As alegrias mínimas de criaturas frágeis

'Dançando em Lúnassa' traz elenco impecável em delicada harmonia

JEFFERSON DEL RIOS, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h21

Dançando em Lúnassa, pela Cia. Ludens, traz à lembrança uma jovem de 21 anos, Bernadette Devlin, que nos anos 60 fez o mundo notar a Irlanda. Havia a luta contra o domínio britânico no Norte do país (um enclave imperial de Londres chamado Ulster) quando essa universitária foi às ruas nas passeatas de 1968. Sua imagem frágil ao megafone criou um fato novo junto à leveza da minissaia de Mary Quant e o começo dos Beatles.

O gesto de Devlin (tornou-se uma celebridade como Ângela Davis, quem se lembra das duas?) adquiriu um caráter simbólico para a verde e bela Irlanda dos mitos celtas que acabara na orbita do catolicismo ultraconservador e do sistema patriarcal fora do século 20.

Na divisa do anedótico com o preconceito, os irlandeses apareciam só como ruidosos e briguentos frequentadores de pubs. Nesse cenário, uma mulher foi à luta e, como representante do Partido Republicano Socialista Irlandês, chegou ao parlamento inglês (1969-74). Numa sessão memorável, deu um tapa no ministro do Interior da Inglaterra quando este defendeu os soldados britânicos que massacraram 29 civis irlandeses desarmados em um protesto conhecido como Domingo Sangrento. Devlin de certa forma cabe em Dançando em Lúnassa, de Brian Friel.

Terra de alguns dos maiores escritores do Ocidente, o país durante séculos foi desimportante diante dos impérios e potências econômicas e militares. Mas essa brava gente que emigrou em massa para os Estados Unidos em tempos de fome soube conquistar a independência em 1922, após levantes e guerrilhas sangrentas. A Inglaterra ainda assim manteve o controle do Norte do território, situação ainda não totalmente resolvida.

O clima de incerteza política e desprestígio diante da Europa fez com que uma parcela da elite intelectual também emigrasse: de Oscar Wilde e James Joyce a Bernard Shaw e Samuel Beckett. Mas houve escritores que ficaram para imortalizar uma Irlanda de contradições e belezas. Dentre os que persistiram na literatura nacional plena de paixões está Brian Friel.

Nascido em 1929, ele é o poeta da Irlanda modesta que felizmente hoje saltou para o progresso. Lúnassa - ou a versão em cena - na realidade não faz menção geográfica, embora integre o elogiável projeto do diretor Domingos Nunez e da Cia Ludens de difundir a dramaturgia irlandesa. O panorama dramático aqui é o isolamento e a desesperança em um mundo atemporal, não fosse a menção indireta à Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e à industrialização da Irlanda.

Afronta ao catolicismo. Friel exalta cinco mulheres que não se casaram (só uma é mãe solteira, e isso é um sério problema). São bordadeiras e rendeiras que se bastam modestamente até a chegada da fábrica de roupas e o consequente desemprego para um trabalho caseiro e ancestral dentro de um cotidiano rude no qual a presença masculina é desejada e ao mesmo tempo fonte de problemas.

O único a trazer uma nota diferente na biografia é o irmão, padre e ex-missionário na África, que absorveu valores religiosos da Uganda. Um personagem assim, e simpático, é uma afronta do dramaturgo ao rígido catolicismo nacional. A trama forma um círculo de pequenos acontecimentos cotidianos, alegrias mínimas numa galeria de temperamentos que vai do agressivo ao delirante.

Ampliaria talvez o peso afetivo do espetáculo se a ele fosse acrescentado uma gota a mais de melancolia, como a do narrador da historia. É ele quem conta, já em um tempo futuro, o ato final da família. Entre risadas e queixas femininas, há uma nevoa de frustração mal contida e que pode ainda ser acentuada.

Obra realista com um fundo histórico e envolvendo criaturas frágeis que sobrevivem apesar das frustrações, Lúnassa não pretende alcançar a dimensão trágica ou épica. Tem mais parentesco literário-psicológico com À Margem da Vida, de Tennessee Williams.

O diretor Domingos Nunez teve a sabedoria da discrição. Abre mão dos grandes efeitos e deixa fluir o texto nos gestos, vozes e expressões de um elenco impecável: Denise Weinberg, Sandra Corveloni, Clara Carvalho, Isadora Ferrite, Fernanda Viacava, Bruno Perillo e Renato Caldas. Atuações tão harmoniosas que dificultam, ou dispensam, realces particulares. São talentos em delicada harmonia.

CRÍTICA

DOMINGOS NUNEZ ACERTA AO OPTAR PELA DISCRIÇÃO EM DRAMA DE BRIAN FRIEL

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