Arvo Pärt, sons sagrados

Com o holandês Ralph van Raat ao piano, a Naxos lança CD com criações do estoniano

O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h08

Quem assistiu aos concertos da temporada 2011 da Osesp com certeza ouviu obras do compositor estoniano Arvo Pärt, escalado como "compositor transversal" da temporada 2011 que está terminando. E constatou que ele é uma exceção no panorama da música contemporânea. Consegue vender muito disco e é conhecido bem além das estreitas fronteiras das músicas contemporâneas.

Faz música acessível a todo tipo de ouvidos, música tonal, ligada a uma evidente espiritualidade que já lhe trouxe problemas junto às chamadas vanguardas. Foi xingado de oportunista pelos papas europeus contemporâneos.

Quem assistiu, na TV Cultura, há algumas semanas, ao excelente documentário Arvo Pärt - 24 Prelúdios para Uma Fuga, deve ter concluído que ele não passa a imagem de um oportunista. Aquelas longas barbas não são apenas um acessório exótico. Pärt é assim mesmo, um sujeito fechado, introspectivo, que parece ter encontrado a essência da música, à sua maneira, abolindo modas. Quando os compositores da órbita soviética eram obrigados a assumir posturas conservadoras e fazer música tonal, até os anos 80, Pärt flertou com a música serial e quase posou de vanguardista, 'pero non mucho'. Isto é, não foi radical como Penderecki, por exemplo, outro que nas últimas décadas retornou ao leito da música tonal.

Uma vez livre das pressões do regime soviético, Pärt fez o contrário: mergulhou na música medieval, encantou-se com os sinos e instituiu o que chama de música "tintinabuli", que explora a série harmônica de um só som. É música tonal até a medula, com tinturas espirituais, já apelidada de "minimalismo sagrado", que pode soar oportunista.

É, portanto, daqueles compositores que provocam sentimentos radicais: ame-o ou odeie-o. Uma coisa é certa: sua música, assim como a de outros compositores contemporâneos do Leste europeu, como Penderecki e Gorecki, além de britânicos como John Tavener, tem ajudado a ampliar o nicho de atuação e por consequência o público das músicas contemporâneas.

Pärt completou 75 anos em 11 de setembro. A Naxos acaba de lançar no mercado internacional o CD Pärt Piano Music, com o holandês Ralph van Raat. Na verdade, ele possui duas partes bem definidas: várias peças mais curtas de piano solo, basicamente compostas nos anos 50/70; e uma consistente e longa peça para piano e orquestra mais recente, de 2002.

Com exceção da vinheta de pouco mais de 1 minuto Für Anna Maria, de 2006, as peças de piano solo restantes distribuem-se entre 1958 e 1976. As quatro sonatinas, opus 1 e 2, de 1958 e 1959, surpreenderão os que associam Pärt a música zen. Puro Prokofiev com pitadas de Shostakovich. Ou seja, exercícios escolares, pastiches. Na "Partita" opus 2, ele flerta com música serial nos 50 segundos da Toccatina inicial, mas em seguida indica alguns dos futuros caminhos que abraçaria na fughetta e no larghetto. No ostinato final, retorna a Prokofiev.

Van Raat mostra qualidades nas já mais características Für Alina, de 1976, e Variações do ano seguinte, em que o Pärt zen surge de corpo inteiro, deixando para trás as duas sinfonias seriais da década de 60. Nas seis Variações Sobre a Convalescença de Arinuschka, de 1977, duas linhas melódicas caminham em velocidades diferentes e as indicações de pedal de sonoridade são muito precisas na partitura. Criam-se, assim, consonâncias e dissonâncias sem movimentações bruscas. 1977, não podemos esquecer, é o ano em que Pärt escreveu dois dos maiores hits contemporâneos: Fratres, gravada por Keith Jarrett para a ECM; e Cantus in Memoriam Benjamin Britten.

Em Alina, uma de suas peças mais conhecidas, escrita a propósito da mudança de uma jovem estoniana para o Ocidente, novamente duas linhas melódicas funcionam quase como cantochão estático e as sonoridades são exploradas até o limite - é o Pärt que até hoje faz sucesso.

A peça mais ambiciosa e bem resolvida do CD é Lamentate, para piano e orquestra. É uma homenagem específica a uma escultura, Marsyas, do escultor indiano-britânico Anish Kapoor. Pärt a compôs em 2002, por encomenda da Tate Modern, galeria londrina que a expôs pela primeira vez. A relação com a música é evidente, já que Marsyas foi, na mitologia grega, o primeiro sátiro frígio a compor para a flauta (um dos mais belos momentos é o solo de flauta em Solitude Stato d'Animo).

A escultura, revela Pärt, levou-o a confrontar-se com a mortalidade. O lamento do título refere-se aos que sofrem de dores e desesperança (Marsyas foi castigado por Apolo por tê-lo desafiado).

Uma encantatória e lentíssima fanfarra, intitulada "Minacciando", abre esta peça curiosa e ao mesmo tempo muito interessante. Os títulos dos movimentos dão uma ideia dos objetivos do compositor: Minacciando, Spietato, Fragile, Pregando, Solitude stato d'animo, Stridendo, Lamentabile, Risolutamente, e Fragile e conciliante. Apolo e Dioniso, música zen e metais agressivos, compartilham o espaço sonoro.

Em seus 35 minutos, exige dos intérpretes extrema concentração para não baixar a guarda, banalizar um discurso sonoro que se pretende metafísico. Neste sentido, o pianista Ralph van Raat e a Filarmônica de Câmara da Rádio Holandesa, regida por Joan Falletta, saem vencedores, porque mantêm o interesse todo o tempo.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.