enorme: desespero lancinante diante do portão fechado, choro, histeria até. Em oposição, antes disso, tranquilidade absoluta na estratégia de chegar até o local. Fica aqui o paradoxo: se foi calmo para sair de casa, se foi tranquilo e lento para gerir o horário, por que a calma não permanece? Por que o desespero bate agora e não antes?

Minha indagação pode ser questionada. Primeiro elemento a considerar: sou obsessivo com horários. Minha ansiedade faz com que eu chegue com antecedência a todos os locais. Sempre fui o primeiro em restaurantes, cinemas, salas de aula e aeroportos. Segundo ponto: faço um recorte da vida a partir da racionalidade, ou seja, da capacidade estratégica de gerir perdas e ganhos e decidir a partir da razão. Penso e falo que somos senhores do nosso destino e que escolhemos como desejamos nos esculpir. Seria isso válido para todos?

Há mais de 30 anos eu dava aula numa escola de ensino médio que facultava aos alunos a chance de escolher se queriam ou não ficar na aula. Havia a chamada, mas o aluno poderia retirar-se antes da minha aula. Alguns, inebriados com a liberdade que não gozavam em outros estabelecimentos, saíam de forma ostensiva e felizes. Levavam a falta e ficavam jogando truco no pátio. Com o passar do tempo, eles acumulavam um número perigoso de faltas. No Brasil, 75% é o patamar mínimo legal de presença. Eu passava por eles e lembrava: faltam 4 faltas para você ser reprovado. Quase todos respondiam com irritação: eu sei! As quatro diminuíam para três e estas chegavam a duas. Por fim, tínhamos o seguinte drama: se perder mais uma aula ficaria reprovado. Claro: o desastre era a crônica de uma morte anunciada. O aluno perdia uma aula e acabava perdendo o ano. Quando ele era informado do resultado, chorava, esmurrava as portas, gritava, insultava a escola e os professores. Estava indignado! Volto ao choro na porta do Enem: por que aquela reação agora se antes demonstrou uma calma de monge no Himalaia? Por que não houve a junção de causa e efeito? Por que ele parecia dividido entre dois seres: o tranquilo de outrora e o desesperado de agora?

Essa reflexão sempre trai o orgulho dolorido da formiga diante da cigarra. O pontual tem o secreto prazer diante do desespero do atrasado. O desvio confirma que minha abnegação é recompensada. Se eu trabalhei o verão todo, nada mais gostoso do que contemplar o desespero da cigarra folgada no rigor do inverno. Aliás: só existe prazer na ordem se houve o regozijo pela desordem.

Recém-chegado a São Paulo, tive de justificar o voto na primeira eleição. Informei-me do horário do correio na véspera (era o local da justificativa) e obtive o formulário, preenchido, zelosamente, na noite anterior. Meia hora antes de as portas serem abertas, eu estava lá. Surpresa: havia uma fila gigantesca! Todos que justificavam queriam fazê-lo cedo para terem o dia livre. Esperei muito para chegar a minha vez e, finalmente, cumpri o elevado dever cívico. No fim da tarde do dia de eleição, meu amigo Sergio, notório procrastinador, visitou-me. Como eu, era um gaúcho que se mudara há pouco. Perguntei-lhe onde ele justificara e ele, espantado, perguntou-me: “Tem de justificar?”. Meu susto foi enorme. Saímos correndo até o mesmo correio onde eu consumira parte da minha manhã. Faltavam minutos para encerrar o horário. Não havia mais ninguém. Ele obteve lá o formulário, preencheu-o e saímos com rapidez incrível. Eu era o ser estratégico, meu amigo o caos tornado mamífero. Fui tomado de grande raiva. Não parecia justo! Eu gostava do meu amigo, mas uma parte minha desejava que ele não conseguisse justificar e fosse chicoteado em praça pública e torturado com tenazes ardentes. Só assim, minha alma de inquisidor pontual ficaria feliz. Não ocorreu: ele foi premiado e eu, punido.

Fora aquelas questões excepcionais que podem ocorrer uma vez na vida, por que alguém, regularmente, chega atrasado? Programação neurolinguística? Indiferença ao outro? Tempo biológico em atrito com o tempo do relógio? Incapacidade de incorporar valores? Protesto contra o mundo? Tenho várias considerações ainda sobre a concepção tupiniquim de horário, mas isso já precisa de outro texto. Um bom domingo a todos vocês.

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